Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > SENHOR

O caso do Correio e ocaso de um modelo

Por lgarcia em 20/05/1999 na edição 67



(*)

“De vez em quando, um sujeito formado em jornalismo aparece e vira para mim e diz: ‘Eu me lembro daquele artigo que você escreveu sobre o Spinoza na revista Senhor. Faço um sorriso modesto, encaro as sandálias dele, penso que mundo estranho este em que as pessoas se formam em jornalismo. O sujeito prossegue: ‘Que revista hem!’ Eu vou mais longe: ‘Ainda vou processar a Chauí por uso indevido’. Na verdade nunca escrevi uma única linha sobre Spinoza. Na verdade, tenho a maior dificuldade de me lembrar da revista Senhor. Não guardei nenhuma. Lembro pouquíssimo dela. O que eu me lembro mesmo é que foi meio frustrante e gostoso. Mas isso, como tudo mais, é opinião pessoal. Eu me lembro é do pessoal. Da redação. Restaurantes. A revista Senhor foi assim:

Em janeiro de 1959 eu tinha 23 para 24 anos, era chefe de redação da Norton Publicidade, ganhava 30 contos por mês. Fui checar na carteirinha de trabalho. Tá lá. A revista Senhor não assinou a carteira. É dado. Recapitulando: era chefe de redação, 9 às 5, mais dois frilas excelentes, duas agências. Master e Abaeté, que menores, não tinham condição de pagar um redator tempo integral. Então, na hora do almoço, ou depois do trabalho eu passava lá pegava os dados, fazia o texto das campanhas e faturava 15 milhas em cada uma. Lembro-me da campanha de lançamento de cigarros da Lopes Sá, para a Master. E dos livros da Civilização Brasileira, do querido Ênio Silveira, na Abaeté , onde o diretor de arte, frila também, era o Eugênio Hirsch, simpaticíssimo e que também fazia umas capas péssimas para a Civilização. Mas enfim o que eu queria dizer era o seguinte, 60 contos por mês era uma nota. Pra dar uma idéia: dava para comprar um carro novo por mês. Nada mau. Eu gastava tudo em disco importado e mulheres locais. Dinheiro bem empregado. Só que aos 23 anos todo mundo é idiota. Principalmente eu. Como eu tinha assinatura de revista americana e já lera uma porção de pocket books entrei numa crise existencial. Ou de identidade. Por aí. Foi quando o Paulo Francis, que já era meu amigo desde 1953, me perguntou se eu não queria ser redator de uma revista, tal de Senhor, uma mistura assim de Esquire, New Yorker e Playboy. Quanto pagam? Mal. Na minha cabeça, eram 17 milhas. Ridículo, perto do sessentão. Mas topei, já que era uma besta. Com cara íntegra (vocês não têm idéia do que é minha cara íntegra…) demiti-me da publicidade, a alma gargalhando e berrando, ‘Free at last, thank God All Mighty, free at last!’. Comecei, se não me engano, em março. Preenchendo a vaga deixada pelo redator anterior, Adirson de Barros, demitido depois de um ou dois números apenas, possivelmente por já ser informante do SNI antes mesmo da criação desse simpático órgão informativo. No número de maio eu já estava lá. Isso porque em abril morrera Billie Holiday e, antes, eu já escrevera matéria sobre a pobre da moça. Senhor foi pras bancas com ‘A Hora e a Vez de Billie Holiday’. Não era de todo uma josta. Tratava a cantora como já morta, previa como seria uma enganosa cinebiografia, com Dorothy Dandridge, Belafonte, coisa e tal. Não peguei fama de pé-frio.

