Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Novas luzes sobre um caso sombrio

Por lgarcia em 16/12/2003 na edição 255

TIM LOPES

Ana Carolina Diniz (*)


Dossiê Tim Lopes ? Fantástico/Ibope, de Mário Augusto Jakobskind, Editora Europa, Rio de Janeiro, 2003; R$ 25,00; lançamento em 18/12/03, às 17h30, no 11? andar da sede ABI (Rua Araújo Porto Alegre, 71), no Rio


O jornalista Mário Augusto Jakobskind, editor de Internacional da Tribuna da Imprensa, correspondente da rádio Centenário de Montevidéu e membro do Conselho Editorial do jornal Pátria Latina, lança o livro-reportagem Dossiê Tim Lopes ? Fantástico/Ibope. Com prefácios do repórter e escritor José Louzeiro, de Cecília Coimbra, uma das fundadoras do Grupo Tortura Nunca Mais, do padre Ricardo Rezende, integrante do Movimento Humanos Direitos, e do jornalista Beto Almeida, da TV Senado, o livro mostra os bastidores do caso Tim Lopes sob um ângulo que foi praticamente omitido pela imprensa de um modo geral ? com as exceções de praxe. O advogado trabalhista Angelito Mello faz uma análise em sua área das implicações do caso Tim Lopes.

Neste dossiê, Jakobskind colheu depoimentos dos mais diversos protagonistas do caso Tim Lopes e teve acesso a documentos relativos ao relatório policial sobre o episódio, bem como do noticiário de jornais e televisões, em um trabalho de jornalismo investigativo que deixou de ser feito nos dias que se seguiram à confirmação do assassinato do repórter da TV Globo.

Na entrevista a seguir, o autor conta as dificuldades que encontrou para editar o livro.

***

O que é o Dossiê Tim Lopes ? Fantástico/Ibope?

Mário Augusto Jakobskind ? Trata-se de uma profunda investigação transformada em extensa reportagem que não caberia num espaço de jornal ou revista ? e por isso é um livro-reportagem ? sobre um triste episódio de violência urbana ocorrido no Rio de Janeiro, em 2002, e que vitimou o repórter da TV Globo Tim Lopes. Dossiê Tim Lopes ? Fantástico/Ibope mostra, através de pesquisas e depoimentos, o que levou ao assassinato por um bando de delinqüentes vinculados ao tráfico de drogas. Há no livro um capítulo específico sobre o crime organizando que ajuda também a entender o caso Tim Lopes. Na época prevaleceu uma única versão ? na prática, a versão oficial da maior emissora de TV do Brasil, tendo a mídia de um modo geral, com raras e honrosas exceções, omitido inúmeras questões, o que remete a um outro tipo de discussão.

Como assim?

M.A.J. ? O caso Tim Lopes é um exemplo concreto de como funciona o esquema do pensamento único. Ou seja, através de um fato você apresenta ao leitor ou telespectador a "única verdade", simplesmente ignorando outros eventuais questionamentos que colocam em dúvida a versão oficial. Tendo como carro-chefe a Rede Globo, a opinião pública só foi informada sobre o assassinato de Tim Lopes no que interessava à emissora. Diretores da "Vênus Platinada" saíram em campo de uma forma avassaladora, vendendo a "verdade". Até mesmo na área sindical dos jornalistas, esses mesmos diretores, que antes da tragédia nunca chegaram a passar por perto da sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, que dirá entrar, participavam ativamente das mobilizações relativas ao episódio e de assembléias. A direção sindical, ao invés de se posicionar de forma isenta, aceitando pelo menos examinar as colocações que questionavam o procedimento da TV Globo, simplesmente fechou questão em torno da versão da emissora. Ficou parecendo que houve uma espécie de permuta, ou seja, transmitir a verdade da Globo em troca de cinco minutos de fama… Nunca o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro apareceu tanto na tela da Globo como a partir daquele episódio.

Seu livro retoma a discussão?

M.A.J. ? É por aí. Foram ouvidos protagonistas silenciados pela mídia, como o inspetor Daniel Gomes, autor do relatório sobre o caso Tim Lopes, e mesmo pelo sindicato, como no caso da jornalista Cristina Guimarães, uma repórter da Globo que sete meses antes da tragédia acontecida em junho de 2002 decidiu "entrar na clandestinidade". Com evidências de que sofria ameaças do narcotráfico ela decidiu tomar precauções para evitar ser a bola da vez dos narcotraficantes.

