Sábado, 23 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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Noites mais escuras, chumbo mais grosso

Por lgarcia em 11/11/2003 na edição 250

A DITADURA DERROTADA

Deonísio da Silva


A ditadura derrotada, de Elio Gaspari, 538 pp., terceiro volume da série "As ilusões armadas", Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2003; <www.companhiadaletras.com.br>


Jorge Luís Borges, comentando conversa que tivera com monge budista que chegara ao nirvana, disse que o monge lhe confidenciara que sua experiência era incomunicável; que ele podia falar sobre o nirvana com outro monge que também tinha chegado lá. E que não sabia quanto tempo tinha durado, mas que depois de ter chegado àquele estágio, tudo ficara diferente para ele. Borges pergunta: "Diferente, em que sentido?". Responde o monge: "Sinto solidão, ansiedade, alegria, sinto dores físicas, sinto prazeres físicos, sinto os sabores das coisas, mas tudo isso de um modo diferente depois de alcançar o nirvana".

Elio Gaspari deve estar a caminho do nirvana. Há, naturalmente, vários modos de ler A ditadura derrotada, terceiro volume de As ilusões armadas, mas há uma leitura à qual apenas os iniciados terão acesso. E não adianta explicar muito. Para esses leitores, vale a rendição da filha de um pobre moleiro francês, mais conhecida como Santa Bernadete, a dos milagres de Lourdes, que, apertada por interrogadores, disse: "Não adianta explicar; para os que crêem, não é necessário; para os que não crêem, não adianta".

Com a substituição de crentes e ateus por amigos e inimigos, respectivamente, a recomendação foi creditada pela imprensa ao publicitário Duda Mendonça e, hoje, à semelhança da Lei de Gérson, leva o nome do autor. O "Canhotinha de Ouro" também não inventou que o importante era levar vantagem em tudo. Proferiu a perversidade num comercial de cigarros.

Jornais iguais

Um pequeno problema, surgido no pré-lançamento de A ditadura derrotada, não tem atrapalhado a brilhante decolagem. Em que caderno pautar as matérias sobre a obra? Nas páginas tradicionalmente dedicadas a romances, livros de contos, de poemas, de ensaios? Ora, o tema solar do livro de Elio Gaspari é a vida nacional num período em que o Sacerdote (Ernesto Geisel) e o Feiticeiro (Golbery do Couto e Silva), unidos, detinham poderes raramente acumulados, até mesmo por reis absolutistas!

A felicidade chegou às redações em forma de bomba. E as repercussões da imprensa evocaram, para este escritor, o soneto "Velho Tema", de Vicente de Carvalho:


"Só a leve esperança, em toda a vida,/Disfarça a pena de viver, mais nada;/ Nem é mais a existência, resumida,/ Que uma grande esperança malograda".


Pois o livro de Gaspari é a própria felicidade, o velho tema do poeta. Ela existe, sim, também no jornalismo, "toda arreada de dourados pomos", "mas nós não a alcançamos, porque está sempre apenas onde a pomos, e nunca a pomos onde nós estamos".

Onde estávamos e onde estamos? Em caminhos recentes, viemos do Brasil de Geisel, dito de "de distensão, lenta, segura e gradual", onde o Sacerdote era o pontífice máximo, tendo auxiliares que brilhavam com suas estrelas nos ombros, mas nenhum deles com mais influência junto ao chefe do que o Feiticeiro. Dali partíramos para a Granja do Torto, de onde sairíamos para o Estado de Direito, de acordo com a famosa boutade do escritor Guilherme de Figueiredo, irmão do sucessor de Geisel, já então governando sob o signo da "abertura".

O resto já é mais conhecido nesse anos em que a História pôde ser acompanhada ao vivo, pois o rádio, a televisão e mais recentemente a internet ampliaram muito aquele pequeno círculo que lia alguns poucos jornais. Liam muito, mas eram poucos, ainda que provavelmente houvesse mais a ler nos jornais antigos do que nos de hoje, que estão ficando quase todos muito parecidos em tudo. E ? fato decisivo ? acabou-se a censura. Os Lusíadas e as receitas culinárias passaram a ser lidos em outros lugares, não na primeira página do Estado de S.Paulo, por exemplo, substituindo matérias que a tesoura dos censores mutilava ou simplesmente excluía por "ordens superiores".

Inquisição + Santo Ofício

Para elogiar o estilo de Gaspari, o brazilianist Thomas Skidmore recorreu a um conhecido chavão: "Elio Gaspari faz história como quem escreve um romance". Mas Edward Gibbon não fez a mesma coisa, ainda no século 18, no seu Declínio e queda do Império Romano? Este também é o caso de Tucídides, de linguagem semelhante, ainda que não houvesse em seu tempo o gênero romance. No Brasil, começamos com Pero Vaz de Caminha e chegamos a Gilberto Freyre, que escreveram obras que, sob o tal critério, lembram romances. Mais tarde, mestres e doutores, do alto de seus títulos, adotaram estilos ilegíveis, mas esta é outra história.

