Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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Não se pode ignorar um negócio de R$ 80 bilhões

Por Ali Kamel em 20/07/1997 na edição 26

Caro Dines,

Li e reli seu artigo sobre o tratamento que os jornais deram à privatização da Banda B. Fiquei bastante incomodado. O artigo, a meu ver, tem equívocos que, vindos de você, um profissional do primeiro time, têm efeitos bastante danosos, tanto para o público não jornalista como para os leitores especializados. De um lado, para usar um verbo que me custa a sair em se tratando de um texto seu, o artigo desinforma; de outro, ofende, mesmo que não tenha sido esta a sua intenção, os jornalistas que vivem o dia-a-dia de uma Redação.

Desinforma e ofende porque nele está contida a insinuação de que os jornais dedicaram amplos espaços à privatização da Banda B, apenas porque fazem parte de grupos que disputam as licitações. Não tenho delegação de ninguém para rebater a insinuação, nem mesmo da direção do jornal em que trabalho, mas digo que, pelo menos no caso do Globo, isso não é verdade.

Em primeiro lugar, como ignorar o que está sendo classificado por todos os analistas como o maior negócio desse fim de século, com influência decisiva na vida cotidiana do cidadão? Ao fim do processo, o Governo terá arrecadado algo próximo de R$ 80 bilhões, considerando-se também todo o sistema Telebrás e Embratel. Somente para citar dois exemplos, em São Paulo, há 1,7 milhão de pessoas na fila por um celular; no Rio, algo em torno de um milhão. Para dizer o mínimo, não terão os leitores o direito de ser informados sobre o que o Governo pretende fazer com tanto dinheiro, qual o impacto disso nas finanças públicas, na vida do país? Não terão os leitores o direito de saber quando, em que condições técnicas e a que preços terão os seus celulares? Não é dever da imprensa informá-los?

A influência dessa privatização na vida do país, independentemente de qualquer viés ideológico, é tanta, os números são tão eloqüentes, o impacto na vida do cidadão tão grande, que, sinceramente, não vejo muito espaço para dúvidas. Não dedicar a manchete para o assunto seria um erro. Um erro grave.

Por outro lado, Dines, o Globo é um jornal que tem como pilares a credibilidade, a isenção e a exatidão. Não é apenas uma decisão fundada na ética, nas crenças e na filosofia de vida de seus acionistas. Para ser claro, é também uma decisão imposta pelo mercado. Jornal sem credibilidade, sem isenção e sem exatidão é mercadoria estragada e, como tal, mais tempo, menos tempo, acaba rejeitada por quem a demanda. E o jornal acaba morrendo. É por isso, Dines, que não tem cabimento a insinuação de que a privatização da Banda B mereceu destaque porque a Globopar (que não é o jornal O Globo) tem participação em um dos consórcios disputantes, cuja composição, ao contrário do que você afirma, foi explicitada em toda e qualquer reportagem sobre o tema.

O Globo, acredite, não mistura canais. Em nenhum momento recebemos aqui na Redação orientação para publicar este ou aquele assunto com este ou com aquele enfoque. Ou ainda: jamais recebemos ordens de não publicar temas. A única orientação que recebemos, acredite, é fazer um bom jornalismo, o que implica ouvir todos os lados, situar o leitor diante dos fatos, investigar a fundo para que nosso enfoque seja o mais próximo da verdade. Queremos um jornal sério, exato e plural.

A lógica é cristalina. Acredita O Globo que informando com exatidão, isenção e independência, antecipando fatos, ajudando os leitores a se situar diante deles, oferecendo serviço de qualidade, o jornal conquistará uma audiência cada vez maior e mais fiel. E é esta audiência robusta que atrai os anunciantes, contribuindo para que a situação financeira do jornal seja saudável. Boa informação atrai audiência; boa audiência atrai anunciantes. Aos leitores, oferecemos informação; aos anunciantes, um canal de comunicação efetivo. Se uma empresa quiser falar com a maior parcela de leitores do Rio, terá de anunciar no Globo. É um círculo virtuoso: é a boa informação que oferecemos aos nossos leitores que nos faz ter uma grande audiência e é esta que nos traz os anunciantes. As duas coisas juntas é que nos faz poder ser independentes. Costuma-se dizer aqui no Globo que ter lucro é um dever, do ponto de vista ético, para qualquer jornal. Não existe independência sem saúde financeira. Como ser independente se um jornal deve alguns milhões a bancos oficiais, deixa de recolher impostos e contribuições? Impossível. Uma boa gestão empresarial é também um dos pilares que tornam possível a uma empresa de comunicação fazer um bom jornalismo.

