Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Noticiário sobre câncer, o ‘de mais’ e o ‘de menos’

Por lgarcia em 20/05/1999 na edição 67

OFJOR CIÊNCIA 99

 

OfJor Ciência 99 ? Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.

 

Paulo A. Lotufo, de Boston

 

F

alou-se demais e de menos em câncer nas últimas semanas. O primeiro “de mais” estava no conjunto de reportagens e cartas sobre Banco Central-Judiciário-Prefeitura de São Paulo, onde jornalistas e leitores usaram e abusaram das metáforas “extirpar o câncer”e “lancetar o tumor”. Desde há muito tempo, aboliu-se o uso de termos como “fulano é um leproso” ou “morfético”ou “tísico” por ser ofensivo aos portadores da lepra e tuberculose, respectivamente.

Em respeito a todos aqueles que têm câncer, a utilização deste diagnóstico médico para caracterizar corrupção, nepotismo e outras malversações do Erário também deveria ser abolida. Imagine se alguém escrevesse: “deveríamos eliminar esta Aids que infecta a prefeitura, ou Câmara?”. Susan Sontag discorreu sobre o tema enfocando o câncer (A doença como metáfora, fora de catálogo nos EUA e Brasil) e a Aids (Aids e suas metáforas,Companhia das Letras, 1989).

O segundo “de mais” foi novamente a excitação da imprensa com a angiostatina, ganhando manchetes desnecessárias depois de um artigo publicado em Science (30/4/99), que apesar de ser do interesse dos pesquisadores da área, nada acrescentava em termos práticos ? afinal, são pesquisas ainda em camundongo.

A excitação com a angiostatina contrasta com o primeiro “de menos”, que foi a divulgação mínima que teve nos EUA (e, em decorrência, no Brasil), do relatório conjunto Second annual report to the nation on the status of cancer” publicado no Journal of National Cancer Institute (21/4/99). Este relatório confirma e amplia os resultados do anterior: os novos casos de câncer estão diminuindo nos EUA. Cânceres de próstata, pulmão e intestino estão menos presentes na população e, o de mama está estabilizado. Para não dizer que tudo vai indo bem, um câncer de pele, o melanoma e o dos gânglios linfáticos apresentam taxas ascendentes.

Por que uma notícia tão excitante como esta não foi divulgada e apreciada o suficiente no país de origem? A resposta é dada pelo presidente da Associação Americana do Coração, que considera que desde a divulgação da queda da mortalidade por doenças cardiovasculares, em 1978, houve redução nas verbas alocadas às doenças do coração, mesmo sendo estas ainda hoje a principal causa de morte nos EUA e no mundo. Na competição por verbas e novos mercados para medicamento e instrumentos diagnósticos, os avanços na prevenção não só ficam relegados como passam a incomodar a quem tanto trabalhou para atingir esses objetivos. Estranho este mundo da ciência e da saúde pública, não divulgam nem destacam a suas próprias conquistas, com medo de perder verbas.

O segundo “de menos” foi uma bem-estruturada matéria da Folha de S.Paulo (2/5/99) sobre tomate e prevenção de câncer. Um tema atual, com base científica e de interesse aos leitores. Porém, em determinado momento, o autor afirma: “o câncer de próstata é o tipo de câncer mais comum entre os homens nos Estados Unidos e, possivelmente (grifo meu), também no Brasil?”. A pergunta é: por que “possivelmente”? A consulta ao site do Instituto Nacional do Câncer, INCA, Rio de Janeiro <http://www.inca.org.br> não deixa dúvidas: o número de novos casos de câncer de próstata previstos para 1999 é de 14.500, quase tanto quanto o previsto para o câncer mais comum, pulmão (14.800), porém será o sexto câncer mais diagnosticado considerando ambos os sexos.

As estatísticas de saúde brasileiras existem e devem ser citadas para esclarecer o leitor, caso contrário persistirá sempre aquela idéia “de menos” de que “no Brasil não há dados”, “que a saúde pública está falida” etc. etc.

 

Valdir Gomes (*)

 

Cientistas e jornalistas da área científica de vários países têm alertado nos últimos anos sobre a invasão das chamadas pseudociências (ou falsas ciências) nos meios de comunicação e acadêmicos. O astrônomo americano Carl Sagan, o físico brasileiro Marcelo Gleiser, o biomédico Renato Sabbatini (articulista de ciência do Correio Popular, de Campinas), o jornalista Ricardo Bonalume Neto, da Folha de S.Paulo, e o jornalista e acadêmico espanhol Manuel Calvo Hernando, entre outros, têm se dedicado à crítica de fenômenos paranormais, místicos e “alternativos”.

