Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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"O despertar de uma Nação", copyright Jornal do Brasil, 7/05/01

Por Teodomiro Braga em 09/05/2001 na edição 120

ASPAS

CRISE DO PAINEL
Teodomiro Braga

"O despertar de uma Nação", copyright Jornal do Brasil, 7/05/01

"O velho leão lambeu as feridas, esqueceu o orgulho e a prepotência e mandou às favas as propostas mirabolantes para vencer a grande batalha que trava no Congresso. Em meio ao massacre que vem sofrendo, o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) reviu nos últimos dias a estratégia de sua luta pela sobrevivência política, optando pelo método tradicional de fazer política para tentar impedir a derrota que a cada dia parece mais provável.

Um interlocutor a quem ACM pediu ajuda descreveu a fala do senador como ?decididamente sedutora?. ?Era o Toninho Ternura?, resumiu. A partir desta semana, o senador pretende disparar telefonemas emotivos a jornalistas, autoridades e parlamentares, buscando apoio à tese de que não cometeu um delito tão grave e que a cassação é um exagero para quem tem uma vasta folha de serviços prestados ao país.

ACM rejeitou propostas para recorrer à novas armas, como a contratação de estruturas publicitárias e de consultores políticos. Ele retomou as relações com o jornalista Fernando César Mesquita, seu antigo assessor. Os comerciais de televisão em sua defesa, programados para esta semana, fazem parte da ofensiva preparada por velhos aliados, incluindo o publicitário baiano Fernando Barros.

O senador quer convencer a opinião pública nacional de que é diferente do senador ex-tucano José Roberto Arruda, de que não está envolvido em corrupção e que por isso merece tratamento menos duro. ACM sabe que está diante da pior das muitas batalhas que já enfrentou nas últimas décadas, principalmente porque não dispõe dos importantes apoios com que contava nos meios de comunicação.

Foi sintomática a declaração do jornalista Ruy Mesquita, um dos donos do jornal O Estado de São Paulo, revelando a cruel avaliação de Fernando Henrique de que que só Regina Borges não mentiu na acareação de sexta-feira. Defensor ardoroso de ACM, no passado, o Estadão vem manifestando, nos seus influentes editoriais, a posição de que ACM e Arruda são mentirosos confessos, transgrediram o decoro parlamentar ?no mais alto grau? e devem perder os mandados ?que deixaram de honrar?.

Também chama a atenção a impiedosa cobertura jornalística que vem sendo dado ao caso pelas empresas do grupo Globo, nas quais ACM, durante anos, era tratado com uma deferência que fazia jus à sua profunda amizade com o patriarca do conglomerado, Roberto Marinho. No Palácio do Planalto, chegou a informação de que ACM telefonou, no início da semana passada, a dois dos irmãos Marinho para reclamar da cobertura da TV Globo.

A queixa não surtiu o menor efeito, como constatou o próprio ACM nos dias seguintes. Ele continuou sendo ridicularizado nas charges do principal jornal do grupo e provocou gargalhadas de milhões de brasileiros na pele de Antônio Carlos Fraudalhões, um político chegado às fraudes, personagem do programa de humor Casseta & Planeta.

Na novela das oito da Globo, ganhou destaque o papel de um senador baiano que encarna um político do mal, aquele que a população quer ver longe do Congresso. Na CBN, ACM e Arruda são vilões na devastadora cobertura feita pela rádio de notícias, também do grupo Globo, sobre o escândalo da violação do painel do Senado. A emissora criou até uma musiquinha para chamar a atenção para o escândalo.

Na verdade, não tem nada de excepcional ou fora do padrão a forma com que o Estadão e o grupo Globo vêm tratando a crise provocada pela violação do painel do Senado. Suas coberturas sobre o caso estão em sintonia com a indignação da opinião pública com o crime cometido a mando dos ilustres senadores. Não há como minimizar: foi um crime de estupro, cometido contra o que há de mais sagrado num parlamento, que é o voto. Para crimes hediondos, não há complacência: pena máxima.

Faz parte da nova estratégia de ACM para reverter esse quadro amplamente desfavorável recorrer a artifícios que permitam arrastar por semanas, talvez meses, o processo aberto pela Comissão de Ética do Senado. Imagina que o tempo possa favorecer os réus, de forma que o caso venha a ser julgado quando tiver passado esse grande clamor da população por punição exemplar aos culpados.