O Globo depende única e exclusivamente de seus leitores, cativados pela boa informação. Não há no Globo assunto tabu. Se alguma notícia, desde que certa e bem apurada, ferir os interesses desde ou daquele anunciante (aí incluído o Governo), esteja certo: ela será publicada. Os exemplos são inúmeros, e já tive oportunidade, em cartas anteriores, de provar isso a você (em artigo passado, você duvidava da possibilidade de os jornais mostrarem o quão extorsivas as tarifas bancárias podem ser, e eu lhe enviei cópia de dúzias de matérias publicadas a respeito no Globo). Eu ouso dizer que talvez não exista anunciante que não teve o seu nome citado na nossa pioneira página de Defesa do Consumidor (aí também incluídos o próprio jornal e empresas do grupo, como a Editora Globo, a Net etc). E isso é possível porque, em sua maioria, os anunciantes também se profissionalizaram. Diante de uma notícia negativa, mas correta e justa, talvez fiquem aborrecidos, talvez queiram cancelar a programação de anúncios, mas sabem que, em suas estratégias de comunicação, não podem prescindir da audiência qualificada que O Globo oferece. Se num primeiro ímpeto cancelam um anúncio (e esta atitude é raríssima), no minuto seguinte voltam a anunciar no jornal, porque, tecnicamente, sabem que, para falar com a maioria dos leitores de jornal no Rio, precisam usar O Globo. É assim que as coisas funcionam nos jornais sérios do mundo inteiro. É assim que as coisas funcionam no Globo.

No caso específico da privatização da Banda B, publicamos farto material pelo forte apelo jornalístico que o assunto tem. O Globo, como disse, não mistura canais. Nem a cobertura ampla se deveu ao fato de que uma empresa do grupo disputa a licitação, nem a participação de uma empresa do grupo na licitação impediu que O Globo fosse crítico em relação ao Governo quando este assim mereceu. Uma rápida consulta ao nosso departamento de pesquisa mostrará quantas foram as matérias em que estavam expostas as mazelas da Telerj, para irritação profunda do Ministério das Comunicações (digo isso em relação à sua indagação, referindo-se a um jornal paulista: “E por que não se faz a urgente matéria mostrando o lastimável estado da telefonia celular em São Paulo? Porque telefonia celular virou assunto da diretoria”.)

Da mesma forma, foi O Globo quem revelou que a Telebrás, rompendo unilateralmente um contrato com os assinantes, decidiu que pagaria a cada um deles uma quantia em dinheiro e não mais em ações, como fora previamente acertado. Irritado, o mesmo ministério já estuda formas de voltar atrás. Por outro lado, em nossa cobertura sobre o assunto, na busca de furos e notícias a respeito, tivemos que suar para conseguir fazer fontes em todos os consórcios. Não houve facilidade alguma em relação ao TT2 (consórcio do qual faz parte a Globopar). E nós o tratamos como fonte e ele nos tratou como jornal. E é assim com todas as empresas do grupo. Para citar apenas mais um exemplo, o mesmo acontece em relação à cobertura jornalística da TV Globo: não temos facilidades e temos de lutar ombro a ombro com os outros jornais na busca de furos. E nos nossos cadernos especializados, cobrimos não somente a TV Globo, mas todas as emissoras, evidentemente, como fazem todos, dando maior espaço à líder de audiência, objeto maior da curiosidade dos leitores. Uma medida de nossa independência é a irritação, natural, da TV Globo diante de nossas críticas à sua programação, quando ela é negativa.

Não há ingenuidade aqui. Nada é fácil ou simples, mas, como disse, contamos no Globo com a firme intenção de fazer um jornalismo isento. Entre outros motivos, como disse, por uma imposição do mercado da informação. Isso não quer dizer que O Globo não tenha opinião, pontos de vista, crenças. Temos uma linha editorial e um perfil que são bem conhecidos por todos. Mas aqui não se misturam informação e opinião. Esta é sempre expressa em nossos editoriais, publicados, invariavelmente, sob a rubrica redundante mas necessária de “OPINIÃO”.

Enfim, Dines, a carta acabou saindo mais extensa do que eu previa. Mas o peso de sua opinião sempre nos obriga a reflexões mais abrangentes.

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