Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CRÍTICA / UM ANJO CAIU DO CÉU

Nirlando Beirão

Por lgarcia em 21/02/2001 na edição 109

QUALIDADE NA TV

TV PAGA

"Um registro da lenda J.D. Salinger", copyright Valor Econômico, 16/02/01

"A obra mais lida nos Estados Unidos no século XX, depois da ‘Bíblia’, resulta da talentosa confluência de uma banalidade perturbadora e de uma rebeldia no fundo meio cândida, o que explica a surpresa que foi descobrir um exemplar de ‘O Apanhador em Campo de Centeio’ no bolso da jaqueta de Mark David Chapman, depois daquele tiro fatal dado por ele em John Lennon.

No geral, o efeito da leitura de J. D. Salinger sobre os meninos irritadiços da América era o oposto. Eles sorviam a ‘malaise’ de Holden Caulfield como uma réplica por escrito de suas dores de crescimento, identificavam-se com o herói deprimido e, no máximo, saíam fazendo cara feia para os adultos, em suas noitadas de drive in e milk-shake.

‘O Apanhador’ chega aos 50 anos conservadíssimo, ainda guardando em suas feições de posteridade o frescor de uma brisa ‘teen’. Seu autor, nascido em 1919, vive e passa bem – conforme o que confidenciam os vizinhos, e só eles. Há mais de quatro décadas, sucumbiu a um exílio auto-imposto na área rural de Cornish, Estado de New Hampshire, costa leste dos Estados Unidos. Além dos relatos de segunda mão, entre eles recente biografia de alcova de uma ex-namorada lolita, Joyce Mainard, não há mais registro de sua vida e de sua cara.

Fotógrafos vasculham a distância seu casarão de madeira e Jerome David Salinger não é senão uma sombra esguia e quase fantasmagórica, de passadas palmípedes, que mal se vê no registro único de uma câmera de cinema indiscreta, que, à moda dos paparazzi, operou nos desvãos das ramagens e nas quinas de uma rua.

A imagem roubada desse Salinger então septuagenário – é o que se presume – percorre o documentário que usa o seu nome e a GNT (canal 41) exibirá na quarta-feira, às 22h30. Do início ao fim, as contradições entrechocam-se num filme que se propõe a investigar um ermitão e revelar um recluso, acobertado pela vizinhança, o qual, já na frase de abertura de seu best-seller relutante, profetizava contra ‘essas besteiras autobiográficas, do tipo David Copperfield’. O filme se pergunta: é certo o que estamos fazendo? Os documentaristas ingleses da BBC foram em frente até o limite que a elegância lhes ditou e a intrusão lhes barrou e, assim, concluíram uma narrativa decente e poéeacute;tica. Deixaram a realidade em paz, em seu refúgio rural, e registraram a lenda – e suas versões.

Observar a caminhada encurvada do artista incorpóreo, no vídeo clandestino, é, porém, como flagrar nele o peso de seu paradoxo, o paradoxo Salinger, ou seja, a relação problemática de um autor com sua obra e as – para ele – fatais conseqüências disso.

‘O Apanhador’ é o livro pop por excelência, superior até, nesse quesito, ao ‘Pé na Estrada’, de Jack Kerouac. Pop, de popular – produto do boom da indústria cultural nos anos 50, da cultura de massa, de uma América que começou a devorar o ‘pocket book’ no metrô, da exposição midiática, do consumo do gossip, das prospecções autobiográficas, a intimidade do autor sempre extrapolando as páginas por ele escritas.

O pop é, por natureza, público. Salinger rejeita esse destino manifesto e como o menino aturdido de sua literatura foge e se esconde. É o que sabe fazer em sua defesa, além de escrever (e, como intriga o documentário, se apaixonar por ninfetas). Na Amazônia, os índios arredios temem a câmera por lhes surrupiar o espírito. Salinger não corre tal risco. No seu caso, são as palavras que, impressas em fogo, lhe queimam o sossego e lhe roubam a alma.

CRÍTICA / UM ANJO CAIU DO CÉU

"Novela das 7 é uma colagem", copyright O Estado de S. Paulo, 17/02/01

"Em tempos de blockbusters como Sexto Sentido e Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan, com Bruce Willis, era previsível que a TV mergulhasse no sobrenatural para tirar também sua casquinha. Para isso, a Globo escalou Antonio Calmon que já lidou com o assunto em outras ocasiões: na bem-sucedida Vamp (91), estrelada por Ney Latorraca e Cláudia Ohana, e desastrada Olho no Olho (93), cujo ápice foi um duelo paranormal (de olho no olho) entre Felipe Folgosi e Nico Puig, para escrever Um Anjo Caiu do Céu.

Calmon gosta de cinema. Menino do Rio e Garota Dourada, histórias pueris banhadas de sol e sal, foram seus filmes mais conhecidos. Na TV, o autor não se preocupa em maquiar a predileção. A nova novela das 7 é costurada com retalhos retirados da colcha descartável de Hollywood: A Cidade dos Anjos – em que o anjo vira homem por amor – ou O Céu Pode Esperar – a volta da morte para cumprir determinada missão, são os exemplos mais retumbantes.

Mas como bom figurinista de escola de samba, Antonio Calmon remexe o baú da ficção em capítulos para montar seu enredo. O estilista Anselmo (Cássio Gabus Mendes) é uma versão do afetado Victor Valentim (Luiz Gustavo, tio de Cássio), de Ti-Ti-Ti (85), de Cassiano Gabus Mendes. Impostores, os dois personagens não são costureiros nem gays. Apesar de usar Cassiano como referência (seria uma espécie de homenagem?), Calmon desfila à vontade pelo universo glamouroso e fútil da moda, afinal, ele foi notado pelo grande público em 1989, quando escreveu o sucesso Top Model.

O núcleo jovem que freqüenta a maison de Laila (Christiane Torloni) é calcado na trupe da série Popular, exibida pelo canal Sony (Net e TVA), em que todas as armas são válidas para alcançar a fama e a atenção dos garotos.

Outras semelhanças não são mera coincidência. Tarcísio Meira, como o fotógrafo mulherengo que é resgatado do além para resolver pendências familiares e amorosas, exibe o talento cômico que revelou em Guerra dos Sexos (83), de Sílvio de Abreu, e confirmou na minissérie de Dias Gomes, O Araponga. Christiane Torloni, desaparecida do vídeo desde Torre de Babel está exuberante e engraçadíssima como vilã. Para não surpreender, José Wilker é aquele canastrão de sempre.

Isso não se constitui um problema. Tal como crianças que adoram rever e rever as malvadezas do Pica-Pau, o público aprova a fórmula. A novela, que estreou com 39 pontos de média (na Grande São Paulo), quase 3,2 milhões telespectadores, mantém-se firme na faixa dos 32 e 33. Além do revival de certos momentos, na bula das novelas consta o lançamento de carinhas novas.

A ex-chiquitita Débora Fabella (a Cuca por quem o anjo de Caio Blat se apaixona) cumpre bem esse papel. (A jornalista Leila Reis escreve aos sábados neste espaço. E-mail: leilareis@terra.com.br)"

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