Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > NOTAS DE UM LEITOR

No começo, era Krugman

Por lgarcia em 28/10/2003 na edição 248

NOTAS DE UM LEITOR

Luiz Weis

O 11 de setembro fez a imprensa americana virar chapa-branca e, agora que a guerra no Iraque deu no que deu, redescobriu a crítica e a apuração independente, obrigando Washington a partir para o contra-ataque.

A história, com exemplos imperdíveis, é o assunto do artigo do colunista Frank Rich, do New York Times, que em boa hora ocupa mais de meia página, sem imagens, no Estadão de 26/11.

Mas não é toda a história. Para ir aos inicialmentes, nada melhor do que os escritos de outro colunista do Times, Paul Krugman, agora reunidos em livro, com uma introdução e uma série de ensaios adicionais. O livro se chama The great unraveling: losing our way in the new century, que pode ser traduzido livremente como "O grande desenrolar: perdendo o rumo no novo século".

Na grande imprensa, Krugman ? por ser economista e não jornalista ? foi o primeiro a se horrorizar e a chamar a atenção para a leniência da mídia americana, ajudada pela cordura dos políticos democratas depois de perderem a Casa Branca no tapetão, em relação às políticas de Bush, começando pela economia, com os cortes de impostos para os mais ricos.

"Krugman entrou na cena jornalística no momento em que a maioria dos grandes jornais e redes e o grupo político de Bush estavam, harmoniosamente, contando a mesma história", observa outro colunista ainda (ex, no caso) do Times, Russel Baker, que agora escreve no New York Review of Books.

Por que Krugman pôde detectar "a ultrajante desonestidade da administração Bush muito antes do que o resto do comentariado", como ele mesmo diz? A resposta é que, sendo economista e podendo dialogar fluentemente com os seus pares ? o que nem os bambas do colunismo político conseguem ?, Krugman "fez as suas próprias contas", escreve Baker, e (agora as palavras são do economista) "rapidamente percebi que estávamos lidando com a verdadeira mendacidade".

Não só Krugman pôs a boca no mundo, com palavras duras que não são de bom-tom nem no colunismo dito de esquerda nos EUA, como se começou a perguntar, por escrito, por que a imprensa e a TV não enxergavam o que a ele parecia mais do que evidente ? as mentiras escrachadas dos números usados para justificar a política econômica do bushismo.

Preguiça intelectual, desinteresse em fazer o dever de casa, promiscuidade com os poderosos de Washington foram algumas respostas que encontrou (e que não são muito diferentes para explicar a complacência de um certo número de articulistas com o fiscalismo de Malan e Palocci).

O que Krugman tem de formidável, além de um estilo cortante e da sua recusa de chamar urubu de meu louro, é que ele continuou a desancar o governo Bush mesmo depois do 11 de setembro. De fato, era preciso ter balls, como dizem os gringos, para escrever, dez semanas mais tarde, que nesses tempos o toma-lá-dá-cá entre empresas e governo vinha "embrulhado forte na bandeira".

O leitor brasileiro teve a oportunidade de ouvir, durante muito tempo, as marteladas de Krugman, porque o Estado de S.Paulo transcrevia regularmente os seus artigos na página 2 do caderno de economia.

Deixou de fazê-lo à medida que os textos foram ficando cada vez
mais "políticos". Que se arranjasse outro lugar para eles,
então. Para quem não pode ir atrás deles na internet, fazem
uma falta danada.

 

No Globo de 25/10 se lê que a viagem de Lula à Espanha para receber um prêmio consistiu em "48 horas de vôo até as Astúrias para passar apenas 12 horas numa cerimônia". Lê-se também que "um jornalista pagou seis euros pelo café de Dirceu".

Viagem longa, essa. (Do Brasil à Espanha, em vôo sem escalas, leva-se umas 10 horas.).

Cerimônia chata, essa. (A entrega do Prêmio Príncipe das Astúrias a 10 personalidades internacionais, entre elas o presidente brasileiro, levou cerca de 3 horas.)

Café caro, esse. (Um cafezinho na Espanha custa entre 0,90 e 1,20 euro.)

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