Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO TIM LOPES

Nós, os que matamos Tim Lopes

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

CASO TIM LOPES

A.R.S.

(Publicada em 16/6/2002)

"Você que, numa festa, vai ao banheiro cheirar uma carreirinha de pó, você matou Tim Lopes.

Você que dá festas elegantes servindo êxtase em bandejas para seus sorridentes convidados, você matou Tim Lopes.

Você que se encontra com sua turma no bar, fica ali pela calçada com um copinho na mão, mas dá suas cafungadas, porque isto faz parte da ?nite?, você matou Tim Lopes.

Você ator de teatro e televisão, que manda ver nas drogas, você matou Tim Lopes.

Você artista e intelectual, que curte seu pozinho e faz elogio de um equivocado conceito de marginalidade estética, você matou Tim Lopes.

Você jornalista, que curte sua droguinha de vez em quando, você matou Tim Lopes.

Você músico, que para embalar seus shows entra no barato, você matou Tim Lopes.

Você policial, que pactua com o crime, que faz vista grossa e que recebe propinas do tráfico, você matou Tim Lopes.

Você advogado, que defende traficantes, que faz de tudo para tirá-los de trás das grades, você matou Tim Lopes.

Você juiz relapso, que negligencia processos de traficantes, você matou Tim Lopes.

Você político demagogo e clientelista, que só se aproxima da favela para tirar votos, você matou Tim Lopes.

Vocês que fizeram essa política recessiva, que abre empregos no tráfico, vocês mataram Tim Lopes.

Enfim, matamos Tim Lopes todos nós que de maneira direta e indireta pactuamos com o crime. Porque chegamos a um tempo em que a participação indireta tornou-se tão infamante quanto a prática direta do próprio crime.

E não se trata de um exercício do famoso complexo de culpa judaico-cristão. Trata-se, isto sim, de fazer uma autocrítica pessoal e do sistema que engendramos.

O fato é este. Estamos numa guerra. O governo por inépcia custou a reconhecer isto. Esta guerra já tem mais de 30 anos. Era como se os nazistas tivessem já invadido a França e o governo francês tivesse levado 30 anos para perceber. Há 22 anos, por exemplo, escrevi sobre esta crise. E há muito, correndo o risco de ser mal-interpretado, dizia que as Forças Armadas tinham que entrar nesta guerra, antes que virássemos Colômbia.

Numa guerra não há meio termo. Quem fornece munição ao inimigo está ajudando o outro lado a vencer. Quem dá o seu ?tapinha? eventual está não só fortalecendo o traficante como ajudando a que tombem outras vítimas ? os drogados. Do mesmo modo que há que traçar novas estratégias bélicas associadas a maciças ações sociais, temos também que rever nossas posturas éticas e até estéticas.

Dou-lhes um exemplo. No dia em que Tim Lopes foi assassinado, estava eu no MAM vendo uma exposição de arte contemporânea, que incluía trabalhos de Hélio Oiticica, artista da vanguarda e da marginalidade artística nos anos 60 e 70. Na parede, entre suas obras, uma bandeira amarela com a reprodução da foto do bandido Cara de Cavalo morto e, em cima, uma frase do artista: ?Seja marginal, seja herói?.

Houve, portanto, um tempo, tempo recente, quando esta guerra estava começando em que, em nossa cultura, era um charme louvar o marginal. O artista se julgava um marginal, um guerrilheiro e procurava neles pactos ideológicos, éticos e estéticos. Surgiu toda uma cultura ?underground?, que se opondo, às vezes heroicamente, ao sistema, fez uma perigosa aliança com o submundo das drogas. Por contaminação, chegou-se até a criar um tipo de literatura que se gabava de ser ?literatura marginal?. Claro, havia a ditadura para justificar certas posturas. Mas a contaminação estava feita. E nos dois sentidos. Mesmo os guerrilheiros presos na Ilha Grande, nos anos 70, reconheceriam que passaram conhecimentos e táticas de guerrilha para os presos comuns. Havia ainda a visão romântica de que se poderia cooptar o marginal para a revolução. Na verdade, estava ocorrendo o contrário. Os marginais estavam nos cooptando e expandindo seu mercado, corroendo pelas drogas o sistema. Hoje, reconhece-se, são um ?estado paralelo?. Elias Maluco e os comparsas que organizam bailes funks onde as letras das músicas recomendam torturar e queimar opositores, esses, para nosso constrangimento, adotando a técnica da ?apropriação? tão cara à pós-modernidade, jubilosamente acenam sua bandeira no topo da miséria: ?Seja marginal, seja herói?."

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