Ora, há modos de escrever bem, sem que a metáfora precise sempre ser a invariável comparação. Talvez o estilo de Elio Gaspari mostre outra coisa: é um jornalista que domina como poucos a arte de escrever. Pois escrever não demanda apenas técnica. São necessárias diversas artes e artimanhas. E artimanha, palavra que nos veio do catalão artimaña, é a arte magna dos romanos, que escreviam em latim. Por isso, os jornalistas que se destacam no ofício são também grandes leitores. Não aprendem apenas técnicas. Têm modos originais de examinar as coisas. E para tais olhares diferenciados, a dieta de leitura é crucial.

A pesquisa, a busca, a reportagem, a coleta de dados, nada disso pode ser feito sem alguns procedimentos metodológicos indispensáveis. E um deles é dominar o tema do qual se vai tratar. Quantas vezes um autor de dezenas de livros não se vê obrigado a ser entrevistado por alguém que lhe pergunta se ele escreveu outros livros antes daquele que acabou de lançar? Que entrevista pode sair de tal contexto? Que trará uma resenha feita por profissional com tal qualificação?

A outra boa notícia que cerca o livro ? a obra é a grande notícia ? é que para tudo há um tempo, como lembra o Eclesiastes. Augusto Nunes, no Jornal do Brasil (9/11/03), classificou o livro de Gaspari como "terceiro gol de placa" e deu um aviso aos navegantes: "Aos intelectuais da segunda divisão que se queixam do autor por não ter divulgado antes tantas revelações, informa-se que não o fez por estar trabalhando no livro".

Em O Estado de S.Paulo (6/11/03), João Domingos contrapôs as declarações de várias personalidades, entre as quais o senador Antonio Carlos Magalhães e o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, mas nenhuma delas foi mais suculenta do que a do deputado Delfim Netto: "Fiquei muito surpreso ao ver a frase do Geisel. Sempre achei que ele era um intransigente defensor dos direitos humanos". A ironia e a verve de um dos maiores desafetos do Sacerdote, a quem o Feiticeiro diz numa das fitas "conheço os podres do Gordo", ficaram ao relento.

Não se pode imaginar que Delfim Netto considere que escrever com liberdade não seja um direito humano. E o governo Geisel notabilizou-se por contar com o ministro da Justiça que mais proibiu livros, tendo ultrapassado em apenas quatro anos os tenebrosos feitos da Inquisição e do Santo Ofício combinados! Esse mesmo auxiliar (Armando Falcão) ocupara o mesmo cargo no governo de Juscelino Kubitschek. Por que o Sacerdote o escolheu para ministro da Justiça?

Sigilo eterno

Respostas a perguntas como esta são o primor do livro de Elio Gaspari. Nossa classe política, com as exceções de praxe, fez ? e faz, como as recaídas freqüentes deixam claro ? o que lhe é mais conveniente, de acordo com os interesses ocasionais. Castello Branco, ao saber, pelo então deputado Armando Falcão, que o poeta Augusto Frederico Schmidt soubera que JK, se cassado, se suicidaria, replica: "O Kubitschek suicidar-se?! Não, não creio que ele tenha coragem de imitar o Dr. Getúlio Vargas. O nosso Schmidt é muito impressionável. Não vai acontecer nada".

Talvez este diálogo seja um dos mais pungentes do livro. Não vai acontecer nada a quem? Leiamos o livro. Aconteceu de tudo. Aconteceram coisas de que até Deus duvida! Uma noite longa e escura desceu sobre o Brasil. Agora estão aparecendo cúmplices das trevas que pareciam aliados da luz, e aliados da luz que eram na verdade agentes das trevas.

O livro de Elio Gaspari, se não estiver nas páginas de Política, deve ir para o caderno de Ciências, pois mostra com clareza, como sempre faz quem pesquisa com seriedade, ainda que por ínvios caminhos ? às vezes são os únicos possíveis ?, que se aparência e essência fossem a mesma coisa, a ciência seria desnecessária. Pesquisar, porém, dá trabalho e toma tempo. Este é um dos grandes dilemas de quem trabalha na imprensa.

Para o signatário, um gosto todo especial: quando defendia sua tese de doutoramento na USP (Nos bastidores de censura, Estação Liberdade, São Paulo, 1989), alguns sábios quiseram convencê-lo de que a censura tinha sido uma exceção de um governo discricionário. E como ouviam e liam somente o que queriam, não consideravam que Gustave Flaubert foi proibido na França, a nação-símbolo da Liberdade, o mesmo acontecendo a James Joyce, nos EUA. Ora, a censura era e é recurso habitual do poder.

As exclusões que hoje se processam num governo democrático somente serão esclarecidas mais tarde. E o livro de Gaspari permite supor os motivos do sigilo eterno que governo democrático do presidente Lula quer impor aos papéis sobre as lutas travadas nos anos de chumbo. Chumbo muito mais grosso do que se imaginou até hoje!

Devemos a Elio Gaspari a descoberta de um Brasil cujas exéquias ainda não foram concluídas.

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