Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > SALVE JORGE

Nizan Guanaes

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

SALVE JORGE

"Hoje sou um povo e uma cidade inteira", copyright Boletim Comunidade iG, 8/8/01

"Vestido de branco, roupa de luto segundo o candomblé, para levar Jorge Amado ao Jardim da Saudade.

É velado Jorge no dia do aniversário de Caetano Veloso. Rito de passagem bem óbvio para não deixar dúvida em gente obtusa no que os céus querem dizer.

O que há de comum entre os dois (Caetano e Jorge) é o prazer pela vida e o amor pela Bahia. Os dois sempre cantaram e escreveram sobre ela, mas, sobretudo, desfrutaram-na.

O destino foi bom comigo e fez deles meus amigos. Mais Caetano, até pela idade, e menos Jorge.

No dia em que eu e Jorge Amado nos conhecemos, pela mão de Ludmila Guimarães, amiga mútua, fui visitá-lo em seu apartamento em Paris.

Ele me levou para almoçar em um restaurante vizinho ao apartamento. Andando pelas ruas do bairro, senti que Jorge tinha transformado o Marais no Rio Vermelho (bairro onde ambos moravam em Salvador).

Ele conhecia o cabeleireiro, o açougueiro e era saudado efusivamente por todos, numa conversa ruidosa própria da Bahia.

Fui pelo caminho pensando algo bem culto para impressionar Jorge Amado. Para mostrar a ele como eu era inteligente.

Quando finalmente chegamos ao restaurante e sentamos à mesa o mais teimoso escritor do Brasil, nome mundial Senhor do Rio Vermelho e do Marais, me disse:

? Mas Nizan, como é enorme a bunda de Mãe Cleusa!!!!!

Depois de um almoço assim tão profundamente intelectual e delicioso fui a Fauchon e comprei um licor de 1912, ano em que Jorge nasceu. No fim da tarde, visivelmente emocionado, Jorge Amado me ligou para agradecer. Eu, que sou tímido com meus ídolos, me escondia. Aos grandes a gente não dá, a gente devolve.

E a você Jorge vou fazer seu axéxé, abraçando e beijando Caetano. Respeitando o fluxo da vida que Nosso Senhor mandou. Desfrutando mais a Bahia e cultivando-a como você nos ensinou.

E tentando transformar qualquer pedaço do mundo, como você fez, num delicioso pedaço de Salvador."

 

"Jorge Amado e os seus companheiros de viagem", editorial, copyright O Estado de S.Paulo, 9/8/01

"Durante 12 anos e em seis obras, pelo menos, Jorge Leal Amado de Faria, o mais popular romancista que o Brasil já conheceu, foi também o único importante escritor brasileiro a seguir ao pé da letra os mandamentos do ?realismo socialista?, o estilo que degradou a arte em rombuda propaganda do regime soviético e do ?guia genial dos povos? Josef Stalin, com o seu maniqueísmo de heróis sobre-humanamente dedicados à redentora causa comunista e de vilões burgueses igualmente caricatos, entregues à exploração da classe trabalhadora. Na longa, fecunda e aclamada produção de Jorge Amado, aquele foi um período tão breve quanto execrável, porém não menos bem-sucedido, para os fins a que se destinava o seu trabalho de então, do que – do ponto de vista da qualidade literária – o ciclo dos seus cinco primeiros romances de contundente denúncia social, produzidos ao ritmo de um por ano, de Cacau (1933) a Capitães da Areia (1937).

De fato, mais de uma geração de leitores iniciantes seria levada a simpatizar com o marxismo-leninismo pela apaixonante e mistificadora biografia do dirigente comunista Luís Carlos Prestes, O Cavaleiro da Esperança, escrita por Jorge Amado no exílio argentino, entre 1941 e 1942, publicada originalmente em espanhol e só editada no Brasil depois da queda da ditadura do Estado Novo, em 1945. E não hão de ter sido poucos os jovens, os seus leitores por excelência, atraídos pelo inflamante erotismo de sua ficção – no Brasil e nas dezenas de países onde os livros de Amado eram publicados com grandes tiragens por editoras ligadas aos partidos comunistas locais -, que imaginaram ser verdadeira a sua paradisíaca descrição da vida no bloco soviético, em O Mundo da Paz. Livro de viagens preparado sob encomenda, saiu em 1951, mesmo ano em que o autor recebeu o Prêmio Stalin de Literatura, a suprema honraria reservada aos romancistas talentosamente fiéis à ?linha justa? de Moscou.

