Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Ninguém vence a guerra das trincheiras

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

O CAMPO DE BATALHA SOMOS NÓS ? II

Alberto Dines

Você não precisa ser um especialista em polemologia [estudo das guerras como fenômeno autônomo] para conhecer as características da guerra das trincheiras (do francês trenchée e inglês trench): os adversários estão solidamente assentados e fortificados, separados pela "terra-de-ninguém" e procuram vencer o impasse com sortidas rápidas em geral terminadas com carnificinas.

O desenvolvimento dos tanques e da aviação no meio da 1? Guerra Mundial foi o recurso estratégico e tecnológico para escapar ? literalmente ? do atoleiro. No conflito seguinte, com a blitzkrieg, guerra-relâmpago, as trincheiras desapareceram.

Permaneceu a metáfora ? trincheira como representação da defesa encarniçada, entranhada, arraigada; encastelamento, idéia fixa, obsessão retórica. Esta é a que nos interessa num conflito extremamente móvel e em grande parte travado nos ares.

O fim das ideologias foi decretado nos bunkers acadêmicos há alguns anos, mas as ideologias aí estão, firmes, intactas. E profundamente sectárias. Impenetráveis à argumentação contrária ou à possibilidade de resultantes. E não poderia ser diferente: quanto maior a complexidade dos fenômenos, mais necessárias as simplificações e reduções; quanto mais intensa a aparelhagem da comunicação, maior a quantidade dos sacos de areia e mais sólidas as trincheiras intelectuais.

A questão foi primorosamente analisada na primeira página do Le Monde (4/4/03) num texto intitulado "A volta aos tempos ideológicos", assinado por Jean-Paul Fitussi (infelizmente não apresentado aos leitores distantes do mundo francês):


"O mundo parece mais inquietante que o de ontem. Sua complexidade tornou-se tamanha que torna-se impossível a reversão. A tentação é grande de substituir a comunicação pela informação, os juízos pelas explicações. Todas as questões que formam a atualidade, das mais graves às mais fúteis, o comprovam abundantemente, da guerra no Iraque ao affaire contra o jornal Monde, passando pelo conflito israelo-palestino.

A comunicação consiste em selecionar os fatos, às vezes deformando-os, com o acréscimo de alusões, impressões, sentimentos ou ressentimentos de modo que o conjunto se converta num sistema a serviço de uma mensagem. Importa pouco que esta mensagem afaste-se da realidade, desde que ela complete o trabalho de convencer os outros com os preconceitos dos autores.

(…) Enquanto método geral de propagação de mensagens, a comunicação é um meio privilegiado para as ideologias às quais oferece sua estrutura: a pré-concepção, a análise parcial e engajada da realidade que lhe permite levar a convicção…", etc. etc.


Neste enquadramento teórico podem ser inseridos dados para uma análise circunstancial:

** Mais do que na Guerra Fria, a mídia entregou-se ao sectarismo político. No caso, a nossa mídia. A causa da paz ? como outras politicamente corretas ? está servindo para uma sucessão de leviandades e perigosas generalizações. Uma coisa é ser anti-Bush e sua camarilha, outra é entregar-se à exaltação antiamericana misturando alhos com bugalhos. O editorial do New York Times (reproduzido na segunda-feira, 14/4 pelo Estado de S.Paulo, pág. A 15) é uma demonstração clara de que não se pode confundir a rede de notícias da Fox com as tradições liberais da grande imprensa americana.

Acenderam-se em nossas redações as luzes verdes para o vale-tudo. Se alguns opinionistas podem se dar ao luxo de dizer tudo o que lhes vêm à cabeça, se os especialistas em coisa nenhuma põem-se a falar no rádio e na TV sobre questões que jamais estudaram, por que não os editores de páginas?

Veja-se esta chamada de primeira página da Folha para o artigo de Walter Salles, no sábado (12/2): "O gozo belicista americano numa semana de cão" ? que remete à crônica do cineasta na "Ilustrada" (pág. E 14) cujo título é "Carandiru, Iraque e dr. Gupta". Antigamente este tipo de manipulação chamava-se "brigar com a notícia", depois ganhou o nome de "forçar a barra", hoje, fala-se em "mix" ? faltava um título antiamericano numa primeira página simpática aos ianques [leia também Circo da Notícia, nesta edição do OI].

** O resultado disso é uma perigosa complacência não apenas com o regime de Saddam Hussein mas com as patranhas que o Pinóquio de Bagdá (o ministro da Informação, Mohamed Said al-Shaaf,) passava impunemente em seus briefings. Jamais foi contestado pelos jornalistas, inclusive os brasileiros, mesmo que no outro lado da rua estivesse ocorrendo um desmentido. Os bravos jornalistas do mundo democrático tinham medo de "perder as fontes", não queriam ser expulsos para a Jordânia. Só passaram a contar o que sabiam quando as estátuas de Saddam começaram a ser derrubadas, num belíssimo exemplo de bravura jornalística.

** O que nos leva a uma outra distorção. Os jornalistas ? lá e aqui ? resolveram protagonizar o conflito. Na primeira Guerra do Golfo ficaram tomando coca-cola nos lobbies dos hotéis. Reclamaram: queriam mostrar serviço, aparecer. Agora foi-lhes oferecida a oportunidade de ser incorporados a unidades combatentes como sempre aconteceu em todas as guerras modernas, desde a do Cáucaso [leia artigo sobre o fotógrafo Robert Capa na rubrica Marcha do Tempo, nesta edição]. Não serve, sentem-se censurados quando são proibidos de revelar ao vivo a localização da sua unidade ? certamente querem ser bombardeados pelo fogo amigo do inimigo (ou do inimigo amigo, dá no mesmo).

Exemplo desta obsessão protagonista (ou compulsão vedetista) é a portentosa sentença que abre a matéria de Época (14/4, pág. 52): "Nunca houve uma guerra tão escancarada à mídia quanto à do Iraque". Depois de detalhado relato sobre a morte de três jornalistas (não se falou sobre os outros nove) e de passar ao largo das restrições do regime iraquiano à liberdade dos jornalistas, finalmente a lembrança do fogo amigo, responsável pela morte de 45 dos 138 soldados coligados mortos em combate. Para mostrar equilíbrio, a chamada de capa para as 20 páginas de reportagem foi concebida para deixar Bush eufórico: "O Império no auge" (para o resto do mundo, o império entrou em ocaso no dia em que a Corte Suprema colocou Bush na Casa Branca).

Rajadas típicas da guerra de trincheiras: inúteis, inconsistentes, deletérias. Os jornalistas preferem ficar enterrados no lugar comum, atirando a esmo. Melhor seria que se imaginassem quixotes e saíssem por ai investindo contra o simplismo.

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