Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Nosso dia de Ratinho

Por lgarcia em 20/04/1998 na edição 43


(*)

Lira Neto, ombudsman de O Povo

“Ao encher de queijo a ratoeira, certifique-se

de que deixou espaço para o rato”

Saki (1870-1916), escritor inglês.

 

N

a semana passada, os leitores do O Povo leram uma matéria policial que relatava um drama terrível. Uma mulher de 22 anos, casada, havia sido estuprada, em casa, por cinco assaltantes, diante do próprio marido. Nesses casos, a ética recomenda que se preserve a identidade da vítima. Uma forma de evitar uma despropositada publicidade acerca de tragédias pessoais desse tipo.

A violência sexual deixa marcas profundas. Expor publicamente alguém que foi vítima dela só serviria para reforçar ainda mais o inevitável estigma social. A matéria publicada pelo O Povo até tomava o cuidado de se referir à vítima apenas pela letra inicial do primeiro nome. Mas, ao mesmo tempo, cometia um deslize grave: informava o endereço dela e o nome completo do marido. Ou seja: de nada adiantara proteger o nome da vítima, pois aquelas outras informações – copiadas pelo repórter diretamente do Boletim de Ocorrências, na delegacia – serviam justamente para identificá-la.

Infelizmente, não é a primeira vez que isso acontece. Há dois meses, O Povo já havia dado o endereço completo de outra vítima de violência sexual. Naquela ocasião, o jornal cometera um erro duplo: a vítima era uma menor. À época, critiquei veementemente, em meus comentários internos, a publicação do endereço da menor violentada. Cobrava uma maior rigidez do jornal na prevenção e punição a esse tipo de desleixo ético. Mas a cobrança do ombudsman não foi suficiente. Voltamos a cometer o mesmo erro.

Nos dois casos, uma constatação: as duas vítimas eram moradoras de bairros pobres da periferia de Fortaleza. Talvez, quem sabe, se pertencessem a um outro estrato social, o repórter que escreveu aquelas duas matérias teria dedicado a elas um tratamento diferenciado. No mínimo, talvez tivesse sido mais cauteloso na hora de evitar a exposição pública de suas identidades.

Quando expõe publicamente o endereço de duas vítimas de violência sexual -em um intervalo tão pequeno de tempo -, o jornal cai na vala comum de certos programas de televisão. Programas policiais que praticam verdadeiros julgamentos sumários, transformando meros acusados em criminosos, violando também, sistematicamente, o direito constitucional de preservação da imagem das pessoas. Ou programas de auditório que oferecem espetáculos grosseiros de invasão da privacidade de gente invariavelmente simples.

A diferença é que, no programa do Ratinho, por exemplo, as pessoas vão lá para aparecer, de qualquer forma, na tevê. No nosso caso, aquelas duas vítimas de violência sexual prefeririam, com certeza, ter continuado no anonimato para sempre. Mas negamos a elas esse direito.

Eu quero o meu jornal

Muitos leitores estão ligando para o ombudsman para se queixar de um mesmo problema. Não estão conseguindo comprar o jornal às segundas-feiras. A grande procura pelos fascículos e disquetes do curso de informática – que O Povo está encartando às segundas – provocou uma verdadeira corrida às bancas, fazendo com que a edição se esgote em poucas horas. Assim, muitos leitores habituais do jornal não estão mais conseguindo encontrá-lo.

O jornal parece ter subdimensionado a expectativa de mercado em relação ao curso de informática. O aumento da tiragem do jornal não acompanhou a demanda do público, provocando um desequilíbrio entre a oferta e a procura. Leitores denunciam que, exatamente por isso, está existindo uma espécie de câmbio negro em relação aos disquetes, que estão sendo vendidos informalmente por até R$ 10,00, ou seja, um valor dez vezes mais alto do que o do próprio exemplar do jornal.

Inversão de papéis

A procura desenfreada pelo jornal às segundas-feiras não ocorre à toa. O curso de informática, encartado pelo O Povo, é realmente um bom produto. A consistência do conteúdo e a qualidade gráfica do software são inegáveis.

Mas, no fundo, o câmbio negro dos disquetes revela que estamos diante de um caso que obedece à mesma lógica da “brinde-mania” que tomou conta do mercado editorial brasileiro. Fenômeno que conseguiu inverter a própria função do brinde, tornando-o o apelo principal de venda, superando inclusive o interesse pelo jornal em si. O que era o produto principal se transformou, na verdade, em um simples apêndice do brinde: compre por exemplo uma fita de vídeo na banca da esquina e ganhe, quase de graça, um jornal.

O jornalista Alberto Dines é quem parece ter feito a melhor análise, até aqui, dessa febre mercadológica: “Se ele (o leitor) vai à banca apenas para completar uma coleção de brindes dá-se uma subversão do processo político, o leitor-cidadão converte-se num mero consumidor de papel impresso”, argumentou Dines, na abertura do segundo fórum do Observatório de Imprensa, na Unicamp, em 1996. “Ao tornar-se secundário e descartável, o jornal arrasta consigo os níveis de exigência da sociedade, tornando-a banal, leviana e irresponsável”, completou.

