Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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O cidadão tem a força

Por lgarcia em 20/08/1999 na edição 73

 

Fabiano Golgo, de Praga

Os dias de glasnost (abertura ou transparência) já se foram há muito. No início imperou uma euforia sadia, com todo mundo falando por horas a fio todo tipo de teoria sobre a história antes proibida. Diz-se, no país, que a Rússia tem um “passado imprevisível”. Naqueles tempos de franqueza, um jornal chegava a vender 7 milhões de cópias diárias, tamanha a fome da população por notícias críveis, depois da longa dieta imposta.

Contam os russos que a euforia acabou em 1993, logo após o conflito com a Duma, quando Yeltsin mandou os tanques abrirem fogo contra a câmara baixa do parlamento, matando políticos e destruindo parte do histórico prédio moscovita. Também acabaram mortos ou feridos 72 jornalistas – em ataques perpetrados pelas milícias que apoiavam o presidente: 90% das queixas de violação dos direitos da imprensa foram contra os partidários de Yeltsin.

O Kremlin é patrocinado e efetivamente administrado por oito megaempresas – das antigas estatais, hoje privatizadas, que exploram as riquezas naturais da Rússia, às importadoras que abastecem os shopping centers e as butiques, símbolo máximo dos novos ricos russos. A camiseta de grife internacional veste hoje os antigos apparatchiks. Status na nova economia de mercado é tudo para o moscovita rico.

Fantoches ideológicos

Com a mídia impressa diária atrelada à necessidade de sobreviver ao atual desinteresse generalizado por jornais, os poucos donos de montanhas de rublos (literalmente, considerando-se o baixo valor da moeda) fazem desses veículos seus fantoches ideológicos. E como eles são os mesmos que estão por trás do governo central, obviamente o celebram por meio de seus brinquedinhos da notícia.

O texto nesses jornais é tão obviamente faccioso que gerou larga rejeição pelo público, que desde sempre está acostumado a não levar a sério a imprensa. Dizia-se, nos tempos de Brejnev, que havia notícia para o jornal e notícia para a cozinha. E como o nome do jornal oficial era Pravda, que significa verdade, então se dizia também que havia um Pravda para a cozinha e outro Pravda para o Pravda… Desnecessário explicar.

A mídia russa é centrada em Moscou. Aliás, o país gira em torno da capital. Mais ou menos como o Rio de Janeiro nos tempos de capital federal. Há muitos títulos de diários, mas os principais são Nezavisimaya Gazeta, de Boris Berezovsky – que acaba de comprar também o Kommersant –, peixe grande do governo, que escalou como editor-chefe um conhecido aliado do partido de Yeltsin, Vitaly Tretyakov; Novaya Gazeta e Obshchaya Gazeta, de propriedade de dois conglomerados de empresários, também ligados ao Kremlin; Moskovsky Komsomolets, com circulação de 1 milhão de exemplares, sob o olhar direto do prefeito Yuri Lujkov.

Ainda há o afamado Argumenty i Fakty, que já teve seus dias inteligentes e desengajados. Outro de destaque é Izvestia. Mas houve um racha no jornal, que desaguou em um novo veículo, Novye Izvestia. Não se pode dizer que algum deles apresente um trabalho imparcial, porém.

Governo, o grande pai

Um fato curioso, mas revelador, é que os jornais russos não dependem de anúncios comerciais para sua sobrevivência: são sustentados pelos grupos aos quais pertencem. Esses grupos usam o dinheiro de suas fontes de renda primárias e garantem seus jornais. Outro ponto que deve ser considerado é que as impressoras são do governo federal. Os diários têm que ser impressos nas subsidiadas casas de impressão estatais. Para completar, com exceção de dois títulos, todos os outros são distribuídos por caminhões do governo federal.

No passado, o jornal Financial Times fez um acordo para a geração de matérias especiais para o Izvestia, mas a coisa não durou. Também a revista Newsweek, que tinha lançado um semanário local chamado Itogi, acabou vendendo a maior parte de suas ações, e agora meramente libera seus artigos para tradução. The New York Times tentou um laço editorial com o Moscovsky Novosti, mas fez as malas depois de seis meses.