Como começou a história do caso que resultou no assassinato de Tim Lopes?

M.A.J. ? A emissora designou Cristina Guimarães e Tim Lopes para fazerem reportagens sobre uma "feira de drogas" em favelas da cidade. Cristina cuidou da Rocinha e da Mangueira. Tim Lopes ficou encarregado do Complexo do Alemão, onde pouco tempo depois ocorreria o seu assassinato pelo bando chefiado por um tal de Elias Maluco. As reportagens foram ao ar, isso no segundo semestre de 2001, provocando grande indignação por parte dos traficantes porque muitos foram presos e o lucro do comércio ilegal foi afetado. Tim Lopes e Cristina Guimarães viraram um alvo dos narcotraficantes que queiram vingança. Cristina Guimarães passou a receber "recados" dos bandidos. Pediu proteção à Globo ? não tendo, segundo ela, sido atendida. Em determinado momento, Cristina tomou a decisão de se proteger. Chegou até a sair do país e ao voltar ficou afastada do mercado de trabalho, o que acontece até hoje. A TV Globo nega a versão da jornalista e tentou a todo momento desqualificar a repórter.

Você acha que o Prêmio Esso recebido por Tim Lopes acabou selando a sentença de morte do jornalista?

M.A.J. ? Tim Lopes foi o primeiro ganhador deste prêmio na categoria de telejornalismo. Ao receber o prêmio, em dezembro de 2001, a emissora em que trabalhava o apresentou publicamente em todos os noticiários. Uma das condições para quem faz jornalismo investigativo é se manter no anonimato. Quando sua imagem foi conhecida, a condiç&aatilde;o de jornalista investigativo deveria ser deixada de lado. Mas ele continuou e foi escalado para ir à Vila Cruzeiro, supostamente para cobrir um baile funk, onde, segundo a Globo, se praticava sexo explícito. A Globo diz que Tim Lopes apresentou a pauta, enquanto a viúva Alessandra Wagner garante que os planos dele eram deixar de lado as reportagens arriscadas, como a que foi escalado para fazer. O livro mostra tudo isso e apresenta também algumas contradições nos depoimentos de diretores da Globo, que uma hora falavam uma coisa e depois, outra. Quem ler com atenção os depoimentos e entrevistas vai verificar facilmente que muita coisa que foi dita não resiste a uma mínima análise. Posso dar um exemplo. Um dos diretores da Globo chegou a afirmar que um turista de Cuiabá viu a hora em que Tim Lopes foi "preso" pelos traficantes no baile funk, dando a entender até que teria filmado o momento. Pois bem: ele teria procurado a Globo e depois desapareceu como por encanto. Então, onde está este personagem que poderia ser uma figura-chave para o esclarecimento definitivo do caso? Ninguém sabe, ninguém cobrou a presença. Ficou tudo por isso mesmo. Por que então a TV Globo não apresentou essa testemunha que poderia ajudar a elucidar o episódio?

Há outros casos como esse apresentado no livro. Uma chefe de reportagem da regional carioca disse que Tim se apresentava na favela com um nome fictício de Ricardo. Já um dos diretores garantiu que Tim estava na favela como jornalista e a serviço da comunidade carioca. Quem ler Dossiê Tim Lopes ? Fantástico/Ibope verá que outras tantas contradições existem, mas faltou talvez vontade política para se aprofundar o caso. Tanto se fala em jornalismo investigativo mas, nesse caso, perdeu-se uma grande oportunidade para a prática desse gênero.

Como surgiu a idéia de escrever o livro?

