Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > DOSSIÊ ‘DOSSIÊS’

Notas sobre o jornalismo de dossiês

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

LEITURAS DA FOLHA
(*)

Bernardo Kucinski (**)


1. O jornalismo de dossiê como gênero jornalístico

Novo gênero jornalístico ou mera modalidade do jornalismo investigativo? Os casos mais importantes de jornalismo de dossiê indicam que se trata de um novo gênero de jornalismo. Ele se confunde com o jornalismo investigativo porque seu conteúdo é quase sempre uma investigação obtida com considerável investimento de tempo e de recursos, e seu efeito é igualmente dramático.

Mas no jornalismo de dossiês a investigação não é feita pelo jornalista, segundo critérios jornalísticos. É feita em geral pela polícia, por procuradores ou outras agências do aparelho de Estado, e até por escuta clandestina de telefones [no pé desta matéria, veja coleção de artigos publicado neste Observatório sobre dossiês, fitas e grampos]. O material, na forma de um conjunto de documentos, extratos bancários ou transcrições, é entregue a ele praticamente como um pacote fechado e assim é publicado, com uma ou outra corroboração de menor importância e que não altera o conteúdo original do dossiê.

Foi assim com o "dossiê Cayman", contra a cúpula do PSDB, o mais famoso desse gênero, divulgado pela Folha de S.Paulo durante a campanha de 1998, e assim é com o dossiê contra Zeca do PT, divulgado pelo mesmo jornal no domingo, 1?/9.

Portanto, uma característica que demarca o jornalismo de dossiê como gênero é que ele não é uma investigação jornalística autônoma, apesar de se apresentar como tal e com isso portar a legitimidade do jornalismo. Se foi feita uma investigação jornalística substancial, mesmo com ponto de partida num dossiê, é jornalismo investigativo em estado quase puro. Se não foi, então é jornalismo de dossiê ? como no caso de Zeca do PT e do "dossiê Cayman", quando as denúncias originais mantiveram-se mesmo depois de a investigação jornalística nada ter provado. Isto é jornalismo de dossiê.

2. O jornalismo de dossiê como notícia

O jornalismo de dossiê não é a notícia de um fato novo. É a criação de um fato novo. Seu conteúdo é um inventário de fatos acontecidos ou supostamente acontecidos no passado; às vezes desconhecidos, como no caso do "dossiê Cayman", ou já conhecidos e reportados como notícia do dia no seu devido tempo, como no caso do dossiê contra Zeca do PT. Os fatos narrados no dossiê contra Zeca do PT, em especial a investigação criminal e o processo contra os policiais integrantes do Departamento de Operações da Fronteira (DOF), ocorreram havia mais de um ano e foram devidamente narrados pela imprensa.

O próprio dossiê foi entregue pelo grupo de procuradores a autoridades em Brasília, em fevereiro deste ano. O jornalismo de dossiê, portanto, não tem o atributo fundamental da novidade, essencial na definição da matéria jornalística. Por que então eu o chamo de jornalismo? Porque é uma manifestação que se dá no espaço do jornalismo.

3. O momento histórico do jornalismo de dossiês

O jornalismo de dossiê é uma modalidade de denuncismo, postura moralista da mídia quem vem marcando a imprensa brasileira desde o início do segundo mandato do governo FHC. O jornalismo de dossiês se distingue no âmbito do denuncismo porque sempre está vinculado a disputas político-eleitorais. O dossiê é produzido para influir na disputa. Em alguns casos chega a ser vendido a diferentes candidatos, como mercadoria para ser transformada em arma na guerra eleitoral.

O dossiê é próprio de uma situação de fratura do bloco de poder, na qual as diferentes facções, justamente por terem controlado partes do aparelho de Estado, tinham informações privilegiadas e agora usam essas informações para reciprocamente se combaterem .Os dossiês vazados à imprensa na luta entre Jáder Barbalho e Antonio Carlos Magalhães são típicos dessa configuração.

E mais: o resíduo de vínculos permanentes entre partes do aparelho de Estado, especialmente grupos de procuradores, policiais e facções políticas, permite que haja um articulação entre o desencadeamento de novas operações com o objetivo único de produzir dossiês. Foi o caso dos procuradores do Mato Grosso do Sul, contra Zeca do PT, e o da operação policial contra Roseana Sarney e a empresa Lunus.

Ambas as operações revelaram também que o jornalismo de dossiês é uma articulação entre esse sistema de luta política e a mídia. Esta prática não existe sem a participação da mídia. No caso da operação conta Roseana, Época não poderia publicar a reportagem de impacto que publicou, logo no dia seguinte, se já não tivesse o dossiê nas mãos, desde quando a operação fora desencadeada.

4. O dossiê da Folha contra Zeca do PT

A Folha dedicou uma página inteira da sua edição do primeiro domingo de setembro (dia 1?) ao dossiê preparado pelo grupo de procuradores do Mato Grosso do Sul, com acusações ao governador do Mato Grosso do Sul. " Zeca do PT e integrantes do núcleo de poder no Estado têm ligação com uma quadrilha de policiais especializada em roubo e receptação de veículos." A reportagem de Fabiano Maisonnave, da sucursal da Folha de Campo Grande, acabou sendo um dos exemplos mais acabados do jornalismo de dossiês, e Zeca do PT ganhou o direito de resposta em liminar.

5. Quanto a pauta vira narrativa final

Outra característica central do jornalismo de dossiês é a de transformar uma pauta jornalística (que deveria ser investigada para ser corroborada ou não) na própria matéria final. Invariavelmente, a narrativa parte da presunção da culpa, violando o direito constitucional da presunção da inocência até prova em contrário. A narrativa transforma suspeitas em ilações, e as ilações em culpa do acusado, sem que essa culpa precise jamais ser provada. Em geral, como é o caso também desta matéria da Folha, não há acusação formal de nenhum delito capitulado em lei, porque esse delito não existe. É uma culpa sem delito.

