Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > De nada adianta alimentar os sonhos de converter o Brasil numa potência continental se a nossa mídia não conseguiu impregnar-se e assumir esta condição.

Não se dança tango deitado na rede

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

ELEIÇÕES ARGENTINAS

Alberto Dines

A Argentina nada tem a ver com o Iraque mas a guerra no Oriente Médio e as eleições de domingo no país vizinho completam-se e exibem uma das maiores deficiências do "novo" jornalismo brasileiro: a cobertura internacional. ("Novo" porque este é um problema que não existiu até meados dos anos 90).

O problema não é o dólar. O problema não é a crise que está levando nossos jornais à insolvência. O problema concentra-se naquele solitário idiota que em meados da década de 1990 mandou fazer uma daquelas pesquisas idiotas, concluiu que "internacional não vende" e, logo, todos os idiotas concorrentes começaram a liquidação das respectivas coberturas internacionais tanto nos jornais e como nas revistas.

Resultado: o leitor brasileiro é hoje, em sua grande maioria, um semi-analfabeto em questões internacionais.

As eleições argentinas passaram a existir na imprensa brasileira porque o Estado de S.Paulo tem um correspondente permanente em Buenos Aires que conseguiu emplacar em edição dominical (13/4) uma matéria precursora sob o título geral "Todos querem enfrentar Menen no 2? turno"; e, no domingo seguinte (20/3), a reportagem "Radicais vs. peronismo: ?clássico? já não existe" ? ambas com chamadas na primeira página.

A partir dai os demais acordaram. Não fosse esta matéria do jornalista Ariel Palácios a cobertura do pleito argentino teria sido igual à do pleito paraguaio (que começou três dias antes).

Cobertura internacional se faz de duas maneiras: com correspondentes locais ou com jornalistas especializados nas redações. Não existem alternativas. Não se pode esperar que as agências ou os grandes veículos internacionais comecem as coberturas de eventos com muita antecedência porque na maioria dos casos estão se lixando para o que acontece na chamada "periferia", isto é, em nossa praia.

De nada adianta despachar quatro dias antes os Supermen que entopem o jornal com páginas e mais páginas de texto, opiniões, mundanidades e transcendências. Este tipo de cobertura maciça, intensiva, não interessa ao leitor médio. Ele não tem tempo, ânimo e apetite para digerir e apreender estas toneladas de informação. É desperdício de energia, recursos e atenção. O bom jornalismo pressupõe o equilíbrio entre movimentos espasmódicos e os impulsos contínuos. Jornalismo na base de choque só ajuda os esquemas maníaco-depressivos.

No caso das eleições argentinas deram-se três apatias correlatas e concêntricas:

** A mídia local resignou-se ao melancólico quadro de opções partidárias centradas no peronismo e num tíbio antiperonismo porque argentinos estão cansados de uma lenga-lenga que envenena o quadro institucional há 58 anos.

** A apatia ? ou depressão ? portenha transferiu-se à mídia brasileira que não dispõe de elementos capazes de entender a Argentina e o seu envolvimento com o peronismo.

** Por sua vez, a apatia da mídia brasileira, num movimento de bumerangue, reforçou o pessimismo dos coleguinhas portenhos.

De nada adianta alimentar os sonhos de converter o Brasil numa potência continental se a nossa mídia não conseguiu impregnar-se e assumir esta condição. O Paraguai poderia ser ajudado e nós poderíamos resolver alguns de nossos grandes problemas se, periodicamente, nossos jornais e revistas revelassem algo sobre o contrabando, a pirataria e o tráfico de armas que lá florescem.

A grande verdade é que os argentinos tão cedo não se livrarão do peronismo porque nós pouco sabemos do peronismo argentino. Nem dos seus filhotes brasileiros. Não se dança o tango deitado na rede.

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