Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > A NOVELA JB-GAZETA

Nem Chatô, nem Murdoch; o tycoon está nu

Por lgarcia em 09/12/2003 na edição 254

A NOVELA JB-GAZETA

Luciano Martins Costa (*)

Há uma aposta correndo nas rodas de jornalistas, em São Paulo: quanto tempo o empresário baiano Nelson Tanure vai levar para entender que a Gazeta Mercantil não é o Jornal do Brasil? Na queda de braço que mantém com os funcionários e outros credores da empresa dilapidada durante a gestão de Luiz Fernando Levy, o proprietário da Companhia Brasileira de Multimídia tem justificado a fama de negociador implacável, frio e sem limites. Mas seu
estilo já produz um antivírus cujos efeitos podem ser percebidos numa amplitude geográfica que vai da sede da Justiça do Trabalho em São Paulo ao Palácio do Planalto. O tema já foi soprado ao ouvido do presidente da República, e pelo menos um interlocutor garante ter ouvido que não se repetirá na imprensa, durante este governo, o episódio que marcou o fim da TV Manchete e a transferência de propriedade da marca Jornal do Brasil para a empresa de Tanure.

Assessorado por um time de advogados especializados na exploração de liminares e com uma estratégia baseada principalmente na condução dos oponentes ao paroxismo ? no caso dos jornalistas e outros funcionários, provocado pelo adiamento constante do pagamento de salários ?, Tanure já colecionou desafetos e antipatias suficientes para que o jogo, desta vez, se torne mais difícil para ele. Além disso, a concorrência, que investe no programa de crédito em gestação no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, também tem interesse em esclarecer que espécie de negócio se arma entre Levy e o dono do JB.

Muitos ainda se perguntam qual o real interesse de Nélson Tanure em negócios de imprensa, um setor do qual se sabe que, no modelo de negócio atualmente em uso, não promete grandes recompensas ao capital. Avesso a entrevistas, o empresário tem dado poucas pistas de até onde pretende chegar. Chamá-lo de “novo Chateaubriant” pode ser um equívoco de origem, uma vez que o fundador dos Diários Associados gostava de exibições
de riqueza, coisa que Tanure só faz para platéias pequenas e muito afinadas com seus interesses. Tampouco se justifica chamá-lo de Murdoch: faltam-lhe dólares e poder.

“Empresa azeitada”

Em abril de 2001, nas comemorações dos 110 anos do Jornal do Brasil, ele se permitiu radiografar por Mario Sergio Conti, então diretor de redação do jornal. Em um rápido e simpático perfil, no qual se dá conta de sua origem libanesa e seu fervoroso catolicismo, diz-se que, para justificar sua opção em investir na imprensa, Tanure cita uma frase do filósofo alemão Friederich Nietzsche: “Lá, onde mora o perigo, também mora a salvação”.

Ali também se descortina um pouco do seu interesse por marcas bem posicionadas no mercado de comunicação, o que inclui a Gazeta Mercantil: “Para o empresário, as firmas tradicionais detêm algo mais que o seu valor material”, reporta o texto, citando-o como tendo afirmado que “[as firmas tradicionais] têm ativos intangíveis, valiosíssimos. A tradição do JB, por exemplo, tem um valor inestimável”.

Em outra ocasião, Tanure deu mais pistas de como pretenderia transformar velhas e valiosas marcas de imprensa em negócios sustentáveis. Afirmou que o desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação abre novas perspectivas de negócios que os antigos gestores das empresas não aproveitaram devidamente, e deu mostras de entender que o ponto de partida seria uma “empresa azeitada”. Essa, então é sua receita: uma boa marca, uma estrutura empresarial “azeitada” ? ou seja, eficiente e equilibrada ? e tecnologia.

Pelo visto, ele não tem tido problemas em se apropriar de marcas tradicionais e valiosas, se bem que, no caso da Gazeta Mercantil, resta um longo caminho até que a Justiça transfira completamente a propriedade da marca para sua Companhia Brasileira de Multimídia. E, como já se disse acima, o atual governo não está propenso a facilitar as coisas sem uma solução adequada para o passivo trabalhista e uma garantia de relações sadias com a lei.

O problema tem sido sua concepção de “empresa azeitada”: se isso inclui, como parece, condicionar o cumprimento de obrigações trabalhistas ao fluxo de caixa, o jogo tende a favorecer os apostadores que jogam em sua derrota. Se, como pode ocorrer, ele se convencer de que nunca terá a marca se continuar jogando com o desespero dos funcionários e outros credores, e aceitar um pouco mais de risco no negócio, a balança poderá tender a seu favor.

Governança transparente

A mística do empreendedor irresistível e do negociador imbatível já vem se desfazendo desde abril de 2003, quando a Justiça denegou, em primeira instância, sua pretensão de arrecadar um milhão de reais da revista Veja, sob pretexto de haver sofrido danos morais por conta de uma reportagem sobre um mal-afamado lobista de Brasília. E se desgastou ainda mais com o episódio da retirada, ainda sub judice, de seus direitos sobre o título Forbes no Brasil. “Se danos morais experimentou o autor em razão daquele escrito, decorreram de sua exacerbada sensibilidade, circunstância que não pode ser admitida quer para obstar o exercício do dever de informar, quer para obrigar a requerida a lhe pagar qualquer indenização”, diz a sentença que deu ganho de causa a Veja e condenou Tanure a pagar as custas do processo.

O episódio, aliás, abre mais algumas luzes sobre a personalidade do tycoon que nos cabe neste tempo de muitas mediocridades: em seus estudos sobre como ganhar dinheiro com a imprensa, parece ter faltado aquela lição a respeito de independência e resistência a pressões, características que estão na origem do valor das marcas que tanto admira e deseja. Ceder à “exacerbada sensibilidade” para pressionar uma revista não é propriamente o que poderia garantir esse valor.

Nem Chatô, nem Murdoch, tampouco um tycoon ? expressão, por suposto, nascida de um equívoco do explorador americano Mattew Perry, que em 1854 abriu o comércio do Japão para os Estados Unidos e, impressionado com a indumentária do comandante militar japonês, o “shogun”, supôs estar tratando com o imperador. O título dado ao “shogun” ? “taykun” ? deu origem à expressão que passou a designar magnatas com poderes de príncipes.

No caso em pauta, de pouco tem adiantado a esgrima de advogados espertos a serviço do empreendedor: ele precisa agregar à sua receita de bons negócios alguns ingredientes com os quais não parece possuir afinidade: governança transparente, ética e respeito humano, para começar.

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