Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > DESAFIO AOS LINGÜISTAS

Não estamos perdidos

Por lgarcia em 25/12/2002 na edição 204

DESAFIO AOS LINGÜISTAS

Sergio Rodrigues (*)

Como é rápida a Sra. Fittipaldi ao tirar suas conclusões, que ela gosta de chamar ? e chamar, e chamar de novo ? de "democráticas e democratizantes" [remissões abaixo]. O curioso é que a Sra. Fittipaldi parece pouco equipada para o exercício de virtudes tão elevadas. Para ela, é "arrogante, ignorante e/ou safado" qualquer um que discorde das suas concepções ? salvacionistas e coercitivas ? do que seja língua, linguagem, cultura, povo e nação; subfalares regionais e sociais, fluxos migratórios, construção de identidades sociolingüísticas, cidadania e limites da educação formal para dar conta de um drama que extrapola para todos os lados a competência de lingüistas e professores de português.

Um debate amplo sobre o tema, que faria bem demais ao ambiente, me parece mais próximo hoje do que ontem. Não imagino governo melhor que o PT para pôr na mesa uma discussão sobre língua, cultura e identidade nacional, o que inclui não só os analfabetismos (o propriamente dito e o funcional), mas uma cacetada de fatores, entre eles a trivialização galopante da cultura nas camadas "cultas" da sociedade também. Infelizmente, em todo o arco de alianças do PT, o PC do B parece o menos indicado para a tarefa. A língua escrita perde espaço para a língua falada, esta para as imagens. A internet é a internet, e fala inglês. Qual é o diagnóstico? Estamos perdidos! A cura? Estatizar a língua! O remédio? Transformar todos os games em "jogos", todos os surfistas em "ondistas"!

Estamos perdidos nada, Sra. Fittipaldi. Tínhamos mais de 80% de analfabetos literais há oito décadas, estamos avançando. Me desculpe, mas sua estimativa de 98,8% para o analfabetismo funcional na sociedade brasileira é meio cômica, meio insultuosa. Ninguém é louco de negar que temos, em convivência dialética com nossa enorme dívida social, uma baita dívida educacional, cultural, espiritual. No entanto, insistir na estimativa de que 98,8% dos brasileiros não entendem lhufas do que lêem é subestimar a inteligência alheia. É também fazer o papel político subalterno do semeador de pânico.

O português brasileiro é uma bela e vigorosa língua, menos maltratada do que imaginam os gramatiqueiros, mais necessitada de cuidados do que sonham os curadores de bibliotecas. Uma língua tão diversa, tão rica e tão viva não merece as viseiras estatizantes que os defensores do projeto Aldo Rebelo lhe querem tascar. Ninguém disse que não se pode legislar sobre língua. Pode sim. Os legisladores fariam um bem enorme à ortografia brasileira, por exemplo, se disciplinassem o hífen. Os índios brasileiros andam necessitados de uma lei que proteja ? ou no mínimo estimule o estudo ? de suas línguas moribundas.

Debate de melhor nível

O que, a meu ver, não faz o menor sentido e está fadado a cair no vazio é essa opção voluntarista por diques e canais construídos pelo Estado para regular nosso jeito de falar, escrever e viver. Alvo principal: as palavras estrangeiras, "imperialistas", o que a rigor inclui quase todo o vocabulário técnico-científico ? muitos milhares de vocábulos, centenas deles de primeiríssima necessidade ? criado nos últimos 100 anos. Francamente, tanta estreiteza aplicada a uma língua como a nossa, que tomou de empréstimo (e jamais "devolveu") incontáveis palavras a idiomas estrangeiros, é de dar dó.

A boa notícia é que, se aprovarem, não vai pegar.

Eis a minha modesta opinião, Sra. Fittipaldi. A essa altura cumpre esclarecer que, embora lisonjeado, não posso aceitar minha inclusão entre os "supermestres da lingüística e das letras". Sou um jornalista sem qualquer credencial acadêmica além da graduação ? embora tente, como escritor apaixonado pelo assunto, divulgar saberes linguageiros a bom mercado em minha coluna no Jornal do Brasil. A senhora pode não acreditar, mas eu também perco o sono com o país que deixaremos para nossos filhos. Só não acredito que, censurando o hot dog da carrocinha e descartando os verdadeiros mestres da lingüística por estúpidos ou vendidos ao ouro de Washington, a senhora e seu grupo possam chegar a resultado decente.

O Observatório fica nos devendo um debate de melhor nível sobre o tema.

(*) Jornalista

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