6. Acusações que funcionam com difamação

Zeca do PT foi "acusado" pela Folha de ter citado como testemunha, num processo, um tal Adão Edemilson, posteriormente suspeito de ter ligações com uma quadrilha. Citar alguém para ser testemunha num processo não é crime. Esse Adão, aliás, já está morto há quase um ano e meio.. A segunda acusação: a de o Departamento de Operações de Fronteira (DOF), ao qual estavam ligados a maioria dos membros da quadrilha de ladrões de carros, ser diretamente subordinada ao governador. Isso também não é crime. É do organograma da administração estadual, e assim já era antes de Zeca do PT se eleger governador. A terceira " acusação" é a de Zeca ter se defendido, em declarações à imprensa, pelo fato de ter nomeado o coronel Sebastião Garcia comandante do DOF sem saber que ele havia respondido a processo por agiotagem. Isso também não é crime.

O que a Folha fez, portanto, foi tentar estabelecer uma proximidade de Zeca com pessoas de moralidade duvidosa, ou condenadas pela Justiça. Ou seja, tentaram acusá-lo de comportamento eticamente condenável ? e isso é difamação.

7. As contradições do jornalismo de dossiês

Uma da mais paradoxais características do jornalismo do dossiês é que ele sempre revela sua própria inconsistência. Isto porque, para nos convencer da suposta culpa da vítima do dossiê, o jornalista conta casos verdadeiros e escaborosos que ele vai misturando às ilações. Assim, no dossiê contra Zeca do PT, para demonstrar a periculosidade da quadrilha de ladrões de carros, a reportagem revela que 29 deles, dos quais 19 eram lotados no DOF, foram condenados em primeiro instância a penas severas. O coronel Garcia, por exemplo pegou 24 anos de cadeia. Um major, Marmo Arruda, pegou 20 anos. Foi "a maior condenação de policiais em um só processo na história do Mato Grosso do Sul", diz a Folha.

Ora, a quadrilha foi investigada, julgada e condenada e, no entanto, no decorrer do processo nenhuma acusação apareceu contra Zeca do PT. Essa é a verdade dos fatos que o jornalismo dos dossiês não consegue esconder, embora tente sempre. Em vez de estigmatizado pelo repórter e pelo editor, o governador tinha mais é que ser elogiado por manter-se limpo apesar de herdado uma máquina estatal corrompida e infiltrada pelo crime organizado ? boa parte, felizmente, expurgada durante sua administração.

8. Jornalismo de dossiês como modalidade de justiça sumária

O objetivo do jornalismo de dossiês não é verificar a veracidade
de eventuais acusações para levar o acusado aos tribunais, mas
sim o de linchar a vítima no espaço público da mídia.
Não havendo julgamento formal, o acusado não precisa se dar ao
trabalho de defender-se e nem de recorrer a advogados. Por isso, o jornalismo
de dossiê também não se preocupa em "ouvir o outro
lado" , como manda o "Manual de Redação" da Folha.
No jornalismo de dossiê, a vítima é ouvida apenas pro
forma
, em nada modificando o que já está montado. No dossiê
da Folha contra Zeca do PT, o teor da reportagem foi levado aos acusados
na tarde da quinta-feira [29/8], para uma edição que fecharia
no sábado, conforme informou o próprio ombudsman do jornal, em
sua coluna de 8/9. [ na rubrica
Voz dos Ouvidores
]

O jornalismo dos dossiês é, assim, uma modalidade de justiça sumária ministrada diretamente pela imprensa, segundo seus próprios ritos. A imprensa define quais são os crimes ? que como vimos não são necessariamente os capitulados em lei ? e qual a punição: quase sempre a difamação da vítima, a destruição de sua imagem.

9. A geopolítica do jornalismo de dossiês

A Folha não escondeu os objetivos político-eleitorais de seu exercício de difamação. A começar pela manchete mentirosa, feita para melar a imagem do PT: "Elo de Zeca do PT com quadrilha é investigado". Não existe elo muito menos investigação em curso. O próprio texto da reportagem, lido com cuidado, mostra que não estava em curso e nem houve nenhuma investigação formal. E que o tal elo nunca foi estabelecido. A Folha também não teve pudor em chamar a reportagem de dossiê e a editou no caderno especial "Eleições 2002".

Ao mesmo tempo, a Folha mantém silêncio quase total em torno da tentativa de cassação da candidatura do governador petista do Acre, Jorge Viana, um dos campeões da luta contra o crime organizado. Enquanto os mais respeitáveis órgãos de imprensa se solidarizam com a luta de Jorge Viana contra o narcotráfico, a Folha prefere dizer que o PT está feliz em ter o governador como vítima, como insinuou a seção de notas políticas "Painel".

Pergunta: pelos critérios do jornalismo de dossiê da Folha, já não teríamos aqui alguns indícios interessantes para um "dossiê" ligando a política editorial jornal aos interesses do crime organizado, que quer os dois governadores do PT?

(*) Texto escrito a partir da Carta Ácida "O jornalismo de dossiê da Folha de S.Paulo", produzida para a Agência Carta Maior <www.agenciacartamaior.com.br>, em 2/9/2002

(**) Jornalista, professor da ECA-USP, autor de Jornalistas e revolucionários (Scritta), Jornalismo Econômico (Edusp) e outros

 

 

DOSSIÊ ?DOSSIÊS?

Links para seleção de matérias sobre dossiês "jornalísticos" e grampos ilegais publicadas neste Observatório, a partir de março de 2001.

 

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