Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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O carioca que o NYT censurou e a CIA perseguiu

Por Argemiro Ferreira em 30/05/2001 na edição 123

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MEM?RIA

TAD SZULC (1927-2001)
, de Nova York

Como Alberto Dines e Nahum Sirotsky ? que o conheceram nos anos 1940 ? ele morou no Rio e torcia pelo América. Esteve a ponto de virar brasileiro ? até cursou a Universidade do Brasil. Mas o primeiro emprego de repórter mudou seu rumo. Foi na agência Associated Press, graças à fluência em inglês, aprendido na Suíça, onde os pais o matricularam antes de virem para o Brasil.

A AP percebeu sua vocação de repórter e o levou em seguida para Nova York, em 1945. Ali Tadeusz Witold (Tad) Szulc, nascido na Polônia, filho de poloneses que fugiram do nazismo para o Brasil, acabaria optando pela cidadania americana. Ele morreu de câncer terça-feira (22/5), aos 74 anos de idade, como um jornalista e escritor (autor de dezenas de livros) conhecido e respeitado em vários países.

O New York Times, que o teve como um de seus melhores correspondentes (no Brasil, na Espanha, em Portugal e na Europa Oriental) entre 1953 e 1972, relatou sua trajetória profissional. Mas escorregou ao contar um episódio que envolveu Szulc em 1961. Em abril daquele ano, reportagens nas quais considerava iminente a invasão de Cuba por uma força treinada pela CIA foram censuradas no Times.

O Brasil entrava na história de Szulc, pois ele voltava do Rio para os EUA e passaria alguns dias em Miami (grandes repórteres costumam estar no local quando o fato acontece). Ali descobriu tudo sobre campos de treinamento na Flórida, na Guatemala, a invasão à Baía dos Porcos etc. Publicações alternativas como The Nation divulgavam suspeitas, mas nada saía na mainstream press (a chamada grande imprensa).

O então diretor-presidente do Times (Orvil Dryfoos) e seu escritório de Washington (dirigido na ocasião por James Reston) submeteram-se à pressão da agência de espionagem e do próprio presidente John F. Kennedy, e expurgaram, em nome da segurança nacional, os trechos críticos das reportagens enviadas de Miami por Szulc, com os detalhes sobre os preparativos da invasão.

Consumada um par de semanas depois, exatamente como tinha sido prevista pelo jornalista nos textos originais, a invasão foi um rotundo fracasso. Num desabafo, algum tempo mais tarde, ao diretor de redação do jornal ? Clifton Daniel, voto vencido na decisão do Times ? Kennedy reconheceu que se a reportagem tivesse saído como fora escrita teria evitado o erro colossal da política externa dos EUA.

Por causa do ceticismo com que costumava tratar a espionagem, em especial à época em que cobria a CIA em Washington, Szulc era alvo da máfia dos espiões, conforme admitiu o Times. Por ter nascido fora dos EUA, era encarado como espião potencial. Mas documentos secretos tornados públicos pelo jornal em 1997 comprovaram ter a própria CIA concluído ser totalmente absurda a suspeita.

"A cultura da agência (de espionagem) era tal que as insinuações em torno dos contatos dele com líderes comunistas e autoridades americanas ricocheteavam pelos escritórios da CIA durante todo o tempo em que trabalhou para o Times. E também depois, ao longo de sua carreira de autor de livros e comentarista de assuntos de política externa", disse o necrológio do jornal.

Trecho de um dossiê da CIA examinado pelo Times: "É importante notar que a atividade de Szulc pode ser explicada por uma combinação de sua personalidade, ambição e das pressões sobre um repórter de investigação do NYT. É um jornalista agressivo, insensível e persistente, com conexões familiares (embaixador Wiley) e capacidade para desenvolver tipos de contatos apropriados para um correspondente bem-sucedido de jornal como o NYT".

O diplomata citado era John Wiley, casado com uma tia dele. Patrocinara sua ida do Brasil para os EUA, como imigrante. Segundo o Times, Szulc era, sim, "agressivo" e "persistente" ? viajava pelo mundo, esbanjava vitalidade e determinação, escrevia artigos importantes e reveladores, e ainda buscava detalhes pitorescos para os textos do Times Talk, a publicação interna da empresa.

Kennedy e a CIA não foram os únicos a censurar Szulc. Mas às vezes ele saía ganhando. Em 1955 enganou os censores após viajar num pequeno avião do Chile à Argentina e relatar a queda de Perón. Em 1959 usou uma das seis línguas que falava, desconhecida dos censores, para contar o fim da ditadura Pérez Jiménez na Venezuela. Em 1968, em Praga, cobriu por quatro meses a invasão soviética ? até ser expulso.

Entre os livros mais recentes de Szulc estão biografias de Fidel Castro (Fidel: A Critical Portrait, 1986) e João Paulo II (Pope John Paul II: The Biography, 1995). Seu retrato crítico de Fidel, a quem teve acesso para escrever o livro, fica longe da rotina. O líder cubano é apresentado, conforme a observação do Times, como um caudilho latino "envolto num manto marxista-leninista de conveniência".

Antes desse livro Szulc escreveu, em 1978, uma análise devastadora sobre o período da política externa americana dominado pela figura sinistra de Henry Kissinger: The Illusion of Peace: Foreign Policy in the Nixon Years. E nos últimos anos ele também publicou ficção (To Kill the Pope, baseado no atentado de 1981 contra o papa) e um ensaio sobre o compositor polonês Frederic Chopin em Paris.

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