M.A.J. ? Desde o início acompanhei o caso e justamente tive a atenção despertada pelo procedimento incomum da direção da Globo. No primeiro ato público dos jornalistas cariocas, antes mesmo de se confirmar a morte de Tim Lopes, um dos jornalistas contestou o que se colocava nos discursos tirando qualquer responsabilidade da TV Globo no caso. Não precisava ser nenhum gênio, ou super-repórter, para perceber que havia algo errado. Este mesmo jornalista, Osvaldo Maneschy, foi praticamente impedido de falar numa assembléia sindical. Cristina Guimarães foi "linchada" e apresentada como maluquete ou porra-louca, quando o único "crime" que cometia era o de contar o que tinha acontecido com ela e questionar uma verdade que isentava a Globo de culpa. Pouco a pouco fui aprofundando o tema. Colhi vários depoimentos e li muita coisa sobre o caso Tim Lopes. Silenciar ou deixar correr sem reunir as informações que obtive seria um verdadeiro desserviço ao jornalismo. Jornalistas que procuram estar bem com as suas consciências não podem omitir esses fatos, mesmo que encontrem dificuldades para divulgá-los. E tem mais, vale repetir: através de um fato como o caso Tim Lopes dá para entender cristalinamente o esquema do pensamento único.

Há casos nesse sentido em todas as áreas e editorias, da política à economia, passando pela internacional e mesmo pela área cultural, e que se apresentam de forma mais ou menos sofisticada. Podemos transpor, por exemplo, para a área internacional. Recentemente a poderosa CNN mostrou imagens de Caracas, mais precisamente de um mercado popular da capital venezuelana, e o texto "informava" que se tratavam de filas de eleitores que assinariam em favor de um referendo convocado pela oposição para abreviar o mandato do presidente Hugo Chávez. Desta vez a mentira teve pernas curtas, pois se tratou de forma grosseira de manipulação e facilmente observada, como aconteceu. A CNN teve de admitir o erro, mas a explicação afirmava que não houve nenhuma intenção de tomar partido. O caso Tim Lopes e o "erro" da CNN , embora à primeira vista possam parecer distantes , têm semelhanças. Ambos os casos se inserem na filosofia do pensamento único. Qual a "verdade" que interessa à grande mídia venezuelana ou mesmo americana? Vender o peixe segundo o qual o governo Chávez está liquidado em termos de apoio popular. Então, tudo é válido para convencer, inclusive versões infundadas. Muitas vezes serve até a imagem de um mercado…

No caso Tim Lopes, o que importa mesmo é tirar a TV Globo da reta. Para que isso acontecesse foi necessário criar todo um clima contrário às pessoas que contestavam a versão oficial. O inspetor Daniel Gomes, um técnico em investigações policiais, que até dá aulas na Academia de Polícia sobre o tema, foi apresentado como "mentiroso" e em um determinado momento até como o responsável pela ida de Tim Lopes na Favela Cruzeiro.

Foi difícil editar o livro? Que dificuldades foram estas?

M.A.J. ? Realmente foi difícil. De um modo geral o trabalho foi considerado "muito bom", chegando mesmo a ser elogiado em termos literários, quando, na verdade, o livro não tem pretensão de ser julgado nesse campo. Repito, trata-se de e uma vasta reportagem que não caberia em um espaço de jornal ou revista e que mostra, também, o esquema da corrida desenfreada pela audiência. Esta corrida, como demonstram os fatos apurados, acabou tendo conseqüências trágicas e poderia ser perfeitamente evitada, na visão de vários protagonistas do caso. Depois de duas ou três vezes comecei a perceber que os "elogios literários" não passavam de formas meio hipócritas para, em seguida, dizer não à edição. Numa das vezes recebi o recado de que o livro estava muito bom, mas seria melhor, para o meu próprio bem, não seguir adiante com a reportagem. Aí aconteceu um efeito exatamente ao contrário, ou para usar uma linguagem de fácil entendimento, só restava mesmo ir à luta para conseguir editar o trabalho, custasse o que custasse. Finalmente, depois de marchas e contramarchas, está nas bancas e livrarias o Dossiê Tim Lopes ? Fantástico/Ibope.

Você é um jornalista com produção literária. Quantos livros seus já foram editados?

M.A.J. ? Este é o sexto livro solo e tenho mais dois em co-autoria. Já tenho um outro trabalho preparado e que pode sair a qualquer momento. Trata-se de O Mundo hoje ? a farsa e a força do quarto poder, com uma série de artigos e comentários sobre fatos da realidade nacional e internacional, procurando também enfocar o mecanismo do pensamento único. Espero que esteja nas bancas, jornalista sempre pensa em termos de bancas de jornal, e livrarias em 2004. Mas, quer saber de uma coisa? Eu estou escritor, mas sou mesmo jornalista.

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