Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ARGENTINA

Noticiário precário, espetáculo patético

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

ARGENTINA

Jorge Marcelo Burnik (*)

Numa Argentina onde sopram ventos políticos de inelegíveis, a mídia está amancebada num faraônico projeto: "parecer crível". Alguns canais e jornais até fazem questão de se legitimar com o rating numa almejada, mas distante credibilidade. Em geral, a maioria da mídia está como o resto do país, falida ? no que, elegantemente, os donos dos multimeios chamam atualmente "en convocatoria de acreedores". Cortesmente esta denominação permite, hoje mais do que nunca e com toda a perversidade do termo, explorar financeira e ideologicamente os produtores da informação, com o de acordo ? absurdamente usual ? de quem leva a pior parte no processo de precarização, o jornalista.

Durante os anos 90, a maioria da mídia na Argentina foi esquartejada por capitais anônimos que prometiam revolução tecnológica como sinônimo de objetividade. O tempo mostrou que, quase sem exceções, há uma dicotomia absoluta entre as promessas e os produtos que hoje percorrem os canais tecnológicos do país. Muitos emitem sem dizer de onde (ideologicamente) falam, porém com qual intenção. E isso não seria tão pecaminoso, se nas tendenciosas idéias não estivesse sugerida a marca da grande ausente, a intenção de informar para clarificar.

Outro efeito devastador é o da espetacularização crescente. Programas triviais, misturados na maior baderna com erodidos programas jornalísticos, fizeram com que o ambiente midiático ficasse mais turvo ainda, pois os "recentemente" antigos reality shows transvazaram-se num pseudojornalismo, no qual nem sempre quem pergunta é jornalista e, o pior, nem sempre quem responde sabe do que fala, não ficando clara a intenção tanto dos programas quanto do que pretendem emitir.

Neste rareado cenário, surge outro sinônimo de confusão, com a questão das eleições, num momento em que a maioria do povo não está a fim de votar nos "inelegíveis de sempre", os quais, após uma metamorfose macabra, mostram o lado mais patético dos autodenominados "representantes midiáticos", os já conhecidos candidatos sem idéias, clonados com perfis tão pauperizados quanto as instituições que até hoje os contêm, montados em discursos vácuos; representam a paródia da salvação do caos que souberam ornar.

A ressurreição impossível

A mídia deve fazer o milagre de reanimar a cadavérica estirpe política argentina. O diagnóstico do senso comum não é alentador, muito pelo contrário. Entre tantos absurdos de dados estatísticos de supostas intenções de votos, comentários esperançosos sem idéias claras, confusos comentários justificadores da má distribuição das riquezas, efemeramente aparecem e somem anônimos rostos midiáticos, futurólogos de várias espécies, politiqueiros, psicólogos, sociólogos, espíritas que compõem uma extravagante fauna midiática, o destinatário do bombardeio acaba da única maneira pensável, atordoado, mais niilista a cada palavra emitida. E aos poucos a mídia também, mesmo que timidamente, se redescobre por meio de alguns poucos programas como uma ferramenta de descrença, para dentro e para fora dela mesma, contaminada pela enfermidade do doente, a quem devia curar.

Algumas pessoas, ante ao desespero, optaram pelo escapismo do consumo de programas de entretenimento em que pelo menos o absurdo é autêntico e o receptador não se sente menosprezado pela mídia que nestes dias o envilece, em troca da promessa de farturas futuras se o baldado referente de poder recupera apoio. No entanto são cada dia menos os que, de dentro da mídia, acreditam que esta cumplicidade salve a mídia de acabar arrastada à mesma cratera cética onde hoje já estão as instituições públicas. E, como que para descomprimir os presságios de tom tão lúgubre, só resta apelar ao nosso lado mais bem-humorado e perguntarmos como naquela série mexicana, "e agora, quem irá nos defender?".

(*) Jornalista graduado na Universidade Nacional de Misiones, Argentina

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