Domingo, 15 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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Notícias de uma guerra distante

Por lgarcia em 12/09/2001 na edição 138

CONGO

Arnaldo Dines, de Nova York

Em um caso inusitado nos anais da televisão americana, Ted Koppel, âncora do programa Nightline da rede ABC, abriu uma série especial, em cinco capítulos, sobre a guerra civil na República Democrática do Congo com um pedido de desculpas aos telespectadores. Segundo ele, o conflito que devasta este país africano é praticamente ignorado pela imprensa internacional ? e pelo próprio Nightline ? apesar da morte de mais de 2,5 milhões de pessoas em três anos, conforme informações do International Rescue Commitee.

Colocando-se estes números em uma perspectiva próxima da realidade do dia-a-dia, apenas durante os cinco dias de exibição da série mais 12.500 pessoas serão mortas no Congo, em uma média de 2.500 por dia. Como comparação, as 20 mil vítimas do conflito em Kosovo e a subseqüente intervenção militar da OTAN mereceram uma cobertura maciça da imprensa; enquanto o drama de 750 palestinos e israelenses mortos em um ano de atritos praticamente monopoliza a atenção e recursos dos veículos de comunicação.

As razões para o desinteresse da imprensa diante da tragédia do Congo vão desde a absoluta inexistência de uma infra-estrutura tecnológica ? um vício essencial para a prática do jornalismo moderno ? até o perigo de vida que correm os repórteres em função de ataques constantes das diversas facções rebeldes. Existe também uma certa desinformação e desinteresse do público com a própria geografia política da região. Por exemplo, duas nações vizinhas na África dividem o mesmo nome: a República do Congo (no oeste) e a República Democrática do Congo (no leste) ? estabelecidas em 1997 dentro do que até então era o Zaire. É no leste que ocorre o atual conflito.

Em defesa de Ted Koppel e do Nightline, existe ao menos aquele velho ditado/desculpa: "antes tarde do que nunca". Transmitido de Washington e exibido de segunda à sexta às 23h35, o programa consegue uma audiência média por 4,4 milhões de telespectadores durante os seus 30 minutos de duração ? o suficiente para sobreviver com dignidade e até competir (em épocas de grandes manchetes) em um horário dominado pelos talk shows de Jay Leno na NBC e David Letterman, na CBS.

Koppel é considerado hoje como a mais importante voz do telejornalismo americano. Um recente artigo publicado no Los Angeles Times alçou-o à condição de herdeiro oficial do trono de Walter Cronkite, a mais venerada figura do jornalismo no país, que se aposentou em 1981 quando dirigia o Evening News, da CBS.

Jornalismo de gabinete

O Nightline segue em geral um formato de entrevistas, abandonado somente em casos especiais. E justamente pelo horário de fim de noite, sem nenhuma competição jornalística relevante, o programa pode se dar ao luxo de abordar um assunto editorialmente "frio" como uma guerra civil em um canto perdido da África. No caso, o título escolhido para a série, Heart of Darkness (Coração das Trevas), apropriado de um livro de Joseph Conrad que vez serviu de inspiração ao filme Apocalypse Now, de Francis Ford Copolla, descreve perfeitamente a selvageria de um conflito em que meia dúzia de facções diferentes lutam pelo poder em um país com grandes riquezas minerais e uma enorme miséria social.

São as reservas minerais que despertam a cobiça de vários países da região central do continente africano. Atraídos pelas reservas de diamantes, ouro e coltan (um mineral usado principalmente na produção de telefones celulares), vizinhos como Uganda e Ruanda ao lado de diversos grupos rebeldes, e Angola, Zimbabwe e Namíbia apoiando o governo, acabaram por se envolver econômica e militarmente, tornando a situação ainda mais caótica.

O problema é que justamente pela falta de divulgação da dimensão das atrocidades, em função principalmente da ausência da imprensa ocidental, os crimes são cometidos não somente com impunidade mas também com completa complacência da comunidade diplomática internacional. As Nações Unidas têm apenas 3 mil observadores sem armas estacionados no país, absolutamente impotentes perante a ferocidade da situação.

Foi por isto que Ted Koppel abriu o programa com o pedido de desculpas ? no caso, por um crime de omissão jornalística, seu e de seus companheiros, mais preocupados em cobrir a guerrilha publicitária no Oriente Médio, os crimes escandalosos ou as aventuras extraconjugais de políticos em Washington.

Em uma análise ainda mais crítica da conduta jornalística, Koppel sugere que o desinteresse da imprensa é motivado pela falta de grandes imagens. Enquanto conflitos modernos são travados com poses e atitudes encenadas paras as câmeras de televisão, no Congo a própria selva dificulta não somente o acesso a qualquer tipo de registro visual mas, principalmente, esconde no seu interior o único vestígio das atrocidades cometidas: os corpos dos milhões de vítimas.

A melhor prova da validade dessa teoria foi a exibição recente de um especial na rede NBC sobre meninos refugiados da guerra civil no Sudão. Apresentado por Tom Brokaw, âncora do principal noticiário da rede, a produção do programa optou por utilizar imagens de arquivo da guerra apenas como forma de contrastar o choque desses poucos refugiados frente a fartura da sociedade americana. É a opção do jornalismo de gabinete, bem mais conveniente do que ir para o próprio Sudão investigar um conflito que se estende por mais de 15 anos e contabiliza 2 milhões de mortos. As vítimas desta tragédia são em sua maioria membros da minoria cristã do sul do país, massacrados pela maioria muçulmana do norte, restando aos sobreviventes a opção de conversões forçadas ao islamismo e uma vida de escravidão. Mas para documentar isso, Tom Brokaw teria de se vestir de jornalista e enfrentar os desconfortos de algumas semanas nas selvas do Sudão ? assim como Ted Koppel se dispôs a fazer no Congo.

    
    
                     

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