Atualmente, cientistas que se dedicam à divulgação da ciência têm se organizado em sociedades de combate à proliferação de teorias pseudocientíficas, como o Csicop ?Commitee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal <http://www.csicop.org/> e a Sociedade Brasileira de Céticos e Racionalistas <http://webpraxis.com/ceticos/>, principalmente porque essas teorias têm uma relação muito perigosa com a ciência legítima, por motivos que explicarei mais adiante.

Mais do que combater a pseudociência, acredito ser de extrema importância também explicar o que são e como funcionam as falsas ciências. Como afirmou Sagan (O mundo assombrado pelos demônios, Companhia das Letras, 1996, pág. 30): “Se alguém nunca ouviu falar de ciência (muito menos de como ela funciona), dificilmente pode ter consciência de estar abraçando a pseudociência”. Particularmente, chamo a atenção para o caminho inverso: conhecer a pseudociência, para saber discernir entre o verdadeiro e o simulacro.

Para uma conceituação de pseudociência, faz-se necessário, primeiramente, partir da própria formação da palavra. Conhecer a morfologia de um termo, comparando-o a outro da mesma origem, pode ser um bom caminho para o entendimento de um fenômeno e suas implicações. O prefixo grego “pseudo” significa “falso”; anteposto a determinadas palavras em língua portuguesa, como elemento aglutinador, tem o objetivo de indicar que algo a que nos referimos apresenta-se de uma forma enganosa, que se utiliza de uma aparência simulada para ganhar credibilidade de quem o observa.

Dessa forma, a comparação com termos à primeira vista similares pode ajudar a clarear de vez as idéias. “Anticiência”, por exemplo, define um movimento contrário à ciência, no sentido de negação valorativa. Um terceiro termo, “protociência”, designa uma ciência em seu estágio primário de evolução, que tenta estabelecer legitimidade e conquistar reconhecimento na comunidade científica. Diferentemente da “pseudociência”, a “protociência” já se delineia nos cânones científicos e seu estatuto de ciência depende do tempo necessário para que suas hipóteses e experimentos demonstrem consistência e comprovem a eficiência dos conceitos e teorias, criando-se, a partir daí, seu rol de leis e pressupostos específicos, amparados em leis e pressupostos gerais já sedimentados. Embora ambas surjam de especulações, conhecimento intuitivo e estruturas conceituais questionáveis, geralmente é a protociência que mais tem condições de oferecer uma proposta de criatividade e curiosidade capaz de gerar interesse de pesquisa e produção de conhecimento racional. No entanto, quando a insistência nas especulações tornam as teorias e práticas pseudocientíficas uma ameaça até à saúde pública, combatê-las é o melhor caminho para o equilíbrio da própria ciência e da sociedade. O que pode acontecer é a inclusão da protociência (ou ciência de fronteira) como alvo desse ataque, impedindo sua evolução como conhecimento racional.

As teorias pseudocientíficas apresentam-se como uma proposta de conhecimento aparentemente sustentada por bases sólidas de investigação, seleção, comparação, apuração e explicação de fatos e objetos. Costuma responder com maior rapidez aos questionamentos, porque age eliminando etapas indispensáveis à construção de um conhecimento sólido e objetivo. Agindo assim, ela acaba atingindo o público também rapidamente, difundindo seus argumentos, influenciando e confundindo a opinião pública antes mesmo de a resposta científica entrar em cena para lançar uma explicação mais racional sobre os fenômenos. No entanto, quando chega o momento de apresentar publicamente justificativas e resultados para as teorias expostas ? muitas sequer experimentadas ?, as pseudociências tendem a escapar para o campo das argumentações subjetivas.

Embora a disseminação do conhecimento científico e o grande avanço da ciência possam nos fazer acreditar que teorias pseudocientíficas se enfraqueçam e desapareçam por si mesmas, devido às suas características e ao suporte teórico frágil que as sustentam, o que percebemos é o surgimento contínuo de novas disciplinas e teorias ditas “científicas”, mas questionáveis do ponto de vista da metodologia científica. Para tirar a prova, basta uma consulta ao Dicionário Cético (Skeptic’s Dictionary <http://skepdic.com/>), elaborado pelo filósofo Robert Todd Carroll, fonte confiável de crítica e análise de práticas científicas e não-científicas e de fenômenos diversos, como alquimia, cirurgia psíquica, crenças, iridiologia, vampiros, raptos por extraterrestres e homeopatia, entre as mais de 320 definições que apresenta.