Dines acerta na mosca ao lembrar também que os jornais exercem um serviço público. Tanto que, por conta disso, gozam de isenções asseguradas pela Constituição, para garantir que a livre expressão de idéias não seja prejudicada por pressões indevidas e arrochos fiscais, por exemplo. Assim, quando os jornais se convertem em meros veiculadores de produtos não-jornalísticos, estão na verdade utilizando-se daqueles privilégios e garantias constitucionais para proteger uma operação comercial convencional.

O caso da urina

Recebi um e-mail de uma leitora, Renata Sales, que questionava o fato do O Povo ter ignorado durante vários dias um projeto, recentemente aprovado na Assembléia Legislativa do Ceará, que propõe o exame de urina para todos os alunos da rede pública e particular de ensino. O objetivo é identificar, entre os jovens, possíveis usuários de drogas. O projeto, polêmico e autoritário, foi solenemente ignorado pelo O Povo, pelo menos até a crítica interna do ombudsman, que citava o e-mail enviado pela leitora.

Aproveitei a oportunidade para discutir com a Redação um vício antigo do jornalismo político: ignorar o que está sendo debatido nas comissões do Legislativo, fazendo com que a população não seja suficientemente informada sobre as matérias e projetos que, muitas vezes, vão afetar diretamente o cotidiano de todos nós.

Após os comentários internos do ombudsman, começaram a sair matérias sobre o assunto. Quinta-feira passada, o tal projeto que instituía o exame de urina para os estudantes foi tema do próprio editorial do jornal. Só que, em vez de um necessário exercício de autocrítica, o editorial do O Povo afirmava que “a pressa marcou a votação do projeto na Assembléia e mesmo a imprensa não se deu conta do que estava sendo aprovado”. Faltou dizer que a imprensa – inclusive O Povo – não se deu conta de que tal projeto estava sendo discutido na Câmara há mais de um ano. E que, como aquele, uma série de outros projetos que vão mexer com nossa vida continuam tramitando. Sem que tenhamos nenhuma notícia sobre eles.

(*) Copyright O Povo, 6/4/98.

 


(**)

Lira Neto, ombudsman de O Povo

“Políticos que se queixam da imprensa são como
comandantes de navio que se queixam do mar”.
Mark Twain (1835-1910), escritor norte-americano.

 

H

á duas semanas, o People – caderno domingueiro de colunismo social do O Povo – vem circulando com um material de página inteira intitulado “Estilo Amarílio”. A página serve de palanque eleitoral privilegiado para o empresário Amarílio Macedo, pré-candidato tucano à sucessão de Tasso Jereissati.

Ontem, a tal “Estilo Amarílio – Parte II” exibia nada menos do que 22 fotos do empresário em suas visitas a duas cidades do interior cearense: Sobral e Quixadá. Na semana passada, a página já trazia outras tantas fotos de campanha de Amarílio em Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha. No material deste domingo, tem Amarílio novamente para todos os gostos e tamanhos: no folclórico Beco do Cotovelo e na barbearia popular. Tomando café no boteco, bebendo cajuína com o prefeito de Sobral e reunindo-se com representantes da Igreja. Amarílio em encontro com deputados, andando pelas ruas em mangas de camisa, acompanhado de vereadores locais. Tudo como manda a tradição do mais manjado figurino pré-eleitoral.

A página “Estilo Amarílio” reproduz os mesmos elementos do projeto gráfico do O Povo, devidamente adaptados para o tradicional formato do colunismo “álbum de figurinhas”, típico do People. Não há nenhuma indicação de que se trata de matéria paga. Nada de cercadura nem do providencial aviso “Informe Publicitário”. Como se não bastasse, uma alentada chamada de capa do caderno – com direito a foto colorida e tudo o mais – trata de completar o serviço:

“Amarílio Macêdo: estrela política da hora”.

A tirar por isso, para todos os efeitos aquilo não é matéria paga. É material editorial, pautado pelo caderno, que assim facilmente abre mão da imparcialidade e faz desbragada apologia ao pré-candidato tucano. Na semana passada, em meus comentários internos, chamei atenção para o fato, cobrando do jornal a devida apuração das responsabilidades. Durante toda a semana, não obtive nenhuma resposta a esse respeito. Uma semana depois, O Povo volta a publicar mais um episódio da série “Estilo Amarílio”.

O pior é que a coisa promete não ficar só por aí. O caderno informa que “outras regiões do Estado já estão agendadas para reuniões” de lançamento do nome de Amarílio Macedo como candidato ao Palácio do Cambeba. O texto de abertura da página, aliás, é um primor de press-release – informação elaborada pelos assessores de imprensa de políticos e de empresas, enviada às redações de jornal. E jornal sério não publica press-release. “A marca registrada do pré-candidato Amarílio Macêdo é o seu relacionamento transparente e direto com as pessoas”, diz o texto publicado pelo O Povo.

