Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA E HORÁRIO ELEITORAL

Não os deixem sós

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

MÍDIA E HORÁRIO ELEITORAL

Luiz Weis (*)

Desde terça-feira, 20/8, quando os candidatos a presidente da República inauguraram o horário de propaganda eleitoral gratuita, a mídia, e muito especialmente a TV, pode fazer uma de duas coisas.

Ou selecionar o que os presidenciáveis disserem e mostrarem de mais importante nos seus programas e inserções (separando o que faz notícia do que apenas faz barulho, conforme o slogan da revista Time, em tempos idos), para ajudar o eleitor a distinguir o que neles haja de substancial e de meramente adjetivo.

Ou isso ? que já não é pouco ? e mais: cobrar dos candidatos as generalidades, simplificações, meias-verdades e contradições que existam nos seus pronunciamentos e nos eventuais ataques aos adversários. A idéia dessa marcação homem-a-homem é não deixar que fique por isso mesmo qualquer tentativa de passar a perna no eleitor, mesmo nas pequenas coisas.

Não é porque os candidatos (com os seus marqueteiros, pesquisadores e tutti quanti) controlam, por definição, cada segundo de seus respectivos tempos de TV e rádio que devem se sentir invulneráveis. O quanto antes, a mídia precisa fazê-los saber que eles não estão sós com a sua lábia e seus recursos televisivos: tudo o que disserem no horário eleitoral poderá ser usado contra eles.

Em condições ideais, a cobertura da propaganda gratuita, pelo menos dos presidenciáveis, incluiria encostá-los à parede por seus ditos duvidosos já no dia seguinte às emissões. Eles dão as caras, como se sabe, às terças, quintas e sábados. Pois bem: já nas quartas, sextas e domingos (ou segundas), repórteres bem pautados estariam ladrando nos seus calcanhares para tirar a limpo o que propositalmente os candidatos preferiram deixar embaçado ? ou adulterado ? nas suas manifestações.

É fazer, com relação aos temas que mais de perto interessam o eleitor, a partir dos quais orienta a sua decisão de voto e que, por isso mesmo, ocupam o centro da propaganda eleitoral, o que na semana anterior o ex-ministro Maílson da Nobrega tinha feito com a declaração de Ciro Gomes de que o maior superávit fiscal já registrado pelo país ocorreu quando ele dirigia a Fazenda, em 1994. Na imprensa, Maílson restabeleceu a verdade dos fatos, citando, um a um, todos os anos de superávit maior do que o da gestão Ciro.

Cobertura da propaganda

Não serão os órgãos de comunicação que irão pôr abaixo as verdades dos candidatos. Mas, se tiverem suficiente retaguarda para tanto, malharão o ferro ainda quente, pedindo que esclareçam tal ou qual afirmação, porque ela parece em desacordo com os fatos ? e esses fatos o jornalista precisa ter perfeitamente bem mastigados. É pedir a quem está pedindo o voto de todos que responda a uma pergunta que, em resumo, será sempre a seguinte: "Foi isso mesmo que o senhor quis dizer?"

A mídia impressa têm condições melhores do que a eletrônica para exercer esse indispensável patrulhamento, por meio do qual o jornalismo espremeria até o bagaço a publicidade política para mostrar ao eleitor o que dela sobra em cada caso. Mas qualquer coisa que os telejornais puderem fazer nessa linha será um avanço, um desdobramento do seu inédito ativismo na atual campanha.

A propósito. Há quem diga que a sucessão de entrevistas e o primeiro debate com os presidenciáveis na TV podem não ter feito grande diferença porque, assim como em 1998, quando não houve nada disso, de novo quatro em cada dez eleitores continuam indecisos ao começar o horário eleitoral. E daí? Não haveria por que esperar que, a esta altura, a forte cobertura da mídia tivesse feito diminuir a taxa de indecisão eleitoral; aliás, até poderia tê-la aumentado, ao expor com mais matizes os prós e contras de cada candidato. O ponto simplesmente é outro: graças ao que a TV de larga audiência andou mostrando, pode-se apostar que o eleitor comum ficou mais bem preparado, mais alerta, para julgar o que lhe será dado a ver no horário gratuito, em comparação com as eleições de 89, 94 e 98.

De volta ao assunto. Para não serem acusadas de discriminação ou favorecimento, as emissoras deveriam padronizar ao máximo a cobrança aos candidatos e, naturalmente, abster-se de comentários, antes ou depois.

Seria algo assim: "Ontem, no horário eleitoral, o candidato Fulano disse tal coisa. Mas, por isso e aquilo, essa declaração pode parecer que não se sustenta. Perguntado sobre o assunto, o candidato respondeu:…".

Imagine-se o efeito cumulativo desses inocentes pedidos de esclarecimento, dia sim, dia não, no horário nobre. (O que não impede que os candidatos fiquem cara a cara pelo menos com os casos mais importantes também nas entrevistas que as emissoras já programaram com eles.)

No mínimo, as equipes dos candidatos passarão a pensar duas vezes antes de fazê-los falar o que não devem. E, se algum deles reagir com quatro pedras em cada mão ao questionamento, que isso ajude o eleitor a ver lá a quem poderá estar entregando o país.

Insistindo: não só cobertura eleitoral e propaganda eleitoral não podem ser mundos à parte, como é imperativo que esta seja tratada sem indulgência pela primeira. Cada candidato encontrará um jeito de criticar aquele que considerar o seu principal adversário. Mas só a imprensa, fazendo direito a lição de casa, pode expor os pontos fracos de todos, sem exceção e com isenção. Vamos nessa?

(*) Jornalista

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