A fase comunista de Jorge Amado, que terminou em 1956 – com as históricas revelações do Relatório Kruchev, no 20.? Congresso do PCUS, sobre os crimes do stalinismo e com a invasão da Hungria pelas tropas soviéticas -, o inclui na galeria dos escritores ocidentais de renome que colocaram o seu talento a serviço da mais sedutora de todas as ilusões políticas do século 20. Por ela, arriscaram a liberdade, quando não a vida, antes de identificar no ?socialismo real? a contrafação monstruosa da utópica sociedade igualitária, repudiando enfim, por honestidade intelectual e integridade moral, o totalitarismo soviético. Desse ângulo, o brasileiro Jorge Amado teve como ilustres companheiros de viagem – de volta – o francês André Malraux (La Condition Humaine e L’Espoir), o italiano Ignazio Silone (Fontamara e Pão e Vinho), o inglês George Orwell (1984 e Animal Farm), o húngaro Arthur Koestler (Darkness at Noon), o espanhol Jorge Semprun (La Segunda Muerte de Ramón Mercader) e os americanos Howard Fast (Spartacus), Richard Wright (Native Son) e Lilian Hellman (The Little Foxes), entre inumeráveis outros desiludidos militantes ou simpatizantes comunistas do mundo da cultura e da ciência.

Jorge Amado mudou politicamente e viveu o bastante para presenciar os derradeiros atos de força da URSS, como a invasão da Checoslováquia, em 1968, antes de sua ruína final, em 1991. Mas não se transformou em reacionário nem em cínico: escritor e figura pública, manteve-se leal ao generoso humanismo de sua literatura. Ele tampouco fora um esquerdista hidrófobo, como mandava o figurino revolucionário dos tempos de Stalin – tipo ainda sobrevivente no Brasil de hoje. Mesmo na condição de estrela internacional do Partidão, pelo qual se elegeu deputado federal em 1945, não compartilhava, nem nas manifestações pessoais e políticas, nem nos seus escritos – com as poucas exceções antes citadas -, do rancor característico do modo de ser da maioria de seus camaradas. A capacidade de rir e de amar, o gosto pela sensualidade no sentido mais amplo do termo, preservaram-no da rigidez dogmática de seu inspirador Luís Carlos Prestes – que, ao contrário dele, morreu (aos 92 anos, em 1990) pensando exatamente o que pensava seis décadas antes, quando se converteu ao marxismo.

Como tantos de seus personagens, Jorge Amado cultivava essa peculiar combinação de virtudes e defeitos, tão brasileira e tão baiana. Graças a isso, decerto, os seus romances deram seqüência, no plano da criação artística, à inovadora interpretação sociológica da identidade nacional, legada por Gilberto Freyre – a quem, aliás, a esquerda tacanha nunca perdoou por ter recusado o cânone marxista."


 

"Jorge Amado", copyright Folha de S. Paulo, editorial, 8/8/01

"A obra de Jorge Amado é talvez a maior empreitada literária para tornar o Brasil legível aos seus contemporâneos e atraente aos estrangeiros. A fim de criar um universo de histórias e personagens que interessassem aos brasileiros, escreveu mais de 40 livros, adotando, na maioria deles, a forma clássica do romance. Não se interessou pelas experiências vanguardistas. Queria ser lido por todos.

Sua literatura, de ambição balzaquiana e folhetinesca, buscou descrever tanto a violência que define as nossas relações sociais, quanto a esperança, a ternura e a malícia que ele imaginava constituintes do caráter do ?povo brasileiro?. A Bahia é seu porto, mas os seus livros são todos eles a universalização de lutas empreendidas pelos personagens por justiça ou pelo direito de viver.

É essa confluência entre sentido social e humanista da obra, reivindicação política, riqueza romanesca e forte coloração local que fez a fama internacional de Jorge Amado. A alguns estrangeiros, porém, o que fascina no escritor não é o elemento tropical, mas o engajamento, expresso principalmente em suas obras iniciais, seja na revolução comunista, seja na expressão romanesca dos ?gestos e gritos? da vida, como assinalou Albert Camus.

Para descobrir esse Jorge Amado dos primórdios é preciso hoje algum esforço. A sua glória obscureceu a sua literatura. As facilitações que pôde fazer nas obras finais eclipsaram o drama de seus principais livros. Aos poucos, Jorge Amado foi folclorizado e se folclorizou, enquanto vinha por terra o comunismo e a sua influência na política local. Seus personagens se transformaram em imagens de uma brasilidade arquetípica. Ele próprio se tornou ponto turístico da Bahia, que por sua vez passou a se confundir com seus livros.
Jorge Amado realizou a proeza que almeja todo escritor. Viu sua obra penetrar no imaginário de seu tempo e construir um mundo que não é mais particular, mas de milhares, de uma época inteira. Isso faz um clássico. Um dia talvez a sua outra ambição possa se manifestar: a de que essa obra seja lida como apelo à libertação e à liberdade, que, na sua literatura, constituem a glória e a razão de viver.

    
    
              

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