Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > A FARRA DA COPA

Notícia de brincadeirinha

Por lgarcia em 20/06/1998 na edição 47

Alceu Nader (*)

 

A

gora que as redes brasileiras de televisão ensaiam os primeiros passos para a tecnologia digital, nada melhor do que aproveitar a imagem de alta definição e o som de CD para abolir um certo tipo de jornalismo que já deu o que tinha que dar.

Um dos exemplos clássicos desse jornalismo de brincadeirinha, engraçadinho, foi visto no último dia 12 de junho com as namoradas dos jogadores da Seleção, no Jornal Nacional – disparado o melhor telejornal brasileiro. Nada contra o romantismo, mas esse tipo de armação que coloca protagonistas de um lado e de outro está acostumando pauteiros, produtores e repórteres a usar preguiçosamente os poderosos recursos do veículo para informar coisa alguma. Alguém acima desses profissionais, com salário e responsabilidade maiores, deveria colocar-se no lugar de quem está em casa à espera de informação para constatar que se está abusando da inteligência do espectador.

Não adianta mais protelar: está evidente que reportagens como a das namoradas só se obtêm depois de muito ensaio e verba de produção. Trata-se de encenação, jamais notícia.

Essa falta de compromisso com a verdade, exacerbada durante esse mês de futebol por todos os poros, também se reproduz em outros tipos de reportagem, em particular nas que pretendem ser engraçadinhas para disputar o encerramento dos programas. Faz-se piada de tudo, sem que haja a menor graça. O jornalista, nesses casos, deveria ao menos aparecer vestido a caráter – calça larga e curta, sapatos enormes e curvados na ponta, suspensórios sobre a camisa espalhafatosa e uma bola vermelha no nariz. Ou chamar os humoristas da Casseta, que são profissionais.

Não dá mais também para engolir a passagem, aquele trecho em que o repórter faz o elo entre dois blocos da reportagem, sem qualquer conteúdo. O que se vê hoje, em todos os telejornais brasileiros, são repórteres desperdiçando a oportunidade de nos informar melhor apenas para autenticar burocraticamente a autoria da reportagem. Não é por acaso que os melhores repórteres da tevê brasileira – Caco Barcelos, Ernesto Paglia, Roberto Cabrini e Marcelo Rezende – raramente fazem uso desse recurso. Preferem mostrar o que realmente interessa ao espectador, sem a interferência inútil que se vê na maioria das reportagens.

Não se agüenta mais, por fim, a repetição cansativa de clichês, principalmente nos telejornais vespertinos. Alguns esmeram-se em enfileirar duas, três, quatro expressões prontas, requentadas à exaustão, que não informam coisa alguma, apenas empobrecem o texto. Não há ganho nenhum, a não ser para o redator ou para o repórter, que não teve o trabalho de pensar o texto de forma simples, direta e clara, como manda o veículo.

(*) Editor da Gazeta Mercantil Informações Eletrônicas InvestNews

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