Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Notas para um caderno sobre guerras e mídia

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

ORIENTE, PRÓXIMO

Alberto Dines

*** A guerra do Criméia (1854-1856)
foi a primeira em que houve cobertura jornalística profissional. De um
lado, a França, Inglaterra e o Império Otomano, do outro a Rússia
tzarista.

O conflito, por coincidência, foi provocado por uma disputa em torno
da guarda dos Lugares Santos na Palestina dominada pelos turcos. Apesar de estar
no lado vitorioso, o Império Otomano começou naquele momento o
seu lento desmoronamento que culminou em 1918. Nas suas frestas enfiaram-se
os poderosos interesses ingleses e franceses e instalaram-se os germes do atual
conflito.

*** A cobertura jornalística sobre
a Criméia foi decisiva para estabelecer um debate longe da linha de frente
sobretudo na Inglaterra liberal, onde os jornais gozavam de razoável
liberdade. Na França, o debate foi menos intenso. Na Rússia totalitária
a imprensa não piou.

Pela primeira vez, a opinião pública ? e os políticos
? discutiram o desempenho dos militares. Pela primeira vez, igualmente, o horror
da guerra chegou à retaguarda. O trabalho humanitário de Florence
Nightingale foi resultado direto da cobertura do teatro de operações
na Criméia.

*** Sem o telégrafo, recém-inventado,
a cobertura da sangueira seria impossível embora os despachos fossem
ilustrados por desenhos. As palavras, as idéias,
e não as imagens
, foram decisivas para permitir o grande avanço
social da imprensa.

** O pacifismo ? como nome e movimento
organizado ? foi gerado em 1914. Mas a primeira vítima da 1? Guerra Mundial
caiu num café parisiense dias antes que os exércitos entrassem
ação. Jean Jaurés, o tribuno e panfletário socialista
francês, defendia um movimento operário europeu contra a guerra.
Foi abatido por um "patriota" francês. O horror começou
antes mesmo que as linhas de frente fossem estabelecidas e os jornalistas para
lá fossem enviados. Fomentado em grande parte pelo
ressentimento e preconceitos políticos anteriores.

*** A cobertura da 1? Guerra foi tecnologicamente
mais avançada com a introdução da fotografia e do cinema.
Nem a aliança austro-alemã muito menos a franco-russo-britânica
permitiram a presença de correspondentes oriundos de países inimigos
junto às suas posições. Como os EUA entraram na guerra
posteriormente (1917), a imprensa americana tentou funcionar como neutra, embora
evidentemente simpática à causa franco-britânica. A
guerra nas trincheiras, o uso mortífero de tanques, aviões e sobretudo
o horror da guerra química (gases letais) só apareceram na cobertura
jornalística pelos relatos dos jornalistas autorizados a acompanhar as
tropas.

*** A guerra civil espanhola (1936-1939),
ensaio geral da 2? Guerra Mundial, foi, teoricamente, um conflito interno e
teve ampla cobertura da imprensa tanto dos países ditos democráticos
como da imprensa oficial do eixo nazifascista (Itália e Alemanha). Mas
esta mesma imprensa democrática ou burguesa (inclusive no Brasil) freqüentemente
torceu o noticiário contra os republicanos (apoiados pela URSS, pelos
partidos progressistas, comunistas, socialistas e anarquistas do Ocidente).
A manipulação ideológica deu-se a
partir das redações e não em função de eventuais
distorções dos repórteres nas linhas de frente.

Jornais liberais como o New York Times conseguiram escapar da guerra
psico-ideológica.

*** Os EUA só entraram efetivamente
na 2? Guerra Mundial (1939-1945) em seguida ao ataque japonês a Pearl
Harbour (7/12/41). Portanto, a imprensa americana cobriu os dois primeiros anos
de guerra nas duas frentes mas teve grandes dificuldades para acompanhar as
tropas alemãs na blitzkrieg. Mesmo as matérias políticas
enviadas de Berlim sofriam rigorosa censura. As primeiras perseguições
aos judeus dentro da Alemanha e nos países ocupados foram precariamente
cobertas ou não foram cobertas.

*** A 2? Guerra Mundial foi o paraíso
para os correspondentes de guerra junto aos exércitos aliados (inclusive
na frente russa). Também inaugurou a cobertura radiofônica ao vivo
(por ondas curtas). Os comandantes militares aliados compreenderam a importância
de liberar as informações para os jornalistas e permitir seu acesso
às linhas de fogo. Confronto entre o Bem e o Mal ? nenhum jornalista
escreveria um relato que pudesse prejudicar a causa dos aliados e de alguma
forma ajudar o Eixo. Usavam uniformes (alguns até andavam armados), tinham
acesso direto aos generais e conseguiam antecipar-se às vanguardas militares
(caso de Ernest Hemingway, na retomada de Paris). Mesmo
os jornalistas que acompanharam os horríveis bombardeios anglo-americanos
a Dresden garantiam que nenhum alvo civil fora atingido. Não era verdade.

*** Na guerra do Vietnã o fator
decisivo foi a TV. Inspirado nas lições da 2? Guerra e confiando
no "patriotismo" dos jornalistas, o comando americano permitiu ampla
cobertura de ações militares. Quando a TV começou a levar
para dentro dos lares americanos o horror da guerra, e quando o conceito de
patriotismo relativizou-se, os EUA desistiram.

