Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA E SEQÜESTROS

Noticiar ou não?

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136

MÍDIA E SEQÜESTROS

Luiz Martins (*)

Acostumados a duelos peculiares em disputas por audiência e direitos de transmissão de espetáculos, desta feita os titãs da mídia estão em posições opostas por um embate ético, qual seja a compreensão divergente sobre a conduta que a mídia deve ter ante exigências de seqüestradores. Noticiar ou não, eis o desafio da esfinge.

O seqüestro da filha do comunicador Sílvio Santos trouxe à esfera pública brasileira uma pol&ececirc;mica. De um lado, o posicionamento da Globo, não atendendo a solicitação da família e exigência da quadrilha, sob o argumento de que tal sigilo favorece a cultura do seqüestro e fortalece o poder de chantagem dos algozes. De outro, concorrentes que preferiram se precaver. Ou seja, na falta de uma legislação ou norma específicas, a Globo fez a sua e seguiu sua convicção, tal como os governos que, por uma questão de princípio, não negociam com bandidos.

Esse mesmo tipo de orientação, no entanto, já levou a emissora a ser processada, embora tanto ela quanto a vítima tenham recorrido. Em 6 de março do ano passado, o empresário Luis André Matarazzo e seu filho, então com 12 anos, foram seqüestrados em Indaiatuba (SP). O primeiro foi solto, para providenciar o dinheiro e pedir à imprensa que não se metesse. Os seqüestradores, entretanto, só teriam ficado sabendo da dimensão da notoriedade das vítimas pelas notícias da Globo (as outras redes ficaram de fora).

Em primeira instância, o juiz Teodozio de Souza Lopes ? da 17? Vara Cível de São Paulo ?, sentenciou a Globo a pagar como indenização à família o faturamento publicitário dos intervalos dos telejornais em que a matéria foi abordada. A Globo sentiu-se injustiçada, enquanto o empresário achou que a reparação ainda era pequena, daí ter recorrido. O que o juiz entendeu foi que o noticiário ampliou o risco à vida e à dignidade do garoto. Estressados pela repercussão, os criminosos carregaram nas chantagens, submetendo o refém a fome e sede enquanto o pagamento do resgate não fosse efetuado.

Pelo que se depreende, a família Marinho não adota para o tema seqüestro o mesmo princípio (tradição ou convicção) que a tem levado a não noticiar suicídio, fundamentado na hipótese de que o noticiamento ? assíduo e detalhado ?, de tal ação humana teria efeitos replicadores. Não noticiar seqüestro, ao contrário, seria fazer o jogo dos facínoras. Por atacado, a lógica se aplica. No caso a caso, há controvérsias, uma vez que as soluções para seqüestros não dependem, proporcionalmente, da solidariedade coletiva. Não há evidências de que esse tipo de situação se resolva mais facilmente se houver ressonância, comoção, ansiedade geral e palpitagem de todos os cantos. Não é, certamente, um dilema digno de popularidade, aos moldes do Você decide.

A Globo pode estar certa, mas é preciso saber em que medida e em que proporção. Face a seqüestros, a imprensa se vê diante de algumas alternativas: saber e calar; saber e noticiar; investigar e esperar; investigar e noticiar imediatamente; cobrir em tempo real e até entrar pelo cenário adentro, a ponto de se tornar igualmente refém, como já aconteceu, ou mediadora ? chegando a ser trocada por eles.

Se Fernando Pessoa disse que tudo vale a pena se a alma não é pequena, na falta de uma diretriz clara valeria a máxima de que, em se tratando da vida humana, o menor mal seria não colocá-la em risco; a mais elevada boa ação seria salvá-la, se possível. Noticiar o fato estaria entre essas possibilidades? Vejamos um exemplo. Quando Wellington de Camargo, irmão da dupla Zezé e Luciano, foi seqüestrado, houve mais do que noticiário, houve uma “campanha”, e reações e chantagens à altura. Pois bem, o jornalista-apresentador Carlos Massa, o Ratinho, em entrevista que concedeu à revista Playboy do mês passado, confessou-se arrependido da forma como procedeu. Em março de 1999, depois de três meses de seqüestro, Ratinho propôs [ilegalmente] criar um disque 0900 para arrecadar o dinheiro pedido pelos seqüestradores, que trataram de cortar um pedaço da orelha de Wellington e mandar à retransmissora do SBT em Goiânia, a TV Serra Dourada, com um bilhete endereçado ao Ratinho, pedindo mais dinheiro. Não há, portanto, uma receita, nem por atacado nem no varejo, a não ser a da cautela e da sobriedade em assunto tão macabro, já que a vida humana, seja de quem seja, é um valor que deve estar acima de todos os outros.

Aprofundando o debate

Grandes estudiosos da moralidade, e aqui podemos recorrer a dois paradigmas, Piaget e Kohlberg, concluíram não só que as categorias éticas se constroem face aos dilemas, mas que em resposta não existe julgamento que se consolide pelo maniqueísmo, ou seja, os caminhos tanto podem apontar para o sim quanto para o não, o que importa é se o sujeito da ação estará agindo segundo princípios, e não vantagens. Clássicos da fundamentação metafísica dos costumes ? Kant na dianteira ?, também sinalizaram para uma direção, os valores em causa.

Em casos de seqüestros, é justamente o maior valor moral que está em jogo, a vida. Dedutivamente, portanto, não se pode dizer para sempre que a imprensa deve manter-se afastada da cobertura de seqüestros, mas é possível, sim, inferir que ela não deve se aproximar se tal movimento colocar uma vida em risco. Qualquer que seja a atitude, ela deverá estar assentada em duas bases firmes ? convicção e responsabilidade. E, evidentemente, responsabilidade significa ter consciência das possíveis conseqüências e responder legal e juridicamente por elas. Em hipótese alguma, porém, se admitirá, moralmente, que os fins maiores sejam pecuniários.

Claramente, portanto, seqüestro não é assunto para espetacularizações, mas seria ingênuo imaginar que o assunto não é notícia. Diante deste paradoxo, resta um bom senso: o momento adequado para autorizar a cobertura, ou seja, aquele em que a vida da vítima já não corre perigo. Segue-se, no entanto, um outro problema: o direito que a vítima tem à privacidade, se assim o desejar, a própria ou a família dela. Tudo isso porém poderá ser contrariado se um consenso superior e universalizável vier a se construir, social e profissionalmente, no sentido de que seqüestro não é assunto jornalístico. Ou, o reverso: constatado que a falta de cobertura do assunto favorece o crime, que se estabeleçam os procedimentos e limites para esse gênero de cobertura.

Seqüestros trazem consigo um mesmo lugar comum dividido por dois lados diferentes: bandidos e autoridades. Em geral, ambos querem a imprensa distante, pois adotam a convicção de que a sua proximidade atrapalha, tanto as negociações quanto o êxito da operação. Quando criminosos querem dar visibilidade a suas ações, eles mesmos produzem vídeos convincentes de que a vítima está em seu poder e do que estão dispostos, inclusive, maltratá-la diante de uma filmadora. Em caso de seqüestros políticos o contexto é outro. Nessas situações, governos costumam padronizar um procedimento: não negociar com seqüestradores e já ter grupos de elite previamente preparados. Segredo e surpresa são, portanto, dois elementos que não combinam com a cobertura mediática.

(*) Professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, coordenador do projeto de pesquisa e extensão SOS-Imprensa

 

    
    
                     

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