Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES >

O abuso do “dom” da verdade

Por lgarcia em 20/07/1998 na edição 49

Débora Thomé (*)

 

C

erta vez, tratando da recepção da mensagem fotográfica pelos leitores da mesma, o teórico da comunicação francês Roland Barthes escreveu no quesito pose: “O leitor recebe como uma simples denotação o que é, na verdade, uma estrutura dupla, denotada-conotada”. Tal definição, embora tenha sido feita para fotografias jornalísticas, reflete um dos piores males que o jornalismo supostamente isento dá origem; “vende-se” uma interpretação do fato como se a mesma fosse a verdade absoluta, tentando negar que, por trás daquela mensagem, existe um homem, que, como tal, possui seus próprios valores e crenças.

Passamos no mínimo quatro anos em uma faculdade de jornalismo, mas, logo nos primeiros momentos, aprendemos que a isenção perante os fatos é uma obrigação de todo profissional da notícia que, como uma rocha, não deve deixar transparecer em seu texto qualquer sentimento ou toque pessoal que possa a vir interferir na tal verdade absoluta. Como iniciantes, saímos pelo mundo reproduzindo o discurso da isenção e, pela crença que as pessoas ainda têm nos veículos de comunicação, conseguimos convencê-las de que realmente somos isentos, somos pedras, somos os olhos capazes de tudo enxergar, sem em nada interferir. Mas não assim como uma foto nunca é somente denotada, pois existe um fotógrafo e um editor no processo de publicação; uma matéria também jamais será o retrato fiel do fato.

Vendendo a suposta isenção dos profissionais de comunicação, o jornalista João Gabriel de Lima, como vim a saber mais tarde, editor de Veja, publicou, na edição de 8 de julho de 1998 o artigo intitulado “Como você não curtiu?”, em cujo subtítulo podia-se ler “Os motivos que levam o espectador a esconder sua opinião sobre certos filmes”. Acima do título, havia quatro fotos de filmes e também legendas a respeito de cada uma dessas obras cinematográficas. Esses pequenos textos diziam por que as pessoas que gostavam de determinados filmes afirmavam não gostar e vice-versa.

Mesmo para aqueles que, talvez sabiamente, tenham lido somente as legendas das fotos, o tom de arrogância já ficou claro. Com o direito de crítica dado a todos os jornalistas, João Gabriel de Lima, disse sua opinião e deu as explicações que considerava adequadas como se fossem a verdade absoluta, como se, após a leitura de tal matéria, ninguém mais pudesse falar que gosta de Morangos Silvestres, de Bergman, porque “os sonhos dos personagens fazem qualquer um dormir”, ou de Gosto de Cereja porque “é muito chato mesmo”.

Existiram alguns erros graves.

O primeiro deles foi que, embora a matéria fosse assinada, não era uma coluna, o que faz com que o leitor comum não tenha a percepção clara de que aquela é apenas uma das opiniões sobre tais filmes. O segundo erro foi a má fé por parte do autor em ditar regras castradoras à livre escolha de seus leitores, que podem gostar ou desgostar daquilo que bem entenderem por razões que o jornalista não tem condições de saber quais. E, por fim, o autor errou em criticar, sem os argumentos suficientes, gênios consagrados do cinema como François Truffaut e Ingmar Bergman.

A matéria foi a representação do crítico pernóstico procurando um espaço no mundo pop, da matéria feita para consolar a massa que engole filmes norte-americanos e que prefere acreditar que o jornalista foi mesmo isento. Para essas pessoas, a matéria nada mais fez que traduzir uma verdade do mundo. Pobres dos nossos leitores…

(*) Estudante do último ano de jornalismo da PUC-RJ.

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