Pois foi transparência o que mais faltou àquelas duas páginas publicadas, em dois domingos consecutivos, pelo People. Das duas uma: ou, mais uma vez, os leitores tiveram que engolir matéria paga disfarçada de reportagem ou, através do People, O Povo comprou – de uma vez por todas – a idéia da candidatura tucana de Amarílio Macedo. Nas duas alternativas, não há o que discutir: quem sai perdendo é o leitor. E, é claro, a credibilidade do jornal.

Provincianismo

Houve um tempo em que O Povo – assim como centenas de outros jornais regionais espalhados pelo País – queria ser, por cima de pau e pedra, igualzinho à Folha de S. Paulo. Os jornais regionais eram apenas um decalque do jornalão paulista, macaqueando formatos, vinhetas, bossas editoriais. Por conta de um visível provincianismo, durante vários anos a imprensa regional insistiu em fazer uma cópia mal feita do que ainda hoje se considera “o exemplo editorial mais bem sucedido do mercado brasileiro”.

Os efeitos dessa preguiça jornalística de buscar um diferencial foram dolorosamente evidentes: uma crescente despersonalização dos jornais regionais, uma gradativa perda de identidade, a caricatura voluntária de um jornalismo pretensamente cosmopolita. Um dos sintomas mais nocivos desse processo podia ser detectado aqui mesmo no O Povo. Por força de uma regra interna, há pouco mais de dois anos O Povo privilegiava as manchetes nacionais. Os temas locais eram estranhamente preteridos diante de acontecimentos que, muitas vezes, não nos diziam qualquer respeito.

Felizmente, esse tempo passou. Ou, pelo menos, aos poucos, parece estar passando. A imprensa regional parece disposta a fazer o caminho de volta. Ela percebeu que, para sobreviver no mercado globalizado, precisa justamente recorrer ao elogio à diferença, reafirmar os localismos, compreender a necessidade de fazer melhor do que ninguém o que qualquer outro jornalão do eixo Rio-São Paulo jamais será capaz de fazer: cobrir com detalhes o nosso cotidiano, debruçar-se abertamente sobre as questões regionais, reafirmar um compromisso básico com seu público leitor. Mostrar-se, assim, indispensável.

Apesar de alguns avanços históricos nesse sentido, a imprensa cearense ainda é eivada de provincianismos. Mas nenhum deles se compara à mania dos jornais locais de não circularem em alguns feriados durante o ano: Natal, Ano Novo, Carnaval, Semana Santa. Nesses dias, os leitores cearenses ficam sem notícias. Isso porque, através de um acordo entre as principais empresas de comunicação do Ceará, os três jornais locais combinam não sair às ruas. Economizam papel e hora extra de funcionários, mas faltam com seu compromisso elementar de informar os leitores. O problema é que, nos feriados, o mundo não fecha para balanço. Nesses dias, os leitores cearenses só podem comprar justamente os jornalões do Rio e São Paulo, que não param de circular. Isso por puro comodismo da imprensa regional, que assim novamente corre o risco de parecer preguiçosa e dispensável.

Ainda os anabolizantes

Verdade seja dita: durante muito tempo, O Povo evitou ceder à tentação da brinde-mania. Enquanto a concorrência encartava enciclopédias, atlas e fitas de vídeo, O Povo cuidava de fazer o que sempre soube: colocar nas ruas um jornal que conseguisse a adesão do leitor pela qualidade de seu conteúdo.

Agora, que finalmente nos rendemos à febre de “anabolizantes” editoriais, precisamos tomar cuidado com os efeitos colaterais que já se anunciam. Pelo que pode sentir o telefone do ombudsman, os leitores continuam em pé de guerra. Uns querem comprar o jornal de qualquer jeito – com ou sem os penduricalhos que estão pregando nele – mas continuam sem conseguir encontrá-lo. Outros querem justamente os penduricalhos – pouco se importando com o jornal que vem junto -, mas também não conseguem comprá-los, já que nos dias de brinde a edição se esgota rapidamente.

Em tempo: nada garante que o consumidor que compra o jornal apenas por causa de um disco de forró antigo e de ponta de estoque torne-se, de fato, um leitor efetivo. A esse respeito de brindes e anabolizantes, faço questão de reproduzir trecho do e-mail enviado ao ombudsman por Eduardo Rocha, que confessa que comprou O Povo apenas por conta de um encarte: “Alguém deve estar perguntando o que é que eu fiz com o jornal. Por hora, está servindo de tapete no piso do carro. Eu tinha de correr para pegar a promoção do outro jornal…”

Copyright O Povo, 13/4/98.

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