Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > COBRAS CRIADAS

O Cruzeiro e o David que era Golias

Por lgarcia em 19/12/2001 na edição 152

COBRAS CRIADAS

Ibsen Pinheiro (*)

Não posso dizer que conheci David Nasser. Na Redação que freqüentávamos ele era um astro, ainda que em declínio, e eu um dos Odilo?s boys (como depreciativamente nos chamavam os veteranos), recém-chegados à Rua do Livramento, naqueles verdes anos 60, imbuídos da missão de salvar da sua gloriosa ruína a revista O Cruzeiro, e que identificávamos o inimigo a derrotar justamente no velho repórter e seus companheiros de geração. Se trocamos duas palavras, certamente fiquei credor na permuta de um gaguejado bom-dia por um resmungo, nem sequer mal-educado, provavelmente distraído ou desinteressado. Posso dizer que conheço melhor David Nasser agora, depois de ter lido Cobras Criadas, de Luiz Maklouf Carvalho [Editora Senac, 599 pp., São Paulo, 2001], que, não sendo uma biografia, é mais do que isso: um perfil, inclusive psicológico, feito a poder de pesquisa e de fatos.

Em tempo: não salvamos nada e logo levantamos acampamento todos, os mais e os menos votados, do comandante Odilo Costa, filho, ao copidesque raso que eu era, passando por muita gente boa ? Wilson Figueiredo, Sérgio Augusto, Joaquim Campelo, Lago Burnet, J. Kosinski, Jairo Martins Bastos, Antônio Nogueira Machado e outros, recrutados por Odilo para a cruzada da reforma editorial da velha revista.

É pouco relevante que o projeto tenha acabado justamente com uma pedrada de David, no caso um Golias ainda poderoso nos Associados. Ao detonar a tentativa, dentro da própria revista, em suas duas páginas intocáveis ? episódio bem relatado por Maklouf ? Nasser expressava mais do que um desgosto pessoal ou quizílias antigas entre ele e Odilo, ou a própria resistência do grupo de seus amigos e contemporâneos. Com a perspectiva do tempo, percebe-se hoje que havia mais em confronto do que a simples modernização do texto ou o avanço da concepção gráfica de Ziraldo. Junto com um estilo de jornalismo que estava nascendo, era um estilo de empresa jornalística que teimava em não morrer, e persiste em parte. Sem o proclamar , é isso que Cobras Criadas nos ajuda a compreender.

O livro sabiamente evita meter a mão na cumbuca e não responde à pergunta (que não quer calar) sobre quem são os pais da revolução do texto na imprensa brasileira, iniciada em fins dos 50 e completada nos anos 60. Há citações para muitos, de Reinaldo Jardim, no caderno dominical do Jornal do Brasil, a uma contemporânea presença de Pompeu de Souza no Diário Carioca, como também há votos posteriores para Janio de Freitas e fortes sinais de sistematização no Jornal do Brasil comandado por Odilo e consolidação na mão de Alberto Dines. Há também quem valorize a ação de empresários de comunicação, como Danton Jobim, Nascimento Britto e a própria Condessa Pereira Carneiro. Maklouf não decide, também não me atrevo. Como jovem pingente nesse bonde da história, tendo trabalhado com Pompeu no Diário Carioca, com Odilo no Cruzeiro e Dines no Jornal do Brasil, já me contento em ter sido espectador privilegiado, ou companheiro de viagem, na melhor hipótese.

Mas o que o livro nos oferece de melhor, com clareza e ilustração, é um quadro cru e chocante das relações da imprensa (aí incluídos empresários e jornalistas) com o poder, o político e o financeiro, no período que corresponde ao fastígio de O Cruzeiro e à expansão dos Diários Associados. Os métodos de Chateaubriand e Nasser nem sequer espantavam. Eram, ao contrário, exemplares. Intimavam-se empresas e governos a pagar (por dentro ou por fora) pelo que ia para as páginas ou para o ar, enquanto as supostas vítimas sucumbiam gostosamente ao método, que, sendo de mão dupla, subordinava os veículos aos interesses empresariais ou políticos dominantes, avassalando a ambos em singular contubérnio.

Hipocrisia, vício e virtude

Tráfico de influência tinha o apelido de prestígio. Mais do que a uma incipiente ética jornalística, violava-se o próprio Código Penal, com o não recolhimento de impostos e contribuições previdenciárias (sonegação e apropriação indébita constituíam assumida forma de capitalização) enquanto aos jornalistas o patrão autorizava a sua parcela de comprometimento.

Pode-se dizer, com alguma amargura, que essas relações incestuosas permanecem, o que é verdade, mas o modo como elas se exercem indubitavelmente mudou. E mudou para melhor, fazendo-o por meio de um mecanismo inesperado, a que o tempo acabou por atribuir manifesta clareza: a mudança formal desencadeou uma não planejada mudança material. Concebida e introduzida pelas redações, a modernização do texto afetou o próprio conteúdo dos jornais e, por via reflexa, alterou o comportamento das empresas, na exata medida da participação dos profissionais na formulação da linha editorial dos veículos.

Quando digo linha editorial não falo dos tijolões que adotam o nome, mas da opção profissional pelo texto enxuto e despojado que acabou lavrando a sentença de morte das matérias pagas com aparência de notícia, abrindo caminho para que se questionasse a promiscuidade de jornalistas com as comissões da publicidade disfarçada, ou a prática tão comum do emprego público na própria fonte da notícia. Tudo isso começava a mudar pela aparente superficialidade do lead, da cuidada diagramação, da pirâmide invertida do texto, da paginação limpa e vertical, do corte criativo da foto, do texto-legenda, da chamada de capa. Os jornalistas começavam a mandar nos jornais.

Não se andou tudo, mas andou-se muito. Lembro meu espanto ao ficar sabendo que na imprensa americana a interferência do setor comercial no editorial causa demissões… no comercial! Por aqui, gerações de jornalistas se criaram recebendo ordem para baixar as famosas "matérias 500", cuja indigitada importância, decisiva na inserção e no destaque, vinha definida pela alta direção, e não pela significação jornalística, mas pelo interesse empresarial. Nem sequer dissimulado.

Ninguém é ingênuo de imaginar que os empresários de comunicação não fazem mais transações e que seus bons negócios não se beneficiem da orientação de seus veículos, nem influam nela. Mas quando alguém disse, com boa dose de cinismo, que a hipocrisia é o preço que o vício paga à virtude, não vamos achar que não vale a pena. Se o dono do jornal precisa disfarçar, se não pode simplesmente encomendar a manchete, e não mais manda o jornalista "complementar" o salário, o leitor já está ganhando, especialmente quando se sentir dispensado de ler os tijolões. E se os profissionais têm voz mais forte e freqüente nas decisões editoriais, e se além disso instalar-se o Conselho de Comunicação Social, corremos o sério perigo de melhorar.

(*) Jornalista

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