O envolvimento de um tubarão da política, o emocionante depoimento da ex-diretora do Prodasen, Regina Célia Peres Borges, e os incríveis juramentos falsos de um ex-líder do governo: esses foram alguns dos ingredientes que contribuíram para tornar popular um caso que por si só já representava um escândalo sem precedentes na política brasileira e talvez mundial. Não há notícia de coisa igual nem no Peru de Fujimori, onde ocorreram esculhambações de quase toda natureza.

A desilusão de grande parte da população com a situação atual e o avanço da oposição no Congresso, aproveitando a desarticulação da aliança governista, são componentes fundamentais do cenário em que o escândalo do Senado encontrou campo fértil para prosperar e ganhar a dimensão atual de assunto número um do país.

A monumental trapalhada de ACM & Arruda criou um desses momentos mágicos, que acontecem vez por outra: despertou a Nação, revigorou a vontade da população de participar. Fenômenos como este não se barram com mudança de estratégia ou comerciais de televisão. Estas ondas de civilismo, como se viu nas campanhas pelas Diretas e pela derrubada de Collor, costumam durar longo tempo.

É aí que mora o perigo para o Palácio do Planalto. Num ambiente deste, de comoção nacional, a criação da CPI da Corrupção, pretendida pela oposição, pode ser politicamente ruinosa para os atuais donos do poder. Instalada agora, a CPI certamente contribuirá para que esta onda de indignação popular se prolongue e vá bem longe – até 2002, o ano das eleições presidenciais."

Vera Magalhães

"Saturnino identifica ?caça às bruxas? e adia relatório", copyright Folha de S. Paulo, 5/05/01

"O senador Saturnino Braga (PSB-RJ) admitiu ontem que estava inclinado a pedir a cassação dos senadores Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e José Roberto Arruda (sem partido-DF), mas decidiu pedir mais prazo para apresentar seu relatório por entender que há um ?clima de caça às bruxas? no país.

Esse não é o primeiro recuo de Saturnino, que, no início das investigações, antes da divulgação do laudo da Unicamp sobre a violação do painel do Senado, chegou a dizer que considerava o assunto ?esgotado?. O adiamento beneficiaria, segundo senadores, os colegas que estão com seus mandatos sob ameaça.

Relator do processo sobre a violação do painel, Saturnino ainda não marcou nova data para entregar o parecer, o que estava inicialmente previsto para o dia 10.

A decisão de Saturnino surpreendeu os demais membros do conselho, que esperavam concluir na próxima semana a fase de investigações, votando o relatório. Agora, aumenta a possibilidade de o desfecho do processo ficar para depois do recesso de julho, o que, segundo a oposição, beneficiaria os dois senadores acusados de ordenar a quebra do sigilo na cassação de Luiz Estevão.

Saturnino disse que tomou a decisão depois de ler nos jornais reportagens dizendo que ele já havia se decidido pela cassação. ?Esse procedimento [da imprensa? me faz exigir de mim mesmo um certo recolhimento?, disse, em discurso na tribuna do Senado. ?Estava tendendo a pedir a cassação, mas este clima de caça às bruxas me leva a pedir mais prazo para meditar e apresentar meu relatório?, explicou.

?Será que não estamos sendo levados por esse clima de caça às bruxas a distorcer nosso julgamento??, questionou. ?Estou me sentindo demasiadamente cercado?, afirmou, na saída do plenário -literalmente ?cercado? por câmeras, fotógrafos e jornalistas.

A avaliação dos senadores é que a decisão de Saturnino é benéfica para ACM, cuja estratégia tem sido justamente a de protelar o andamento dos trabalhos. ?Sei que o senhor está fazendo o que acha que deve fazer, mas tem de estar consciente de que está fazendo o jogo que o Antonio Carlos queria?, reagiu Pedro Simon (PMDB-RS), da tribuna, após o discurso de Saturnino.

?Estamos diante de uma estratégia do senador Antonio Carlos para que isso fique para depois do recesso. Acredito que, por isso, esse pedido do relator será insustentável?, afirmou Antero Paes de Barros (PSDB-MT), do conselho.

A Folha apurou que, ao adiar a entrega do relatório e demonstrar preocupação com a pressão da imprensa, Saturnino alegou a pessoas próximas ter dois objetivos: desarmar a tentativa de ACM e de seus advogados de pedir seu impedimento no conselho, por suposto prejulgamento; e arrefecer a pressão da imprensa e senadores para poder concluir o texto com mais tranquilidade.

O efeito, no entanto, pode ser oposto ao pretendido. Reservadamente, senadores diziam que, no início do processo, o relator afirmava que não havia provas contra ACM, e queria até mesmo encerrar as investigações.

