Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > As empresas estão com o pires na mão e nenhuma idéia na cabeça.

O boné não é um boné – é um sistema

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

SÍMBOLOS & SIMPLIFICAÇÕES

Alberto Dines

Os franceses dizem "bonnet", os americanos "cap", nós facilitamos para boné mas diante do Deus-nos-acuda criado pelo chapeuzinho vermelho na cabeça do presidente Lula breve teremos algo parecido aos brioches de Maria Antonieta.

Exagero de todos os lados: os críticos da mídia acham que ela "forçou a barra" ao atribuir tanta importância política a um gesto insignificante na rotina presidencial. Já os críticos do governo acham que qualquer gesto do chefe da nação tem significados que não podem ser ignorados ou minimizados.

Na verdade, os dois lados agarram-se à questão simbólica mas o problema é outro, maior: estamos metidos numa gigantesca engrenagem simplificadora que começa na mídia ? incapaz de recusá-la ? e termina naqueles que precisam da simplificação para tornar inteligíveis as suas mensagens. Em outras palavras: estamos no território da representação. Teatro sem diálogos, baseado em sinais ? pantomima.

A "crise do boné" serviu-se de uma peça de vestuário para convertê-la em mensagem política simplesmente porque estamos enfiados num circuito auto-alimentado onde tudo é fragmentado, reduzido a signos. A mídia precisa deles para dar sentido às suas informações e os produtores de informações não podem dispensá-los para ser entendidos.

O boné é o disfarce de um sistema que, aparentemente, convém a todos mas, na realidade, é inimigo de todos os que pretendem algo mais do que uma cultura virtual, facilitadora na aparência, complicadora na essência.

A desarticulação deste sistema começa pela avaliação do que aconteceu com a nossa mídia desde os anos 1990. A façanha de derrubar Collor foi casual e marginal, resultou mais dos vícios do que das suas virtudes. Animada com o triunfo, a mídia empenhou-se em aumentar o seu poder de fogo a qualquer preço. Entrou no ramo dos grampos telefônicos e desmoralizou o jornalismo investigativo. Investiu pesado para aumentar as audiências em passes de mágica, desatenta ao processo de construir credibilidade através da qualidade editorial.

Em seguida, vieram modas & manias, hipocondria & terapias com a aparência de conhecimento mas cuja missão principal era pavimentar o caminho para a supremacia do trivial e a consagração da irrelevância. Conseguimos a façanha de cobrir a invasão do Iraque sem nunca ter explicado como e por que foi criado o Iraque. Cobriu-se a campanha eleitoral com razoável eqüidistância mas depois da posse ficou claro que aqui, nestas bandas, imparcialidade é a soma de parcialidades.

À penúria generalizada acrescentou-se uma desorientação estratégica. As empresas estão com o pires na mão e nenhuma idéia na cabeça. Os veículos insistem em fazer barulho mas o tambor apenas ronca, parece cuíca. Nos sucessivos enxugamentos e reengenharias foram demitidos os que ganhavam mais e, de repente, descobriu-se que sem eles a mídia já não consegue mediar.

Neste panorama, o boné caiu como um luva. O governo embalou-se nos símbolos e metáforas enquanto a mídia iludia-se com a idéia de que sua missão consistia apenas em trocá-los. Nem os chamados intelectuais conseguem articular uma reflexão mais consistente, enredados nos motes, palavras-de-ordem, chavões e chavecos de um código acessível somente aos comunicadores e comunicantes.

Na época do Estado Novo e da censura, o povão apelidou o DIP de "O-fala-sozinho". Agora, com a mídia engasgada, ouvem-se apenas os bonés do MST e os quepes da UDR.

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