*** A Guerra dos Seis Dias (1967), embora
fulminante, foi plenamente coberta pelo lado de Israel porque as autoridades
contavam com as simpatias mundiais. No que foram muito ajudadas pelos países
árabes beligerantes (Egito, Síria e Jordânia), que dificultaram
ao máximo a entrada de jornalistas estrangeiros.

*** O conceito de "guerra-espetáculo"
? iniciado com a invasão da Somália e desenvolvido nas guerras
do Golfo, da Iugoslávia e do Afeganistão ? prende-se à
sofisticação do arsenal guerreiro. Guerra aérea com controle
remoto torna impossível o trabalho do correspondente, convertido em mero
divulgador dos comunicados, briefings e fotos por satélite. A
cobertura do "outro lado" (Bagdá e Cabul), dominada pela máquina
de propaganda de dois regimes abertamente arbitrários, jamais conseguiu
ser devidamente verificada.

*** A primeira utilização
em larga escala de ações terroristas num contexto militar deu-se
agora, no confronto entre Israel e a Autoridade Palestina, 18 meses depois de
iniciada a segunda Intifada (setembro de 2000). Ações
terroristas não rendem boas imagens: nenhum fotografo ou cinegrafista
ousará filmar um pedaço de cabeça, braços ou entranhas
espalhados pelo chão, sejam de crianças, adolescentes, mulheres
grávidas, adultos ou idosos.
Mesmo porque, segundo os preceitos
religiosos judaicos, os restos mortais devem ser rapidamente reunidos e enterrados.
Sobram apenas os números ? X mortos e Y feridos, mutilados não
contam. Os feridos, porque precisam ser rapidamente socorridos, são imediatamente
levados para os hospitais. Não há horror visual. Em compensação,
abundam as fotos dos terroristas-suicidas ou de seus parentes, em geral felizes
com a recompensa.

*** Imagens de TV, porque captam o movimento,
são menos sujeitas às ilusões de ótica que as fotografias,
nas quais uma teleobjetiva pode aproximar figuras distanciadas. Imagens de TV
prescindem de legendas, a narração não pode contraditar
o que está sendo mostrado de forma inequívoca. Mas as fotografias
de jornal exigem uma "interpretação literária".
O problema são os verbos: um soldado armado a cinco
metros de um civil desarmado deve estar "ameaçando", "intimidando"
ou "pronto para atirar". Sem verbos não há ação
e sem ação não há jornalismo quente.

*** Coberturas equilibradas pressupõem
títulos equilibrados e estes pedem a descrição simultânea
dos dois lados da guerra. Em inglês é fácil: a partícula
"as" (conjunção, preposição ou pronome
relativo) dá a noção de simultaneidade e comparação
? extremamente curta, ajeita-se facilmente num título. Razão pela
qual na semana passada, abundava o "as" nos principais jornais de
língua inglesa descrevendo ações políticas e militares
paralelas. Isso equilibra a cobertura evitando que o fato privilegiado no título
possa influir no contexto da matéria. Além
de não cultivarmos o sadio hábito dos títulos de dupla-ação,
ou ação-e-reação, nossa conjunção
"enquanto" é longa e toma um precioso número de caracteres.

*** A guerra do Afeganistão trouxe,
além da ausência da cobertura in loco, outro dado novo:
a saturação do leitor com informações complementares.
As análises não substituem os fatos. Um correspondente no terreno,
desde que devidamente preparado e maduro, dispensa as interpretações,
mesmo quando assinadas por especialistas. As edições
da Folha de S.Paulo e do Estado de S.Paulo no domingo (7/4) mostram
a claramente a diferença. O Estadão, dispondo de mais espaço,
afogou o leitor com valioso material complementar; a Folha, com um enviado
especial devidamente sazonado e equilibrado, trouxe o leitor mais perto dos
acontecimentos. A um custo econômico certamente menor.

*** A cobertura do atual conflito no Oriente
trouxe outra novidade: a intensa atuação
dos media watchers (ou vigilantes da mídia) dos dois lados.
Isso
ocorreu de forma mais visível na cobertura em língua inglesa,
a mais acessível e universal. Cada lado, devidamente amparado por especialistas
em comunicação, analisou o trabalho da mídia à sua
maneira e de acordo com as suas convicções. A internet foi o veículo
dessas avaliações. Uma comparação dessas analises
poderá fornecer futuramente interessantes avaliações sobre
o relativismo das interpretações.

*** A esta altura (8/4/2002) pode-se constatar
o equilíbrio da cobertura do conflito na grande imprensa brasileira.
Aos colunistas ficou a tarefa de comentar e opinar. Nota-se um visível
esforço em atender às patrulhas dos leitores dos dois lados oferecendo
um relato abrangente. Longe de constituir um estorvo, confere, além da
credibilidade, maior interesse.

Para um estudo aprofundado sobre o trabalho dos
correspondentes de guerra a partir da Criméia, veja-se The First Casualty,
de Phillip Knightley (Nova York, 1975), traduzido no Brasil com o título
A primeira vítima.

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