Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > REALITY SHOWS

Nirlando Beirão

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

QUALIDADE NA TV

LETTERMAN RETORNA

"A volta de David Letterman", copyright Valor Econômico, 2/02/01

"A lguma memória prodigiosa há de lembrar que houve um Jim Nobody pioneiro, ou tenha ele o nome que tiver. Mas o fato é que se deve a Johnny Carson, com seu sotaque propositalmente acaipirado, a invenção do talk-show como nós o conhecemos e cultivamos hoje.

Mesa, sofá, microfone à mostra, música de fundo, gargalhadas em off e humor, sarcasmo, ironia – elixir para mais um fim de dia de cão da América estressada. Mesmo quando as piadas passaram a trafegar via ponto, estudadíssimas, o importante é o âncora simular espontaneidade em seu compromisso com o riso. E assim vem proliferando – antes heróis das baby-sitters, agora campeões da TV ‘intelectualizada’ – a linhagem dos profissionais mais supervalorizados da telinha. Cá como lá, na colorida profusão das gabis e galisteus, dos boris e jôs, sem se esquecer, é claro, da resistente Hebe, psicanalista número 1 da nação canarinho.

David Letterman, da CBS, é tudo o que se pode esperar de um talk- showman. Andou sumido daqui em razão do banimento do canal que o retransmitia (Superstation), mas a GNT decidiu resgatá-lo de seu exílio involuntário e a partir desta segunda- feira, com legendas (ou, para os privilegiados, no som original da tecla SAP), o entertainer-símbolo da América volta a falar para o Brasil. Que monsieur Bové, aquele do McDonald’s, não nos ouça, mas Letterman é a prova viva de que a globalização já açambarcou até o humor.

O que Dave tem que Jay Leno e outros apresentadores não têm, além daqueles mocassins rasos e uma mansão em St. Barts? Bacharelado em entretenimento pela escola Johnny Carson, já que foi eventual regra-três do professor, o aluno Dave sorveu os códigos informais do estilo tarde da noite (Late Show é sua marca), a começar pela regra básica e implacável: por mais luminosa que seja a constelação que se reveze no sofá dos convidados, a única estrela sempre será ele – o apresentador. Vocês conhecem o filme.

O resultado disso é a possibilidade muito concreta de que terminem em sangue e ranger de dentes entrevistas com personalidades pop de ego inchado que venham a desvendar, ao vivo e a cores, a armadilha em que se meteram – e que insistam em, de vítimas, se converterem em protagonistas. Madonna apresentou as garras e abriu sua caixinha de impropérios iniciados pela letra F. Drew Barrimore literalmente subiu na mesa. Hillary Clinton achou que faria bem à sua pose de valentona iniciar a campanha ao Senado desafiando o sádico de carteirinha.

David Letterman exacerbou uma fórmula que, no entanto, é tão velha quanto as ‘Mil e Uma Noites’. No entorpecimento baço que precede o sono, histórias banais são narradas por criaturas que, aos olhos do espectador, desfrutam do prestígio midiático (ainda que efêmero) de seres excepcionais. Esta é a sala de visita dos solitários, os que não têm com quem conversar, soturnos e infelizes engolfados na massa amorfa dos que já renunciaram até à esperança nos tais quinze minutos de celebridade.

Um toque de botão e, escornados na poltrona, todos podem sonhar antes do sonho: Kim Bassinger vem hoje me visitar. O incrível – agradeça à produção – é que ela vem mesmo."

REALITY SHOWS

"‘Survivor 2’ é mais show e menos realidade", copyright Folha de S. Paulo, 30/01/01

"Está mais show e menos realidade o suposto ‘show de realidade’ (‘reality show’) ‘Survivor 2’, continuação do inspirador de ‘No Limite’ que estreou anteontem à noite nos Estados Unidos.

Estão lá a bonitinha, o bronco, o oportunista, a sensível, o esportista e até mesmo uma carcereira, Debb, de dar um pouco de medo, mas que foi a primeira a ser expulsa pelos companheiros.

O problema é que os 32 participantes já sabem que vão virar celebridades nacionais. Que vão ganhar sites piratas na Internet. Que serão capa dos tablóides (aliás, parece que uma das meninas fez pornô-soft antes da fama).

Ou seja: diminuiu a graça.

