Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ELEIÇÕES PROPORCIONAIS

Novo Congresso e o preço da omissão

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

ELEIÇÕES PROPORCIONAIS

Fernando Gabeira (*)

Uma campanha de carta de leitores e mensagens na internet revela que, apesar de ter se passado pouco mais de um mês de campanha, a mídia brasileira se interessa apenas pelas eleicões presidenciais, ignorando as parlamentares.

Pesquisa realizada a pedido do presidente do Superior Tribunal Eleitoral, Nélson Jobim, revela que de 4 de julho a 4 de agosto os quatro principais jornais nacionais não dedicaram material algum às eleições parlamentares.

Os argumentos da campanha pela cobertura das eleições parlamentares começam com a óbvia constatação de que o silêncio da mídia brasileira é uma anomalia planetária, se consideramos os países democráticos.

No caso do Brasil, a decisão da mídia de ignorar a escolha do novo Congresso e Assembléias Legislativas tem outras conseqüências negativas. Uma delas é favorecer os candidatos ricos e contribuir com isto que eles ocupem postes e muros, sujando os centros urbanos do país. Uma outra é o fato de que a omissão também favorece candidatos que se elegem buscando escapar de processos por corrupção e outros crimes. Finalmente, a hipertrofia da cobertura das eleições presidenciais estimula a tendência imperial dos candidatos que, ao longo da campanha, já falaram em mecanismos de dissolução do parlamento ou insinuaram sua substituição pela sociedade organizada.

Num encontro que mantive com o ministro Nelson Jobim, em 24 de julho, expressei minha preocupação com o problema e obtive dele a promessa de que tentaria entrar em contato com os principais editores, pedindo que acompanhem as eleições parlamentares.

O nó da questão parece ser a maneira como os jornais e outros veículos interpretam a lei eleitoral. Temem que ao falar de um candidato sejam obrigados a falar dos 1.500 restantes. O ministro Jobim concorda que esta intepretação é muito rigorosa e que há margem para cobertura sem risco de punição.

Num processo já julgado, a Justiça Eleitoral revelou flexibilidade ao dar ganho de causa à TV Globo, acionada por não ter entrevistado no Jornal Nacional os candidatos à presidência do PSTU e PCO.

Num debate sobre o tema, estimulado pela coluna de Fernando Rodrigues, no portal UOL, alguns leitores afirmaram que o parlamento é culpado disso, uma vez que nem sempre rendeu muito mais do que grandes escândalos. Alguns jornalistas concordam e acreditam que não há interesse popular pelas eleições parlamentares.

O Congresso que se instala em fevereiro de 2003, além de ter um papel essencial na governabilidade do país, será chamado a opinar sobre questões como o acordo da ALCA, ainda em fase inicial de negociação.

Daí, muitos participantes do debate na UOL terem pedido cobertura da mídia nas eleições parlamentares ? não por admirarem o atual Congresso, mas pela certeza de que o silêncio poderá contribuir para uma situação pior ainda na próxima legislatura.

Sentou, espetou

Villas-Bôas Corrêa, no Jornal do Brasil, afirmou que os eleitores não devem ser culpados pelo desinteresse da mídia. De fato, usando o esquema de Jay Blummer e Michael Gurevitch no livro A crise da comunicacão pública, argumentei que o peso maior dessa distorção no funcionamento da democracia brasileira era do poder político e da mídia. No entanto, o esquema dos dois autores coloca também em cena um processo de declínio na audiência, que se refugia no papel único de espectador, privilegiando a diversão e aquilo que a emociona diretamente.

Concentração de poderes no Executivo e silêncio da mídia seriam apenas dois fatores que se harmonizam. Basta citar uma cobertura de eleições presidenciais que vai ao ponto de publicar página inteira para dizer o que os candidatos levam na sua bagagem pessoal.

Não se pode descartar o fato de que as emissoras de TV brasileiras gastam horas por semana com programas do tipo Big Brother e Casa dos Artistas. Um banho de Agnaldo Timóteo merece oito minutos de cobertura ao passo que não se gastou um segundo até agora para avaliar como será o novo Congresso Nacional. E a audiência aceita.

Os dois jornalistas que fazem o papel de ombudsman no Globo e na Folha parecem ter concordado com nossos argumentos. No entanto, só O Globo, neste último final de semana, cuidou da questão por intermédio da colunista Teresa Cruvinel, que desde o princípio apóia a campanha; e uma curta matéria sobre Diogo Cuoco, candidato a deputado de filho de um astro da própria Globo, Francisco Cuoco.

Deixando de lado a retórica política, falo apenas como um velho jornalista; notícia é como baioneta, sentou em cima, ela espeta.

Se for mantido o silêncio da mídia, essa omissão será um tema central nos próximos cursos de Jornalismo e toda uma geração de editores terá dificuldades para defender sua escolha numa eleição marcada pela turbulência econômica, a ruína momentânea de alguns vizinhos (Argentina, Paraguai e Uruguai) e luta armada fratricida em outro, como é o caso da Colômbia.

(*) Jornalista, escritor, deputado federal pelo PT do Rio de Janeiro

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