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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > ENTREVISTA / MINO CARTA

"Nossa tarefa é elevar o leitor"

Por lgarcia em 09/10/2002 na edição 193

ENTREVISTA / MINO CARTA

Fabiana Siqueira (*)

Diretor de redação da revista Carta Capital, criador de Veja, IstoÉ, Jornal da Tarde, Quatro Rodas e Jornal da República, o jornalista italiano Mino Carta, além de um currículo invejável, possui característica indispensável a bons profissionais: não tem medo de criticar. Em entrevista ao Canal da Imprensa <www.canaldaimprensa.com.br>, Carta despeja críticas à imprensa brasileira com a autoridade de quem trabalha há mais de meio século fazendo jornalismo com responsabilidade. Desta vez o alvo de Carta foi a Folha de S. Paulo e a estrutura da notícia brasileira, ultrapassada e falida.

Em entrevista à página da Comunità Italiana o senhor disse que "o jornalista brasileiro se orgulha de escrever com 50 palavras tudo o pode ser dito em 30 linhas". O senhor estava se referindo ao conteúdo empobrecido ou à estrutura da notícia que pede objetividade desmedida?

Mino Carta ? Começo pela objetividade desmedida, que é uma premissa importante. Eu acho que ao jornalista não se deve pedir objetividade. Isso é pura perda de tempo. Não existe objetividade porque o homem é ele mesmo até que deposita uma vírgula em uma folha em branco. Nós somos altamente subjetivos em todas as nossas manifestações. O que se deve pedir ao jornalista é honestidade, ele tem que ser preciso ao relatar o que viu, o que sentiu, tentar ouvir todos os lados, isso sim, tem que ter mesmo. Mas sem imaginar que ele estará sendo objetivo. Objetividade você pede à máquina, o homem é incapaz dela.

Agora vamos lá… Eu, no fundo, penso, sobretudo na Folha de S. Paulo, que é um exemplo clássico de jornalismo medíocre e daninho, porque eu sou de uma geração de jornalistas que acreditavam que a tarefa do jornalista é elevar o leitor, nivelar por cima. A imprensa brasileira tem origem numa cópia malfeita do jornalismo americano e levou exatamente a um aviltamento da língua e à crença fervorosa de que o leitor tem que ser nivelado por baixo. Quando falo das 30 linhas e das 50 palavras estou me referindo à Folha, mas poderia aplicar este conceito a outros jornais.

Acho a imprensa brasileira uma das piores do mundo, uma coisa absolutamente lamentável. Não falo só do ponto de vista ideológico, porque ela serve o poder de maneira grotesca. Mas falo também do ponto de vista técnico. Os nossos jornalistas não sabem escrever, não sabem falar, não sabem se expressar. Não têm conhecimento das coisas do mundo, não lêem os livros importantes, não estudaram direito. A conclusão é realmente triste.

Com a expansão da internet, a descartabilidade da notícia é cada vez maior. O senhor acredita que a atual estrutura da notícia contribui para isso?

M.C. ? Eu acho que tudo pode ser descartável e nada é, na verdade. Quer dizer, nós somos submetidos a uma gama de notícias o tempo inteiro, desde as primeiras horas do dia até as últimas. As informações nos acompanham constantemente sem que a gente se dê conta disso. A imprensa valoriza informações desnecessárias. A tendência do jornalista não é fazer uma análise profunda do que está acontecendo, não há preocupação em selecionar a informação, e isso em partes se deve sim à estrutura falida.

O senhor disse que a técnica do jornalismo brasileiro é péssima…

M.C. ? Eu não acredito em técnicas que correspondam a fórmulas matemáticas. Penso que o lide, na concepção tradicional, é uma invenção da Guerra de Secessão, foi uma invenção de um repórter americano que cobria a Guerra de Secessão. Quer dizer, é algo que tem mais ou menos 140 anos! É fundamental isso? Não. Eu acho que fundamental é atrair o interesse do leitor para que ele se sinta animado a ler até o fim. A maneira de capturar o leitor está na mão de quem escreve. Acho que o jornalismo é uma forma de literatura, e por isso deve ter qualidade literária. Qualidade literária não significa texto empolado. Significa texto bem-elaborado. É como contar uma história, mas você pode colocar diante de uma reportagem com a mesma tranqüilidade de quem escreve uma carta.

Com relação à linguagem, a tendência é aproximar cada vez mais do coloquial para tornar o texto acessível ao leitor. É o jornalista que deve aproximar o texto do leitor ou ele é quem precisa elevar seu nível de compreensão de leitura?

M.C. ? Sem dúvida. Acho que se você quer ser jornalista, tem que pensar na responsabilidade do jornalista. Por que você escreve? Para que seu patrão venda mais jornais? Você tem que acreditar que tem uma função, um trabalho a realizar, que de certa forma, com o perdão da palavra que pode soar retórica, uma missão. As responsabilidades são grandes, você se dirige diariamente a milhares de pessoas. Se você se compenetra desta missão, tudo mais decorre.

Eu acho que não há jornalismo sem a prática de três princípios básicos: o primeiro é a fidelidade à verdade factual. Eu estou aqui, tomando Coca-Cola light, em um copo, sobre uma mesa branca. Esta é a verdade factual, não há discussão. Você está me entrevistando, eu sou o Mino. O segundo é o exercício do espírito crítico e o terceiro é a fiscalização do poder. Se você não faz isso, para que jornalismo? Para contar umas bobagens? Para vender mais jornais e revistas, para ter mais Ibope? Isso não tem a menor importância. Agora, se você pratica o jornalismo com o mínimo de seriedade e responsabilidade você tem que acreditar na sua função.

A língua faz parte disso. "A língua é nossa pátria." A língua portuguesa é uma língua muito bonita, muito rica. Por que jogar fora esse patrimônio? Eu não sou contra o coloquial. O problema é a tentativa de simplificar o máximo, de encurtar no lugar de contar com tranqüilidade, às vezes em tom absolutamente coloquial. O coloquial não é o ponto, e sim a forma pedestre de contar as coisas.

Na redação da CartaCapital como é que funciona? O senhor exige um padrão de seus repórteres?

M.C. ? Nós, aqui? (risos). Cada um escreve por si próprio. Não preciso dar aulas aqui. Todos ficam mais ou menos sincronizados. Alguns escrevem com estilo próprio, facilmente reconhecido. Somos um total de 10 profissionais, não é um grande esforço. Somos todos de uma escola de jornalismo muito livre.

O senhor acredita que o futuro da imprensa de papel esteja comprometido pelas novas tendências do jornalismo? Isso vai de alguma forma forçar o jornalista a repensar a estrutura da notícia?

M.C. ? Eu não sei olhar em longuíssimo prazo. Pode até cair um meteoro e acabar com tudo. Mas sei que a curto e médio prazo o texto continua sendo texto. Minha filha me dizia há pouco: "Não vou mais voltar para o Brasil. Aqui em Londres quando entramos no metrô as pessoas estão lendo livros". Nós vivemos numa situação terrível de atraso. A educação é a base. Não há como imaginar um país que queira ser contemporâneo sem educação e saúde automaticamente a cada cidadão. E a imprensa contribui para a falta disso, levando o leitor à imbecilidade com uma deliberação assustadora. Enfim, eu acredito que o texto é insubstituível a curto e médio prazo. Como diriam os latinos: scripta mani, o que está escrito permanece.

(*) Aluna do 3? ano de Jornalismo no Unasp e secretária de redação da revista Canal da Imprensa <www.canaldaimprensa.com.br>

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