Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CINEMA BRASILEIRO

Nirlando Beirão

Por lgarcia em 28/02/2001 na edição 110

QUALIDADE NA TV

OS MAIAS

"‘Os Maias’, o ibope e o QI de TV", copyright Valor Econômico, 23/02/01

"As pessoas que se queixam do baixo nível da televisão brasileira estão se deliciando em comprovar sua argumentação a partir de um raro momento em que ela consegue ser de alto nível. Trata-se de ‘Os Maias’, o folhetim de Eça de Queirós, com roteiro de Maria Adelaide Amaral e direção de Luiz Fernando de Carvalho.

Não há quem não elogie a riqueza do enredo do seriado, o requinte da mise-en-scène, o desempenho dos atores, a sutileza da trilha, o padrão da produção. Quando surge uma ressalva, diz respeito a certo estranhamento com a cadência da narrativa, lenta para um veículo conhecido por sua ansiedade. Alguns acadêmicos contrariados, em ‘show off’ de erudição, identificam na trama personagens de outras obras de Eça. Com o tu e o ti da sintaxe castiça já houve também quem implicasse.

Mas, no geral, sofisticação e beleza são os predicados que a minissérie suscita. A impressão que fica é de que, à frente de um aparelho que só se dirige ao baixo ventre, o telespectador está sendo levado a uma singular experiência de acionar meia dúzia de neurônios. Não basta para configurar um sucesso? Parece que não. O ibope não anda lá essas coisas. Por toda parte, pipoca a fatalidade derrotista: ‘A TV é burra, não adianta contrariar.’ As pessoas que se dizem adversárias da mediocridade celebram, no entanto, o irrefreável triunfo dela, deixando escorrer dos lábios um secreto ‘eu não disse?’

Há pelo menos uma desinformação, uma hipocrisia e uma falácia nessa atitude. A desinformação refere-se ao ibope. Catorze, 15 pontos num horário em que só as corujas mantêm os olhos abertos é uma proeza. ‘Mas o ‘Linha Direta’, às quintas-feiras, passa a bola com mais de 30 pontos’, pode-se contra-argumentar. É verdade, sim, tanto quanto é verdade que o espectador de um programa não tem nada a ver com o do outro. Não dá para imaginar um único adepto da ruidosa carnificina do Domingos Meirelles deleitando-se, em seguida, com o suave farfalhar de sedas da etérea Ana Paula Arósio.

De mais a mais, tem de ser fanática a audiência de ‘Os Maias’, submetida que é a uma odisséia de horários incertos e a crueldades inesperadas, como a de, às quartas, para ter o soberbo Walmor Chagas no seu vídeo, pagar o mico prévio de um Marcelinho Carioca.

A hipocrisia é daqueles que, num ressentimento suicida, defendem que a malta televisiva não sabe apreciar o que é bom – como se fossem os sacerdotes do paradigma estético e moral, superiores à turba, os únicos capazes de se deliciar com os biscoitos finos do entretenimento. Só reiterando a ‘ignorância’ dos outros é que conseguem ratificar a própria ‘inteligência’.

A falácia diz respeito à natureza da TV. Nenhuma mídia é medíocre ou burra em si. Não há a hierarquia nos meios de comunicação. A ópera não é mais ‘inteligente’ só porque sua platéia costuma se paramentar, em soirée de gala, com gravata preta e vestidos longos. A literatura pode ser de uma solene estultice. A música pode ser pop sem ser pobre. O cinema surgiu sob a desconfiança de gente que nunca haveria de supor que ele geraria, um dia, Orson Welles e Luchino Visconti.

Condenar a televisão de qualidade a pretexto dos que cultivam a televisão da sordidez é de uma malvadeza só para com os profissionais que – ainda que por candura e inocência – insistem em oferecer aos que lhes dediquem um instante de atenção genuína e sem preconceito o melhor de si e de sua arte."

MUDANÇAS NO DOMINGÃO

"Globo decide mudar a direção do ‘Domingão’", copyright Folha de S. Paulo, 21/02/01

"A TV Globo deve anunciar nos próximos dias o novo diretor de núcleo responsável pelo ‘Domingão do Faustão’.

Na semana passada, o apresentador Fausto Silva se reuniu com Alberto Luchetti e o convidou para voltar a dirigir o programa. Luchetti foi diretor de núcleo do ‘Domingão’ até maio passado, quando o também jornalista Luiz Gleiser assumiu o cargo.

O nome de Luchetti, no entanto, encontra resistência na cúpula da Globo. Luchetti é cotado também para dirigir ‘A Escolinha do Professor Raimundo’, que volta em março, diariamente, às 17h.

Um dos principais faturamentos da Globo, o programa de Fausto Silva vem registrando audiência insatisfatória desde maio do ano passado. Se o programa não recuperar o ibope neste ano, corre o risco de acabar em 2002.

Entre junho e dezembro, o ‘Domingão do Faustão’ amargou derrotas consecutivas para o ‘Domingo Legal’, do SBT. Até que venceu o concorrente no programa do último Natal, quando Gugu Liberato reprisou ‘os melhores momentos’ de 2000. O ‘Domingão do Faustão’ voltou a perder do ‘Domingo Legal’ em 28 de janeiro, quando o concorrente retornou ao vivo."

CINEMA BRASILEIRO

"Hora do Brasil", copyright Folha de S. Paulo, 21/02/01

"O preço que as TVs pagam para exibir filmes nacionais está muito abaixo do que deveria, embora a audiência seja alta: em média, 50% a menos do que se paga pelos estrangeiros. ‘A TV brasileira impõe os preços de compra dos filmes e lucra absurdos. É o contrário do que acontece no resto do mundo’, diz Carlos Augusto Calil, ex-Embrafilme e diretor do Centro Cultural São Paulo.

‘O Corpo’, de José Antônio Garcia, conseguiu 31 pontos no Ibope na Globo e foi comprado por R$ 30 mil, para cinco anos de exibição. Outra fita sua, ‘O Olho Mágico do Amor’, custou só R$ 4.000 para a Bandeirantes, por três anos. ‘É preciso regulamentar a compra, esse preço é vergonhoso’, diz o cineasta.

A Globo não divulga quanto paga e diz que o preço varia de acordo com a bilheteria nos cinemas, elenco e horário a ser exibido. A Bandeirantes não quis se pronunciar."

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