Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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"O dado e a informação", copyright Folha de S.Paulo, 29/12/02

Por Bernardo Ajzenberg em 01/01/2003 na edição 205

FOLHA DE S.PAULO

"O dado e a informação", copyright Folha de S.Paulo, 29/12/02

"A manchete da Folha na última segunda-feira foi: ?Doações às campanhas sobem 110% em 4 anos?. A reportagem, na página interna, trazia como título: ?Doação para campanha do PT cresce 673%?.

No conjunto, dizia o texto, todas as campanhas políticas reuniram neste ano, ao menos oficialmente, R$ 580 milhões, ante R$ 276 milhões em 1998 -daí os 110% da manchete.

Só o PSDB, por exemplo, arrecadou R$ 105,8 milhões em 1998 e R$ 147,8 milhões agora -quer dizer, uma subida de 40%.

São números fortes, expressivos, mas cabe refletir sobre seu significado e sobre o tratamento jornalístico dedicado a eles.

Ocorre que todas essas porcentagens e esses aumentos não levam em conta a inflação acumulada ao longo dos últimos quatro anos. São, portanto, aumentos que os economistas chamam de nominais, e não reais.

O texto da reportagem deixa isso claro. O que vale a pena questionar, aqui, é, exatamente, por que o jornal, em vez de apresentar esses dados apenas da forma direta e crua como fez, não incluiu em seu raciocínio cálculos que levassem em conta também aquela inflação.

Isso permitiria à reportagem incorporar outros ângulos -relevantes e até surpreendentes- à sua apuração jornalística original e oferecer ao leitor, além de uma dimensão mais exata do significado dos números, a possibilidade de uma interpretação e de uma reflexão mais amplas.

Exemplos

Descontando-se naqueles números a inflação do período (76%, segundo a reportagem), poder-se-ia constatar, por exemplo, que o aumento nominal de 110% do conjunto das campanhas representa, a rigor, uma subida real de apenas 19% -o que não deixa de indicar possível reflexo da situação econômica restritiva que o país atravessa.

Que os 40% de aumento nominal das doações ao PSDB significam, na verdade, uma redução real de 20,6% -algo que poderia expressar, no cofre da campanha, certo ceticismo quanto às possibilidades de vitória da candidatura governista. Essa interpretação, aliás, poderia ser aplicada também ao PMDB e ao PFL, que formaram durante a maior parte da ?era FHC? a sua base de apoio.

Mais: que a única das ?grandes? legendas a ter obtido aumento real foi a do PT (embora sua arrecadação tenha crescido, em termos reais, 339%, ante os 673% nominais) -o que quer dizer, em síntese, que os doadores fizeram, ao menos durante a corrida, uma ?aposta certa?.

Veja no quadro acima uma tabela que montei comparando os aumentos reais e os nominais no caso dos principais partidos e do total das campanhas.

Essencial

A Sucursal de Brasília, responsável pela reportagem, argumenta que ?custo de campanha política não é um preço comum da economia e está longe de seguir uma indexação, ainda que informal?.

?A valer o argumento do ombudsman?, avalia a Sucursal, ?um anúncio do reajuste do preço dos combustíveis também deveria vir descontando a inflação. O que vale para o consumidor é o aumento nominal, que pesa no bolso?.

Concordo com o primeiro ponto. Mesmo assim, sem querer igualar doação de campanha a combustível, levo em conta, em meu raciocínio, que a inflação, sendo um elemento essencial da vida econômica, atua decisivamente tanto no caixa dos eventuais doadores como nos custos de uma campanha política.

Talvez o impacto do título e da manchete diminuísse com a aplicação do sugerido nesta coluna (19% de aumento, afinal, impressionam bem menos do que 110% de aumento).

Mas exibir ao leitor a diferença entre aumento real e aumento nominal, numa reportagem como essa, seria propiciar-lhe um jornalismo mais elaborado.

Seria levar em conta, na prática, a idéia de que existe uma importante diferença entre, de um lado, o dado ?puro? (das estatísticas, dos computadores) e, do outro, a informação (dado enriquecido, após sua apuração, pelo trabalho crítico do jornalista).

Água na boca

Há boas e instigantes reportagens que, por um pequeno lapso, acabam deixando certos leitores irritadiços.

Isso aconteceu com alguns que contataram o ombudsman a propósito da matéria que, na edição de domingo passado, revelou a existência, recente, do Caminho da Fé -uma espécie de versão brasileira do célebre Caminho de Santiago de Compostela (Espanha).

Todos eles elogiaram o jornal por sua publicação, mas encaminharam a mesma queixa: não há, na reportagem, nenhuma indicação a respeito de como fazer (e se é possível entrar em) contato com os organizadores da nova trilha.

O editor de Cotidiano, Nilson de Oliveira, discorda de que tenha havido a lacuna. Ele entende que o jornal deu aos leitores o essencial para se orientarem.

?Está ali o nome de todas as cidades que compõem a rota, por exemplo?, diz o jornalista, acrescentando que não se obteve autorização para publicar os telefones do organizador do Caminho.

Tal como os leitores que me procuraram, não penso que divulgar as cidades tenha bastado.

Na verdade, em casos assim, a ausência de qualquer orientação explícita (nem que fosse mostrando haver dificuldade para contatar os organizadores) deixa a reportagem -por melhor que seja- incompleta; produz no leitor a sensação de água na boca, sem dicas de como matar a fome.

Combinação infeliz

A reportagem da capa do encarte Acontece (edição SP) do último dia 15 gerou um caso curioso.

O título era ?Por quem os sinos dobram?, expressão referente a morte e luto. O texto e as tabelas, no entanto, tratavam dos festejos de Natal em São Paulo.

Quem chamou a atenção para o paradoxo foi a professora universitária aposentada Maria Edith Garboggini di Giorgi, de São Paulo, em um e-mail ao ombudsman.

Eis alguns trechos:

?O dobre dos sinos, cadência lenta das badaladas, significa, na liturgia cristã, o anúncio de morte e luto. A expressão entrou na literatura com um poema de John Donne (…) Hemingway tirou desse poema o título de um de seus livros (…) para expressar a morte e o luto na Espanha. Assim, sendo expressão consagrada, o dobre dos sinos não pode, absolutamente, ser usada para designar festejos e alegrias?.

Nada a acrescentar."

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