Assim como a versão brasileira, há algumas diferenças entre ‘Survivor 1’ e ‘2’. O cenário agora é o deserto australiano, os participantes são mais ‘malhados’, bonitos e menos pudicos. Além disso, o dia normal de exibição passou a ser quinta à noite, para brigar diretamente com o campeão ‘Friends’, da NBC.

Pelo menos no primeiro capítulo não deu para perceber se há algum gay nudista, o participante mais carismático da série original. Tanto que seu criador, Richard Hatch, venceu o jogo. E virou até verbo nessa continuação. ‘To hatch’ passou a ser sinônimo de fazer alianças e manipular.

‘Survivor 2’ vem coroar o que está sendo chamado de ‘segunda onda’ do ‘reality show’ na TV norte-americana. O boom atual é liderado pelo caliente ‘Temptation Island’, que a Fox exibe às quartas-feiras a uma audiência de 18 milhões de telespectadores por semana, a líder do horário.

Junta quatro casais de namorados numa ilha paradisíaca do Caribe que devem resistir até o final sem trair seu par. Para garantir que a fraqueza ocorra, a produção selecionou 26 homens e mulheres solteiros de acordo com as preferências dos casais, que irão flertar até o limite do bom gosto.

Claro que várias entidades conservadoras estão crucificando o programa, assim como algumas retransmissoras de cidades menores, que cancelaram a exibição. Bobagem. O seriado é tão nocivo para a moral americana quanto o fim do casamento de Meg Ryan.

Além dele, há ‘The Mole’, na ABC, chatíssimo, em que os dez participantes devem cumprir tarefas detetivescas e descobrir quem é o traidor entre eles.

E não deve parar aí. Para a maioria dos telespectadores, a realidade da TV ainda é mais interessante do que a da vida real."

"‘Temptation Island’ afugenta anunciantes", copyright Valor Econômico , 31/01/01

"Um grupo que monitora programas de TV declarou, na segunda-feira, que está fazendo um apelo dirigido às 100 maiores empresas de primeira linha dos EUA que não anunciem no programa ‘Temptation Island’, do canal de tevê Fox, por causa do conteúdo condenável do ‘espetáculo-realidade’, em que beldades vestidas precariamente e bonitões malhados tentam destruir casamentos.

A iniciativa veio depois que três anunciantes de peso, a Sears Roebuck, Quaker Oats e a Best Buy informaram que retiraram os seus comerciais do espetáculo, embora seja um campeão de audiência.

‘Esse é o tipo de atitude que ocorre quando anunciantes vêem o que está passando na TV’, comentou Mark Honig, diretor- executivo do grupo de monitoramento Parents Television Council (Conselho de Pais na Televisão – PTC). ‘Há muitos campeões de audiência, mas os programas de auditório são mais do que meras classificações e os anunciantes estão verificando o conteúdo, para determinar se isto representa algo com que a empresa deseja ser identificada’.

A Sears, que declarou ser membro de um consórcio de anunciantes ‘que defendem a família’, declarou que anunciou durante os primeiros episódios de ‘Temptation Island’, em 10 de janeiro, só porque se tratava de um comercial de cortesia, produzido para compensar um anúncio pré-pago em um outro programa da Fox. Mas a atração não seria o tipo de programa que combina com a imagem da empresa.

Desde o seu inicio, há três meses, ‘Temptation Island’ se transformou em um sucesso sem precedentes. Mas, devido a uma queixa de um membro da Comissão Federal de Comunicações, a Fox se comprometeu a não promover o programa durante apresentações de programas familiares.

‘Estamos enviando uma carta para os anunciantes, pedindo que não invistam seu dinheiro no show’, disse Honig, da PTC. Segundo ele, o grupo não-religioso, sem fins lucrativos, que congrega 600 mil membros individuais em todo o país, está preparando uma carta de aviso sobre outro programa da Fox, ‘Boston Public’. O programa, sobre professores e alunos em um colégio de Boston, é transmitido em horário de audiência familiar, ressaltou, ‘e seu conteúdo é dos piores, no que diz respeito a sexo e ao uso do idioma’.

‘Penso que alguns anunciantes poderiam ser acusados de promover adultério’, disse a executiva responsável por comerciais Lisa Siewers, sobre a agitação em torno de ‘Temptation Island’."

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