Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > CRISE CAMBIAL

O buraco é mais em cima

Por lgarcia em 31/07/2002 na edição 183

CRISE CAMBIAL

Claudio Julio Tognolli (*)

Pipocaram na mídia, na última semana, as notícias sobre o "efeito eleição" na alta do dólar. A cada linha dos jornais, ficavam três entrelinhas subentendidas, em que se lia, mesmo que subliminarmente: "a culpa é do Lula". Achou-se o bode expiatório, comme il faut. Crasso engano dos jornais: meteorologia e economia (livre mercado) são sistemas abertos. Colocar a culpa nesse ou naquele candidato, ou ideologia ou conduz ao velho processo de satanização, do qual a imprensa é pródiga.

Da mesma forma que tal candidatura é apontada como a responsável pelas efervescências do mercado, a mídia também vem apontando, ultimamente, os genes como os principais supostos responsáveis pelo homicídio, por exemplo. Tais notícias primeiro nos enganam, para depois enganarem de novo. Como o livre mercado, como a meteorologia, o ser humano também é um sistema aberto. A resposta final não está nos genes. Como não está na candidatura do Lula, para explicar o débacle do câmbio. Lidar com sistemas complexos, abertos, é tarefa das mais difíceis. Portanto, que não se espere da mídia a resposta final. Tratamos aqui, portanto, daquilo que Henri Atlan tão bem aponta como teleologia ? o raciocínio através das causas finais.

O problema é que, no escopo do processo de se culpar uma candidatura pelo caos econômico, foi reduzido o espaço dos jornais dedicado a relacionar a crise aos desdobramentos dos atentados de 11 de setembro e à crise das telecoms. 

"Hoje, não há mais economia, mas economia global; não há mais internet, mas internet global; e não há mais redes, mas redes globais. As empresas Global Crossing e 360Networks batalharão pela supremacia mundial, mas num mercado de US$ 1 trilhão não haverá perdedores", escreveu na The Economist, em fevereiro de 2001, o guru tecnológico George Gilder.

As duas empresas faliram. E a Economist teve de se explicar em seu editorial, à página 9 de sua edição de 20/7/02. Aliás, com uma pífia e inusitada defesa do liberalismo, face à rouballheira generalizada. "O liberalismo trouxe inquestionáveis vantagens aos consumidores (…) vejamos o quanto caiu o preço das chamadas de longa distância, ou como cresceu a popularidade dos celulares, ambos resultados da competição".

Os czares da economia mundial, é óbvio, tratam da questão brasileira, nessa discussão, com desdém. Não está no eixo de interlocução a matriz dos problemas. O discurso dessa gente é sempre clivado. E é nesse ponto justamente que se apóia grande parte da mídia brasileira: nas questões locais, ou seja, América Latina. Vejamos o economista Rudiger Dornbusch, professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology), morto semana passada, aos 60 anos, vítima de câncer, em sua casa, em Washington. Destacou-se por ter previsto a crise mexicana, em novembro de1994, quando da desvalorização do peso mexicano. Em seu obituário, três grandes jornais brasileiros destacaram uma frase sua, de 1998, um ano antes da desvalorização cambial brasileira. Dornbusch referiu que o FMI (Fundo Monetário Internacional) não deveria colocar dinheiro no Brasil para evitar uma crise. "Quando o Brasil ligar, apenas deixe o telefone tocar. Diga que nossos operadores estão ocupados". Foi essa a frase que nossa mídia valorizou.

Processo persecutório

A discussão mais ampla do tema, a que a mídia, semana passada, nada dedicou ? nem nos boxes ornados às pensatas ? passa pelo grande arcano do marxismo: o tempo. Em síntese: a tecnologia reduz o tempo de produção, mas com essa rapidez, sobretudo finissecular, não há mercado para escoar todo o recém-produzido. A única saída seria promover algazarra no mercado, ainda que discretamente, e incentivar nos bastidores a guerra. O fato é que a ex-secretária norte-americana Madeleine Albright comemorou a invasão do Kosovo, em abril de 1999, como a criação de um "novo mercado de escoamento da produção dos EUA", já que a terra ali estava arrasada. O nome disso em economia é "ciclos Kondratieff".

Vejamos a obra Le bonheur economique, de Francois-Xavier Chevallier (Albin Michel, 1998, Paris). Ele nos conta coisas nada animadoras, com base nas teorias dos "ciclos", do economista russo Kondratieff. Para o economista, avanço tecnológico e redução de tempo de produção resultam guerras e instalibilidaes bem localizadas ? para lastrear a produção encalhada pela redução de seu tempo de manufatura. Nessa visão, a Revolução Industrial teria gerado, a partir de 1783, e seguindo o economista, o crack na Bolsa de Londres e a Revolução de 1830. A introdução da química do ferro, a partir de 1837, deu empuxo à Revolução de 1848, à Guerra de Secessão nos EUA e ao crack de Viena. A química pesada, no início do século, teria potencializado e gerado a Primeira Guerra Mundial, o crack de 1929 em Nova York e a Revolução de 1930, no Brasil.

Por assim dizer, a tecnologia informática e a bioquímica teriam gerado o fim da URSS, as guerras localizadas (como o Kosovo) e o crack das economias do Terceiro Mundo. Verdade? Se lembrarmos que, ao final da Segunda Guerra, produção industrial dos EUA cresceu 60%, o produto bruto nacional 90% e o número de desempregados caiu para apenas 500 mil em todo o país, a teoria tem algum crédito.

Mas toda essa discussão, cujo epíteto é o do "papo-cabeça" desbundado, passa ao largo. A mídia prefere o tangível, o culpável. Assim, tanto vale um Lula quanto um gene nesse processo persecutório ? para dizer o mínimo. Reduzir a discussão às "notícias": eis a nova oclusão da linguagem midiática.

(*) Repórter especial da Rádio Jovem Pan, professor das Unifiam (SP) e da ECA-USP

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