Mas a revista? Como era a revista? Era na Travessa do Ouvidor, 22, um andarzão na sede da Editora Delta, empresários responsáveis por enciclopédias como a Larousse além de coleções, feito Nobel, Freud, esses caras. Eu me lembro dos dois irmãos Waissman, Sérgio e Simão. Simpáticos e finos. Possivelmente queriam o prestígio de uma publicação intelectual. Ou então pegar mulher. Não sei. Verdade é que chamaram o Nahum Sirotsky para fazer, ser editor-chefe da revista, e o Nahum que sabe das coisas, fez. Chamando o Francis para editor e o Carlos Scliar para direção de arte, assistido pelo esplêndido Glauco Rodrigues. Luís Lobo ficou com serviços, Jaguar com cartuns. Numa salona, trabalhava o Ivo Barroso para a enciclopédia, mas que traduziu muita coisa boa para a revista. Todas as capas, todas as ilustrações do Scliar eram de primeiríssima qualidade. Os serviços do Luiz Lobo eram ótimos principalmente porque na hora do almoço o que fizemos de pesquisa para dica de restaurante não estava no gibi, saía na Senhor. Me lembro de um restaurante em particular, na travessa dos Barbeiros, o Escondidinho. Nunca comi tão bem em minha vida. O ponto alto da revista, para este criado que vos fala, era o almoço. Oba! Epa! A casa Heim, Dirty Dick’s, o árabe da Senhor dos Passos, um porrilhão deles. O fotógrafo era o Chinês, o Armando Rosário. Formidável o Chinês. Posei muito para ele, para a revista, essa parte de serviços. Ilustrando uma matéria do Marcito Moreira Alves intitulada ‘Os Boas Vidas’. Eu em close com um chapeuzinho-esporte acendendo um cigarro por trás do volante do meu carro. Eu tinha carro, claro. Bonito, Mercury, duas cores, hidramático. Meus pés ilustrando umas meias xadrez, muito sobre o amarelo, no bar do hotel Miramar, aquele do posto Seis. Eu de longe com uma moça ao lado no saguão do Santos Dumont, ela com meu paletó. Era pra ilustrar paletós. A moça eu estava de olho nela, trabalhava no DAC. Foi pretexto. Não deu em nada. Quer dizer, deu – no melhor sentido possível – mas anos depois.

Que mais? Eu escrevi uma matéria sobre o conjunto vocal The Hilo’s. Outra sobre o LP do João Gilberto. Outra que era uma tremenda enganação sobre os Beats and Angry Young Men, que chamei de Os Cansados e os Zangados. Cozinhei tudo de uma porção de coisas de revistas importadas lá de casa ou da redação. Traduzi um conto do Thurber com um erro de redação deste tamanho. Imagina vocês, que, no contículo, ‘As Sete da Noite’, tem no original uma moça ‘lying in the sofá’ e, em português, eu taquei ‘mentindo no sofá’. Era o que eu achava de mulher, meu querido, me veio na natural, sorry. Teve também uma engraçada. Francis me deu um artigo do Sartre para traduzir. Sobre Berlim. Em inglês. Li e fiquei esperando. Aí Francis ou Nahum me cobraram a tradução. Cadê? Eu – olha só que paspalhão! Estava esperando o original em francês. E esta besta foi chefe de redação de agência de publicidade. Well, well.

Divertida , na revista, era uma sessão que o Lobo (‘Lobíferra Cretaturra’, como o chamava Scliar, que ciciava um pouco e arranhava os rr, assim feito a Clarice, de quem eu já vou falar logo, logo) criou, no começo, intitulada ‘Sr. e Cia’. Noticinhas curtas, com molho. Eu fiz algumas que não eram de jogar fora. Por exemplo: ‘Jeff Chandler vai se casar com Esther Williams. Bem feito pros dois’. Coisinhas assim. Pra mim, as ‘Dicas do Pasquim’ estão meio aí. Mas isso é besteira, forget it, deixa pra lá. Eu acertei mesmo foi com Jaguar. Embora, que me lembre nessa fase, não saiu nada. Talvez palpite num ou noutro cartum. Mais tarde é que viramos amigos e irmãos.

A Senhor publicou um esquema de tipo encarte, o ‘Quincas Berro d’Água’ do Jorge Amado. Incríveis os originais dele. Cada erro sensacional de ortografia, gramática, pontuação, tudo. Mas ele ainda era ótimo. No mesmo esquema, ‘O Urso’, do Faulkner, um troço do Tolstói.

Quando tinha tradução literária, muita colaboração do Mário Faustino, amicíssimo de Francis e cobrão conforme se diz nos meios acadêmicos. Francis entrevistou o Martin Luther King. Graham Greene, acho. Carlos Lacerda escreveu sobre o cultivo de rosas (até hoje tenho os originais em papel da Câmara dos Deputados). Rubem Braga fez crítica de arte, Armando Nogueira texto antológico sobre Didi, ‘O Homem que Passa’ (titulão, hem?). Outros colaboradores? Carpeaux, Millôr, Vinícius, Marques Rebêlo, meu pai, minha mãe, Sabino, Antônio Maria, Sérgio Porto, Cony, Callado. Todo mundo que sabia escrever. Gozado. Tinha muita gente que sabia escrever. Lembro de um camarada que escrevia sobre som, hi-fi, por aí, chamado Fânzeres. Fânzeres é um nome sensacional. Fânzeres.

