Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > e)

Nem tudo pode, mas é possível ousar

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

TV UNIVERSITÁRIA

Mozahir Salomão (*)

Criticamos o jornalismo das TVs comerciais pelo que deixam de cobrir, pelo que não cobrem devidamente ou cobrem com superficialidade ou com excesso. Criticamos muitas vezes as TVs chamadas públicas e/ou educativas ? que em alguns casos são mais TVs estatais ou mesmo de governo ? pelo jornalismo chapa-branca, oficial e nada compromissado com o interesse público. O que dizer do jornalismo nas TVs universitárias?

Gostaria, primeiramente, de discordar veementemente do que afirmou no Observatório da Imprensa o professor Antônio Brasil, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que descreveu as TVs universitárias como um cemitério de mortos-vivos, comensais de benesses das reitorias [veja remissão abaixo]. Textualmente, disse Antônio Brasil que "nas TVs universitárias brasileiras não pega bem criticar nada, muito menos as universidades. Essas emissoras também ignoraram as eleições brasileiras em nome da paz, da tranqüilidade e da segurança de uma omissão muito lucrativa. O único jornalismo que conhecem é o jornalismo chapa-branca, aquele que costuma não dizer nada e elogiar tudo". Prefiro não acreditar que somos, nas TVs universitárias, tão espertamente passivos.

Uma reflexão sobre o jornalismo na televisão universitária não pode desprender-se, certamente, da missão que esse tipo de TV deve cumprir e do papel que o conjunto da sociedade espera dessa mesma televisão.

Temos então alguns aspectos que parecem-me interessantes: a) o porquê de se ter jornalismo em TVs universitárias; b) que tipo de jornalismo televisivo será exercido; c) que práticas jornalísticas ? da pauta diferenciada à busca de novos formatos e linguagens ? as TVs vão abrigar; d) como viabilizar uma convivência harmoniosa entre a correria e as intensas demandas da produção da notícia e outros produtos jornalísticos com os outros programas da grade da emissora e, por último, e) como evitar que o fim ? o produto, o telejornal ? não prevaleça sobre o processo, o meio ? que deve ser o objetivo principal: a participação dos estudantes.

A equação não parece simples de ser formulada e muito menos de ser resolvida. Questões como público potencial ? os assinantes do cabo, dificuldade de medição e conhecimento sobre a audiência, o apelo institucional das universidades pela cobertura cotidiana; o apelo agudo do factual que diariamente move a imprensa em geral e, é claro, sempre, os poucos recursos e difíceis condições gerais de produção, colocam-se como variáveis que em nada contribuem para o delineamento dos caminhos que o telejornalismo universitário pode trilhar.

A busca de um efetivo jornalismo cívico, renovado, sensível às causas do bem comum e com a promoção humana parece ser um bom começo. O estabelecimento desses conceitos norteadores para a prática jornalística na televisão universitária pode contribuir para a construção de um telejornalismo esclarecido ? sintonizado com um verdadeiro projeto pedagógico e compromissado com a cidadania.

Da referência conceitual à prática, bem sabemos que, em geral, os obstáculos são muitos e nada pequenos. Otimizar poucos recursos técnicos e de pessoal, chegar à angulação correta, moldar linguagens interessantes e fugir da exclusiva perspectiva da singularidade (no conceito de Genro Filho) não é fácil tarefa, principalmente diante de um público de um país cuja televisão aberta ? gratuita ? tem vícios, conteúdos equivocados e abordagens irresponsáveis, mas que reconhecidamente tem impressionante capacidade técnica e, em boa porção, competência estética.

Vez ou outra os próprios editores da PUC-TV se pegam em dúvida se devemos ou não cobrir determinada pauta factual ? a chacina na periferia, o soldado que matou a mulher e os filhos… Como modular a cobertura política, como abrir espaço no noticiário para o comunitário, mas isso vale a pena ? se as comunidades não têm acesso ao cabo? Perguntas que boa parte de nós se faz praticamente todos os dias.

Um telejornal que se pretende cívico deve, antes de tudo, informar com precisão e saber contextualizar o noticiado. É indispensável oferecer condições para que o telespectador estabeleça com a informação reais possibilidades de compreensão e referenciação com a realidade imediata. O papel clássico e precípuo que tem o jornalismo de mediação é atribuição inarredável de quem se dispõe a contar o mundo por meio de notícias. Não há como escapar disso.

Jornal 15 Minutos

O jornal 15 Minutos, da PUC-TV, obteve em Belo Horizonte reconhecimento pela sua qualidade e seriedade jornalística. Criado pela professora Sandra Freitas, o telejornal vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 9 da noite. É transmitido simultaneamente pela PUC-TV e TV Horizonte. O jornal procura aliar abordagens equilibradas e angulações corretas e responsáveis. Além da permanente busca de uma linguagem que procura se diferenciar.

Como assumi recentemente a direção da PUC-TV de Belo Horizonte, não me coube decidir se a televisão teria ou não um jornal. A decisão foi em relação a se valia a pena mantê-lo. Sinceramente, não tive dúvidas em relação a isso. Um telejornal produzido numa TV universitária pode ser um espaço consagrado de aprendizado para todos ? profissionais e estudantes. Se há algum argumento que pese contrariamente está no nível de investimento necessário. Fazer telejornal diário é caro. Da gasolina do carro da reportagem aos equipamentos de externa e recursos humanos ? nada é barato. Mas se há a possibilidade de investimento, tanto melhor. No caso do 15 minutos, como o jornal vai ao ar à noite, em vez de reduzir os custos, uma alternativa foi potencializar o investimento. Solução: criamos o jornal das sete e meia da manhã: o Primeira Edição. Aproveitamos matérias da noite anterior, temos entrevista de estúdio e ainda damos as notícias importantes da noite-madrugada.

O 15 minutos quer agora ir mais longe. A equipe do jornal inicia em janeiro o que todos esperamos que seja uma fértil discussão sobre os conceitos de onde devem se originar ou derivar os critérios para a definição das pautas, abordagens, seleção de entrevistados, formatação da notícia, a proposição de uma plasticidade. Um telejornalismo cívico que deverá emergir de um projeto fundado em claras definições editoriais, e também pedagógicas, políticas e estéticas. O desejo do exercício diário de um jornalismo crítico e que consegue criticar a si mesmo. De um telejornalismo não apenas fundado na palavra, mas principalmente na força sígnica da imagem. A pretensão que nos move é, acima de tudo, de aprender. De ter a sensatez e o equilíbrio de que na narrativa jornalística nem tudo pode, mas que é possível e preciso ousar.

A experimentação de novos formatos e linguagens encontra campo generoso e mais adequado na televisão universitária. As TVs universitárias devem antecipar-se e criar condições para que o futuro profissional tenha a sua disposição um repertório e alternativas para vencer o cotidiano burocrático e as rotinas às vezes entediantes de produção da notícia. Não se quer reinventar o telejornalismo… nem drasticamente romper com tudo… Mas é preciso querer contar de uma maneira diferente, interessante, testar os limites do próprio discurso jornalístico e suas estratégias operativas. Insisto: acredito verdadeiramente que é possível dar esse novo passo em função da base construída até aqui. Isso, tudo, claro, dá muito trabalho. Mas, com certeza, vale a pena.

(*) Professor da PUC-Minas e diretor da PUCTV de Belo Horizonte; texto apresentado no 6? Fórum das TVs Universitárias Brasileiras, realizado de 27 a 29 de novembro, em Campo Grande (MS)

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