Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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PRIMEIRAS EDIçõES > GUERRA & TERROR

Nirlando Beirão

Por lgarcia em 31/10/2001 na edição 145

GUERRA & TERROR

"O Germe De Turbante", copyright Carta Capital, 22/10/01

"A guerra é de um ridículo tão atroz que acaba ficando nas mãos dos generais e dos editores de tevê.

O aqui assinado tem vivido a estranha sensação de não pertencer ao planeta que os telejornais estão cobrindo. Guerra exige uma convicção que me desfalece. Cansei dos talebans, das coletivas na Casa Branca, dos supersônicos bicudos, dos ?efeitos colaterais? nos alvos errados, dos hermeneutas do islamismo, dos economistas de guerra, das exortações de Brasília, da vigilância nos aeroportos, da ansiedade que temos em Pindorama de entrar na foto, nem que seja – de novo, deve-se isso aos solertes telejornais – via a perigosa conexão telefônica flagrada entre o Paraná do Oeste e o Oriente Médio, ou então o nunca assaz lembrado prefeito de Chuí (RS), agente infiltrado – na versão da GloboNews e da testemunha de rosto velado – do islamismo suicida.

Pergunto-me onde errei, se criaturas de turbante e cimitarra não me invadem os sonhos com seus berros de jihad e se as trepidações do combate high tech do Ocidente cristão não me puxam para a frente do vídeo. Por que o sanguinário Bin Laden, que o inimigo converteu ironicamente em ícone, não me causa medo, nem me assustam outros perigos iminentes? Por que não me exaltam as façanhas heróicas e as punições cotidianas, programadas de acordo com a grade televisiva? Sinto-me um solitário do Ibope, o próprio homem-traço.

Perdoe-me o tom pessoal dessas mal-traçadas, mas me corrói o sentimento da exceção, além de me assaltar – é preciso confessar – uma inveja enorme da boa-fé alheia. Que júbilo reencontrar no Jornal Nacional aquele velho parceiro de redação, Luis Fernando Souza Pinto, desterrado em Washington, hoje bissexto nas coberturas. Eis que a guerra recruta sua experiência e ele se apresenta, em meio ao clamor das manchetes e solavanco das notícias, um artista da informação, com a máscara bochechuda da seriedade, a imparcialidade roedora estampada na linguagem corporal e no timbre certo – magnífico intérprete, reconheço, adivinhando-lhe por debaixo do terno impessoal e protocolar o uniforme de camuflagem.

E há aquele outro profissional, Luiz Carlos Azenha, atalaia da liberdade como a antiga UDN, que caminha sobre o mapa-múndi, em excursões didáticas por remotos países deserdados por Deus e irreconhecíveis na confusão de um mesmo sufixo. Sem temer minas e emboscadas, o homem, de uma só passada atravessa os desfiladeiros do Usbequistão para pousar, a salvo, no Casaquistão. Não vejo a hora em que o porta-voz das latitudes e longitudes, tomado de fúria bíblica, contaminado pela histeria dos justos, irá sapatear sobre o Iraque do sempre sinistro Saddam Hussein.

A despeito dos truques cenográficos e das ressurreições em carne e osso, ainda assim não é fácil manter acesa a chama. Fastidiosa e chocha, na tela verde com brotoejas amareladas que dizem ser cenas de bombardeiros, a guerra parece já ter dado o melhor de si como teatro de sensações primárias. Esgotado o estoque de recursos dramatúrgicos, providencia-se outro artifício de mobilização midiática. Saem do alvo os turbantes barbudos do Islã. Entra em cena o pânico do apocalipse bacteriológico. O repórter incapaz de distinguir uma bactéria de um vírus, um fungo de um parasita, assusta a população quanto ao risco da dizimação total e fulminante pelo pó branco. A raça humana está por um fio.

Por favor, parem o mundo: foi vovó que deixou cair um pouco de açúcar na sua correspondência.

Um vexame público? Ou a televisão estará sendo, de novo, subestimada? Digamos que seja um show de superior ironia. Por hipótese: em vez de idiotas consumados, os editores dos telejornais podem, a bordo de seu inesgotável poder de persuasão, estar testando o legítimo direito de esticar a corda da excitação da platéia. Quem sabe não se trata meramente de jogar o jogo do mercado, mesmo que ao preço de infectar de assombro microbiológico os corações e as mentes. É cínico, é pouco ético, mas burro é que não é.

Passado o pavor real do atentado, me digam: quem é que hoje espalha o terror, os terroristas ou a televisão?"

 

"Para ?NYT?, autoridades agiram mal", copyright Folha de S. Paulo, 23/10/01

"O chefe do escritório do ?The New York Times?, no Rio, enviou ontem uma nota aos jornais brasileiros dizendo ter recebido informações erradas das autoridades brasileiras sobre a suposta existência de antraz em uma correspondência interna.

Há quatro dias, o correspondente Larry Rohter distribuiu um comunicado afirmando que um teste para antraz realizado em uma carta enviada ao escritório deu positivo. Essa informação foi desmentida pelas autoridades sanitárias brasileiras.

Ontem, em nota enviada aos jornais, Rohter acusa a assessoria da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) de ter provocado um ?circo? desnecessário. O resultado final dos exames descartou a presença do antraz.

Em entrevista no sábado, no Rio, o presidente da Fiocruz, Paulo Buss, e o ministro da Saúde, José Serra, afirmaram que a fundação e o ministério não haviam comunicado à sucursal do jornal nova-iorquino que os testes preliminares haviam indicado a presença da bactéria.

Rohter desmentiu a afirmação de Buss e acusou a assessoria de imprensa da Fiocruz de ter contrariado acordo prévio feito entre o jornal e a fundação para manter o caso em sigilo.

O correspondente disse que Eduardo Hagge, do Centro Nacional de Epidemiologia, em Brasília, ligou no dia 18, dizendo-lhe que a Fiocruz acabara de lhe informar que os exames preliminares indicavam antraz. Hagge teria recomendado que os funcionários começassem a ser tratados.

O diretor do Centro Nacional de Epidemiologia, Jarbas Barbosa, confirmou ontem o telefonema.

?Aquilo merecia ser investigado, mas quem tomou a iniciativa de dizer que havia grande possibilidade de ser antraz foram eles?, disse Barbosa.

A assessoria de imprensa disse ontem que ?a posição da Fiocruz é não levantar polêmica?. Segundo ela, há um padrão a ser seguido em relação a cartas suspeitas.

Em Brasília, dois funcionários do Palácio do Planalto manusearam ontem de manhã uma carta contendo pó branco, postada em Taguatinga (DF). Eles foram medicados preventivamente pelos médicos do palácio e o pó foi enviado à Fiocruz.

Em São Paulo, o Instituto Biológico divulgou ontem o resultado de novos exames realizados em correspondências suspeitas. Todos deram negativo. Nos últimos oito dias, o laboratório realizou 70 exames e ainda há 30 em andamento. Ontem, pela primeira vez nos últimos dias, caiu a quantidade correspondências suspeitas enviadas ao instituto."

    
    
                     
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