Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO TIM LOPES

O de sempre, como sempre

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

CASO TIM LOPES

Sylvia Moretzsohn (*)

O assassinato do repórter Tim Lopes foi desses casos trágicos capazes de subitamente pôr em xeque alguns dos fundamentos que orientam a atuação da grande imprensa brasileira: de um lado, os limites e os métodos da profissão, envolvendo especialmente o uso da câmera oculta, de modo a apontar a mistificação que esta mesma imprensa promove em torno de si própria como defensora ? e, no limite, até mesmo a verdadeira expressão ? dos valores e direitos da cidadania; de outro lado, o tratamento comumente dispensado às pautas voltadas para o que se poderia chamar genericamente de “marginalidade social”, com a reiteração dos estereótipos sobre “bandidos” e “cidadãos de bem”.

Não foi o que se viu: entre jornalistas, à parte raríssimas iniciativas de questionamento, o “caso Tim” provocou, além das mais que justificadas manifestações emocionadas de revolta, uma esperada reação de cunho corporativo, centrada principalmente num conflituoso debate sobre a segurança no exercício da profissão, realizado em seminários e publicações eletrônicas especializadas, com não raras acusações de negligência e autoritarismo à Rede Globo, onde o repórter trabalhava.

A julgar pelo noticiário a respeito do livro que Percival de Souza acaba de lançar, teremos, seis meses depois, o de sempre: a reiteração da oposição entre “bandidos” e “cidadãos de bem” ou entre “sociedade” e “crime” (no caso, a “narcoditadura”), a ênfase na aura mitológica do repórter-mártir que age em nome dos oprimidos, a valorização do papel da imprensa como substituta de um Estado negligente, seja porque deixa bandidos à solta, seja porque não garante os direitos elementares das populações marginalizadas.

Indignação e reflexão

E, porque temos o de sempre, ficamos como sempre: girando em torno do mesmo círculo vicioso que alimenta o preconceito, o pânico social e o apelo a políticas repressivas capazes apenas de agravar as tensões que marcam nosso cotidiano. Elias Maluco estava no lugar errado porque deveria estar preso? Certamente, mas então não haveria motivo para o espanto da apresentadora do RJ TV ao relatar recentemente que, tanto tempo depois da prisão do traficante e de seus cúmplices, a situação na Vila Cruzeiro continua a mesma, inclusive em relação ao uso do “microondas”. Ah, Elias Maluco é apenas um exemplo, pois o que se quer dizer é que todos os bandidos soltos estão no lugar errado, pois deveriam estar na cadeia? Certamente, mas isto põe inevitavelmente a grave questão a respeito de quem, afinal de contas, deve ser considerado bandido. Dependendo da resposta, podemos chegar à conclusão do velho samba: se gritar “pega ladrão”…

Mas a resposta desejada é provavelmente outra, muito mais velha que o samba, e está implícita numa frase do artigo que Affonso Romano de Sant?anna, autor da orelha do livro de Percival [Narcoditadura ? O caso Tim Lopes, crime organizado e jornalismo investigativo no Brasil, Labortexto Editorial, São Paulo, 2002] republica agora: “Você, advogado, que defende traficantes, que faz de tudo para tirá-los de trás das grades, você matou Tim Lopes”. Uma singela frase que põe por terra um dos fundamentos do Estado de Direito: o direito de todos ao devido processo legal, o que pressupõe o direito à ampla defesa. Uma singela frase que insinua a existência de duas classes de pessoas: os cidadãos e os bandidos. Ou, mais propriamente, a existência de humanos e não-humanos ? estes, por definição, excluídos de qualquer direito.

Por mais indignação que nos provoque a descrição dos detalhes do assassinato do jornalista ? e embora nunca seja demais lembrar que não se trata da reconstituição do fato, mas da reconstituição do discurso dos policiais com quem o autor conversou para compor sua narrativa ?, seria oportuno procurar refletir sobre o que este caso pode informar a respeito do papel da mídia e de seus métodos. E tal reflexão não pode ficar restrita ao âmbito da universidade, sob pena de continuarmos, como sempre, a produzir o jornalismo de sempre.

(*) Professora de Jornalismo, autora de “O caso Tim Lopes: o mito da mídia cidadã”, in Discursos Sediciosos ? crime, direito e sociedade, n? 12. Rio de Janeiro, Revan/ICC, 2? semestre de 2002, p. 269-294 (no prelo)

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