Outro fato curioso, mas não surpreendente em termos de Rússia, é que o órgão destinado à regulação da atuação da mídia, o Sudebnaya Palata, tem seus membros apontados pelo presidente… Deveras democrático e confiável…

Mais: como em quase todos os países do antigo bloco comunista, grupos americanos fundaram um jornal em inglês, o Moscow Times. Embora às vezes assumisse a face de periódico para expats (imigrantes temporários), na verdade costumava apresentar magnífico trabalho investigativo e a tradicional imparcialidade americana, com seus textos insípidos mas cheios de data confiável.

Digo “costumava” porque surgiu um probleminha com os vistos de trabalho e permanência de boa parte do staff, que tive que sair do país, o que acabou minando o desempenho do jornal. Nota-se hoje um certo desânimo nos que ficaram, e inexperiência nos novos contratados – desta vez, jovens aventureiros em lugar dos repórteres high profile de antes.

Como o bom humor russo gera inúmeras anedotas, aí vai mais uma: os jornais não publicam erratas, pois se acredita que isso suje a reputação do veículo.

TV adere ao show

Especialmente entre 1987 e 1991, as emissoras de TV eram abarrotadas de programas de bate-papo, discutindo os anos de medo. Depois, com a poeira baixa, a economia em frangalhos e o inverno de sempre com a falta de comida de sempre, filmes hollywoodianos e game shows substituíram a auto-análise eletrônica.

Os emissoras nacionais de grande porte são ORT, RTR, NTV, CentrTV e TV 6. A ORT é encabeçada pela filha de Yeltsin, Tatyana Dyachenko [a chefe da afamiglia do Kremlin, o grupo de empresários “mafiosos” que enriqueceu da noite para o dia com a privatização das gigantescas estatais soviéticas], mais os amigos Serguei Yastrjembsky e Vladimir Berezovsky.

A RTR é dirigida por um amigo do presidente, Nikolai Svanidze. Ele deu um exemplo de sua imparcialidade quando demitiu a âncora Svetlana Sorokina por ter feito um comentário desfavorável à então em voga idéia de imprimir mais rubros para pagar aposentados e mineiros. A NTV é a campeã de audiência. Pertence a Vladimir Gusinsky, o Roberto Marinho ou Silvio Berlusconi russo, pessoalmente ligado ao governo e cheio de intenções políticas. Há ainda a CentrTV – comandada por Lujkov, o prefeito de Moscou!

A linha editorial das emissoras de TV é claramente pró-governo, fazendo olhos grossos à corrupção generalizada e à deterioração fatal da economia.

Profissão-perigo

Na Rússia, ser jornalista com alguma aspiração de independência é um risco de morte. Foram assassinados 79 somente em 1998. Vladimir Listyev, um pioneiro repórter investigativo que fez sucesso no início da abertura de Gorbachev, virou presidente da TV estatal, mas acabou como tantas mentes livres do país: assassinado, em caso nunca esclarecido (quase regra geral nesses morticínios politicamente motivados).

Atualmente, qualquer revelação de impacto é plantada por sobreviventes da KGB ou partidos políticos e lideranças empresariais engajadas. São esses grupos os responsáveis pelas melhores matérias investigativas dos últimos tempos, mas sempre impulsionadas por interesses ocultos contra alguém (são reportagens-denúncia). Não são invenções, mas informações cuidadosamente vazadas.

Em 1996, às vésperas das eleições presidenciais, Yevgeny Kiselyev, o editor de um dos maiores jornais russos, publicou: “A partir de agora, vamos deixar de ser imparciais”. O medo de uma vitória dos comunistas levou a grande maioria dos veículos a quebrarem o vetor máximo do jornalismo.

Aleksei Simonov, presidente de um órgão chamado Defensores da Glasnost, uma espécie de Observatório da Imprensa russo, declarou em março à Rádio Europa Livre, baseada em Praga (por ironia, no prédio que abrigava o parlamento-marionete local) que perdera as esperanças de um futuro imediato melhor para os jornais russos, uma vez que o colapso total da economia de seu país assegura a falta de possíveis fundos provenientes de publicidade. Isso, segundo ele, significa uma entrega total à dependência do governo.

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