Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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O clamor do sexo

Por lgarcia em 14/02/2001 na edição 108

QUALIDADE NA TV


SITCOMS

Um estudo publicado pela Fundação Kaiser Family revelou que o número de programas no horário nobre com "conteúdo sexual" está crescendo – de 56% há três anos para 68% em 1999/2000. As chamadas "sitcoms" – ou comédias de situação – são grande fonte dessa atividade. Oitenta e quatro por cento incluem alguma espécie de fala ou ato sexual. Três quartos dos programas de horário nobre apresentam conteúdo sexual, em comparação aos dois terços de três anos atrás.

Segundo reportagem de Sharon Waxman [The Washington Post, 7/2/01], há três anos, apenas 7% dos shows descreveram ou insinuaram fortemente relações sexuais; no ano passado, 10% dos shows o fizeram. O estudo utilizou uma definição ampla de atividade sexual, que engloba de beijos a descrições e exibições do ato.

No entanto, Victoria Rideout, vice-presidente da Fundação Kaiser, disse que mensagens de sexo seguro estão mais freqüentes em programas para adolescentes, aparecendo em 17% dos shows que exibem atividade sexual de jovens. O estudo observou mais de 1.000 programas em 10 emissoras abertas e a cabo, transmitidos entre outubro de 1999 e março de 2000. E concluiu que não apenas há mais sexo exposto pela TV, mas também que as cenas estão mais detalhadas e a faixa etária dos personagens praticantes menor.

 

SEXO NA TV

Carlos Arroyo Junior

Sexo, como apresentado na TV e em outras mídias, hoje tem uma das duas características a seguir. (Ou então, um pouco de ambas):

* Caricatura

* Ausência

O sexo apresentado de forma caricatural tem por objetivo ridicularizá-lo. A ridicularização visa acabar com o caráter individual do sexo e torná-lo objeto de consumo de todas as pessoas, mesmo aquelas para quem o sexo não representa o fator mais importante de suas vidas, como crianças e idosos. Assim, o sexo, que era um assunto abordado vez ou outra por parcelas de indivíduos da sociedade, passa a ser um assunto consumido por todos, independentemente de idade e necessidades.

O sexo também é mostrado na forma de provocar ausência. O assunto sexo não é nenhuma novidade na vida humana, e muitos grandes artistas tomaram-no como tema. Entretanto, numa obra de arte séria o desejo sexual quase sempre é sublimado. Na televisão, o sexo nunca é apresentado de forma a eliminar desejos. Muito pelo contrário, mostra de maneira escancarada situações de caráter sexual que provocam mais desejo. O que se procura com isto é intuir no indivíduo o sentimento da falta de um bem, que é o sexo transformado em produto.

Longe da revoluç&aatilde;o sexual

A falta deste bem provoca a vontade de aquisição, que se caracteriza pela transação comercial do agora produto sexo, com pagamento em dinheiro, quando o indivíduo compra um bem que é anunciado durante os programas ou entre os intervalos destes. A abordagem feita pela TV sobre o sexo não elimina o desejo, ao contrário, atiça-o ainda mais. É a lógica capitalista: procurar sempre aumentar o consumo a fim de elevar os lucros de quem vende o produto.

As situações nas novelas que desembocam em cenas de alcova são cada vez mais artificiais, não há vínculo com a história apresentada e nenhuma mensagem ou intenção fora a de mostrar duas pessoas em prática de sexo. As cenas são sempre as mesmas, o que evidencia mais o sexo transformado em bem de consumo. Tal como ocorre na linha de produção da fábrica, as diferenças entre os itens produzidos deve ser mínima.

Na sociedade brasileira houve um processo de liberação de costumes e quebra de tabus sexuais. Porém, o que se vê atualmente na televisão e na mídia em geral não é uma continuidade deste fenômeno. É muito mais um processo de transformação em mercadoria de uma característica humana, distorcendo-a com o intuito de obter lucro.

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