Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > MONITOR

Novo Jornalismo

Por lgarcia em 05/06/1998 na edição 46

Nahum Sirotsky (*)

 

A

os poucos vai se impondo na mídia impressa, nos quatro cantos do mundo, o que se pode qualificar de novo jornalismo. Não se trata, evidentemente, daquele criado nos Estados Unidos pela turma do Esquire, New Yorker e outros, com o formato de um conto ou noveleta, uma estrutura com começo, meio e fim em que se romanceia o acontecido. Com os cuidados necessários para se evitar processos. Coisa como A Sangue Frio, de Truman Capote, e outras obras-primas no mesmo estilo.

O novo jornalismo é o chamado jornalismo das notícias positivas, do que de bom acontece numa sociedade. Ele não significa um fim para a obrigação primordial da imprensa que é a de servir a sociedade informando criticamente sobre o que acontece dentro dela e no mundo. Notícia continua sendo, como na definição clássica, e imbatível até agora, “quando o homem morde o cachorro”, o fora do comum. E dentro desta definição cabem as noticias sobre ciência, tecnologias, medicina, porque são sobre o novo, o fora do comum, o que está promovendo a transformação desse nosso mundo e que, de passagem, ainda não mudou significativamente as sociedades.

Políticos, militares, civis ainda pensam ontem. Não fosse assim, no caso do Brasil, por exemplo, já se teria compreendido que os avanços científico-tecnológicos permitem a solução da questão da fome e da seca, pois existem as tecnologias necessárias. E tudo depende de decisão política de aplicá-las. Óbvio que os custos financeiros imediatos seriam muito grandes. Mas os ganhos econômicos e sociais seriam mais do que compensatórios. Por exemplo: existem os rios subterrâneos, os lençóis freáticos, rios perenes, como o velho Chico e inúmeros dos afluentes do Amazonas, as águas do mar. São inúmeras as hipóteses de solução.

O grave, no caso brasileiro, seria S. Paulo, onde as fontes se esgotam devido ao crescimento do consumo, poluição, falta de uma política hídrica séria. Em S. Paulo como no Brasil, o que já foi denunciado em estudos de organizações internacionais, pagos pelas Nações Unidas, e ignorados. Já se calculou, na ponta do lápis, que seria mais barato distribuir comida aos miseráveis do que sustentá-los em hospitais ou vê-los morrer de doenças. Chegou a existir, inclusive, programa e instituição com tal objetivo, com certeza, esquecida ou transformada em apenas e somente emprego.

A mídia, como serviço publico que é, além de bom negócio, tem a função de observar, informar, denunciar, criticar, apontar caminhos e soluções. Não pode abrir mão desta sua tarefa, da qual dependem o aperfeiçoamento da democracia e das sociedades, a preservação das liberdades fundamentais, inclusive a liberdade fundamental de não morrer de fome, sua vigilância é fundamental para que os homens públicos respeitem seu juramento constitucional de servirem o país e aos seus eleitores. Sem sua vigilância a corrupção, marca de toda sociedade, seria insuportável e destruidora. Vejam o que aconteceu na Indonésia, agora, em vias de acontecer na Malásia, ocorreu na Coréia do Sul, houve na União Soviética.

Os dirigentes roubaram suas sociedades que caíram no vazio de sua própria miséria. Mas, o “homem mordendo o cachorro” não pode ser apenas o negativo. E é o que estão descobrindo certos jornais americanos que começam a ser imitados. O certo, correto, honesto, justo, humano, o bom, enfim, no mundo dos homens é mais generalizado do que o contrário. E assim se explica que existem as sociedades, o convívio, o progresso científico-tecnológico, a medicina e tudo de bom que acontece.

Como, num exemplo brasileiro, a coragem em e criatividade do ministro da Educação em se empenhar para que as principais verbas sejam destinadas ao ensino elementar, o que, no prazo, tornará a sociedade mais democrática e produtiva. No Brasil ainda se imagina que democracia é liberdade de pensar e de expressar opiniões, o que representa apenas parte do que realmente significa como sistema politico. Pois democracia implica, antes de mais nada, equalizar oportunidades. Não se trata da aplicação do “de cada um segundo suas possibilidades e a cada um segundo suas necessidades”, que se revelou inviável.

Mas a cada um a oportunidade de se realizar. E o ponto de partida é o conhecimento. Paulo Renato será lembrado na história pelo que conseguiu fazer nesse sentido. O jornalismo positivo destaca e enfatiza tal trabalho, explica seu valor e significado, promove-o aos quatro cantos, procura fazer com que seja conhecido mesmo entre os analfabetos que o caminho da comida passa pela escola.

Foi o que fizeram os Estados Unidos, cujos primeiros habitantes, e todos partir deles, implantavam a escola ao lado do templo. Era preciso saber ler para rezar a Deus. O segredo do sucesso de Israel, paisinho do tamanho e Sergipe, cinco e meio milhões de habitantes, com um riacho chamado Jordão como fonte principal de água. Mas tendo o Livro como alimentação principal: o ter de saber ler e entender para se comunicar com o Senhor. E nós, estamos mostrando o Brasil para nós mesmos?

(*)Correspondente da RBS no Oriente Médio.

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