Cada vez mais propagadores da pseudociência insistem em tirá-la da obscuridade, usando termos, métodos e conceitos das ciências genuínas, o que causa mal-estar na comunidade científica e confusão de conceitos e valores na sociedade o grande alvo das falsas ciências, em grande parte encorajadas pelos meios de comunicação de massa. É em geral pela mídia que as pessoas tomam contato com superstições e pseudociências. A partir daí, pela importância e credibilidade que atribuem aos meios de comunicação, em especial à TV, passam a acreditar em astrologia, quiromancia, clarividências e terapias alternativas de toda natureza. Terminam, então, por buscar conselhos e apoio para tomar decisões muita vezes vitais, ouvindo pseudo-estudiosos que se dizem autoridades em conhecimentos, muitos deles até desprovidos de qualquer lógica.

Certamente, as comunidades científica e acadêmica concordam sobre os danos que a pseudociência podem causar. Trata-se de uma volta ao obscurantismo, que deve ser encarada e combatida pelos homens da ciência e da comunicação, especialmente por jornalistas e divulgadores científicos, se não quisermos uma regressão social às superstições e ao charlatanismo medievais. Talvez o maior combustível da pseudociência ainda seja o desconhecido, o não-teorizado, o não-pesquisado; acredito que o surgimento e proliferação das teorias pseudocientíficas estarão sempre ligados à existência do “mistério” e do não-resolvido. Na medida em que as fronteiras do conhecimento avançam, amplia-se proporcionalmente o horizonte do desconhecido e, logo, do misterioso. Este é um dos axiomas da ciência.

(*) Jornalista, pós-graduando em Comunicação Social na Universidade Metodista de São Paulo (Umesp)

 

Bianca Rodrigues Moura

 

A Web é duplicada a cada período de 90 ou 100 dias, e os profissionais da área de divulgação científica precisam de muita cautela ao selecionar informações, para discernir entre o que é bom e o que não é. Afinal, a ciência ? como o jornalismo ? exige veracidade e exatidão.

Para ter a certeza de uma busca proveitosa e de confiança, a saída para o divulgador científico é armazenar bons sites de seleção em seus bookmarks, mantidos por especialistas que separam o joio do trigo. O Curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo), que está sendo realizado na Unicamp, é um ótimo fórum para a captura dessas dicas, já que o programa une jornalistas e cientistas dispostos a escolher e indicar, em suas respectivas áreas de atuação, as fontes de pesquisa primárias e secundárias em C & T na Web.

Na área de ciências sociais vale a pena visitar o site da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais <www.anpocs.org.br>, que dá acesso aos trabalhos científicos das diferentes publicações da entidade. O Sosig ? Sociological Science Information Gateway <www.sosig.ac.uk/welcome.html> mantém um banco de dados que auxilia na localização de sites de qualidade e relevantes para pesquisa em ciências sociais, com um sistema de busca avançado.

Os profissionais que atuam na área de física podem acessar no site da American Physics Society <www.aps.org> os abstracts de todas as publicações da entidade gratuitamente, o material na íntegra quando assinante ou através do sistema pay-per-view. A página traz também muitos links para outros sites de física.

Para pesquisa na área ambiental, a Unep ? United Nations Environment Programm <www.unep.org> possui um site rico em informações, com possibilidade de um sistema de busca inteligente em suas páginas, o que facilita a localização da informação. O site inclui matérias técnicas sobre diversos temas envolvendo meio ambiente, e para cada tema existe uma biblioteca on line, com artigos científicos na íntegra e lista de outros sites.

Outro recurso útil para são as bibliotecas virtuais. O endereço <www.cg.org.br/gt/gtbv/bibliotecas.htm> tem sala de leitura, links para outras bibliotecas virtuais e acesso a íntegras. Para divulgadores científicos da área florestal, vale uma visita ao endereço <www.metla.Fi/info/vlib/Forestry>. Em ciências agrárias, a Biblioteca da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), com dissertações e teses, periódicos, acervo e base de dados está no endereço <www.dibd.esalq.usp.br>. O destaque deste site é a enorme lista de links para outros sites da área.

O divulgador científico pode recorrer também a publicações que listam os melhores sites de fontes de informação, como o livro The Internet: a Guide for Chemists, da Sociedade Americana de Química, editado por Steven M. Bachrach, com numerosos links comentados da área de química, e o The Internet for Scientists and Engineers 1997-1998: Online Tools and Resources, de Brian J. Thomas, que é uma publicação com endereços para as diversas áreas da ciência.

Essas e muitas outras fontes de informação primárias e secundárias em C & T (revistas e outros periódicos como Scientific American, Discover, Science e Nature) foram apresentadas na disciplina do professor Renato M. E. Sabbatini, e estão disponíveis no endereço <www.nib.unicamp.br/cursos/fontes-ct>.

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