Ah. Clarice. Pois é. Só era conhecida no metiê. Aquele livro com título parecido com coisa da Carson McCullers. ‘Perto – ou distante – do Coração Selvagem’. Morava em Washington, era casada com diplomata. Alguém – quem? – teve a feliz idéia de pedir conto. Chegava tudo por carta. Lembro daquele, ‘A Menor Mulher do Mundo’. Sensacional. Apareciam os envelopes americanos, a gente voava lá. Feito exemplar novo da ‘New Yorker’.

Depois do dia do fechamento da revista, nós nos pintávamos todos e íamos para a praça Mauá bulir com os marinheiros. Mentira. Essa última frase aí, de se pintar e ir pra praça Mauá, é mentira. Eu só queria ver se vocês ainda estavam acordados ou prestando atenção. Olhaí, é o seguinte: a revista vinha num papel muito bom, tinha um visual legal, publicava umas coisas mais do que razoáveis e – ah! ia me esquecendo. Tinha fotografia de mulher meio pelada. De muito bom gosto, claro. Várias edições feitas lá em casa. É. Eu morava em cobertura dando pra praia. Que praia? Copacabana, Leme, claro. Queriam o quê? Ramos? Uma moça que pousou: condessinha. Polonesa, creio. Outra de flor no cabelo, pele ruim.

Daí o Francis me mandou entrevistar o ginecologista Hélio Aguinaga e o rabino Lemmle. Sobre pílula anticoncepcional. Eu não tinha, não tenho o menor jeito para esse troço. Foi um horror. Daí o Francis me mandou escrever um artigo, colado mas não muito, de revista americana, cujo título – como esquecer-te? Era ‘Como Dizer Não à Sua Mulher’. Enganei o quanto pude. Não saía mesmo. Pra vexame meu, Francis afinal sentou e escreveu de enfiada, se me permitem a expressão. Acho que foi na frente de todo mundo. Todo mundo rindo de mim e jogando pedra. Logo depois, o Nahum me chamou e me demitiu por incompetência. Quer dizer, Nahum é bonzinho demais, nunca faria assim. Deve ter dito que eu era formidável mas que isso e aquilo outro e coisa e tal. Me abraçou, me beijou na boca, capaz até de ter chorado. Nahum é maravilhoso , um anjo. Vive me mandando e-mail de Tel Aviv cheio de anedota em inglês. Não sei porque. Mas digo que achei ótimo e trocamos lembranças. Vive dizendo que foi quem me ‘descobriu’. Capaz. Verdade é que o Newton Rodrigues veio me substituir dando finalmente um cunho de profissionalismo à redação da prestigiosa revista. Veio também o Ivan Meira, do mundo da publicidade, passe caro, para tornar a publicação mais viável do ponto de vista publicitário. Foram para Copacabana. Logo ali, saída do Túnel Velho. Mudou o diretor. Veio Odylo Costa Filho, especialista número um em velório de imprensa. Reynaldo Jardim, especialista número dois. O Jaguar passou a fazer um encarte humorístico na revista, ‘O Jacaré’. Estreitamos ainda mais a amizade, houve o início de colaboração.

Eu voltei para a publicidade, fiquei sem fazer nada, voltei para a imprensa. Resolvi – sempre por motivos pessoais – fazer as piores besteiras do mundo. Modestamente, peguei um recorde sul-americano no gênero, anos 62 – 68. Tudo bem. É assim mesmo. Só não entendo porque vocês brasileiros perdem tempo com essas bobagens. Vão pra praia, gente. Jogar futebol. Tocar violão debaixo das estrelas, while beautiful morenas do the samba, chic-a-chic-a-boom-chi. Esse negócio de jornalismo cultural, não sei não, hem gente?

(*) Ivan Lessa, copyright Gazeta Mercantil, 7-9/5/99.

 

 

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