Depois do laudo da Unicamp comprovando a fraude e das confissões de ACM e Arruda de que tiveram acesso à lista com os votos, ele passou a dizer abertamente que as versões de ambos não se sustentavam e que se inclinava pela cassação. ?Vai haver desconfiança?, alertou Simon ao próprio relator, também da tribuna.

A notícia do adiamento foi comemorada por ACM, que, se antes criticava o comportamento de Saturnino, ontem o cobriu de elogios. ?Ele preferiu fazer uma averiguação completa e meditar melhor. Tomou uma atitude sensata?, afirmou o pefelista.

O presidente do Conselho de Ética, Ramez Tebet (PMDB-MS), minimizou o adiamento de Saturnino. Segundo ele, o relatório já seria atrasado pela necessidade de votar seis requerimentos na próxima terça-feira. Com isso, ele espera encerrar as apurações. A partir daí, o relator tem cinco dias úteis para concluir seu parecer. Sua previsão é que o relatório possa ser votado no dia 15."

Kennedy Alencar

"ACM faz campanha de sua imagem na TV", copyright Folha de S. Paulo, 5/05/01

"Uma campanha de mídia para tentar impedir a cassação do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) deve ir ao ar a partir de hoje. Um comercial de TV intitulado ?A Quem Interessa Calar Essa Voz?? está previsto para entrar em rede nacional.

ACM e seu grupo avaliam que o Senado inclina-se pela cassação movido por pressões da opinião pública. Com a campanha, ACM espera diminuir essa pressão.

O publicitário Fernando Barros, da agência Propeg, foi o idealizador do comercial. ?Vamos mostrar os fatos mais marcantes da atuação do senador Antonio Carlos [Magalhães? na presidência do Congresso, a fim de deixar claro que ele contrariou interesses e que são injustas as acusações?, afirmou Barros.

O publicitário presta serviços ao governo e colaborou para a campanha da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso.

ACM é acusado de ordenar a violação do sigilo do painel de votação do Senado em 28 de junho do ano passado, dia da cassação de Luiz Estevão. Além de ACM, teriam participado da violação Regina Borges, então diretora do Prodasen (órgão de informática do Senado) e o então tucano e líder do governo na Casa, José Roberto Arruda (DF). Hoje, Arruda está sem partido.

Estratégia

ACM decidiu realizar a campanha de TV após avaliar que a tendência da opinião pública terá peso decisivo na decisão do Senado de cassar ou não seu mandato. Exemplo de pesquisa de opinião que o levou a articular a campanha: o Datafolha revelou que 84% dos paulistanos defendem a punição de ACM e de Arruda devido ao episódio. Dos entrevistados, 58% consideraram que ACM deveria ser cassado.

O senador pefelista, que chamou de ?safada? a mídia pelo teor do noticiário sobre seu envolvimento na quebra do sigilo do painel eletrônico, pediu ajuda a políticos e empresários para tentar reforçar as alegações de que é inocente e de que está sendo vítima de perseguição.

O comercial deverá destacar que ACM, na presidência do Congresso, foi o principal articulador da criação da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Judiciário, em 1999. Dessa CPI, resultou a cassação de Estevão.

Também deverá ganhar realce o trabalho de ACM para criar o Fundo de Combate à Pobreza, fonte de recursos que sustenta programas sociais do governo FHC nos Orçamentos de 2001 e de 2002 (ano eleitoral).

A idéia é tentar levar parte da população a acreditar que ACM é uma vítima e que está sendo crucificado por erros menores. Se o comercial não convencer, a mesma mensagem pode abrir caminho a uma eventual renúncia.

Patrocínio

Apesar de Barros indicar uma entidade de classe baiana como a patrocinadora do comercial, empresas ligadas a ACM teriam ajudado a financiar a compra de horário comercial em rede de TV, inclusive duas empreiteiras."

Painel do Leitor – FSP

"ACM", copyright Folha de S. Paulo, 6/05/01

"Injustificável a decisão da Folha de publicar, no dia da acareação entre os personagens de três diferentes versões sobre a violação do painel do Senado, um artigo de ACM de quase uma página inteira. E ainda falando de ?verdade? no título. Se fosse o caso, este jornal deveria dar a cada um deles o mesmo espaço para defender a sua ?verdade?. Digo o óbvio, constante no mais primário dos manuais de jornalismo. Como, pois, acreditar na lisura deste jornal? Que interesses ligariam a Folha à defesa de ACM? Que forças ocultas levariam os tentáculos do ?monarca da Bahia? até o autodenominado maior jornal do Brasil? Sinceramente, dá vontade de chorar.? Inês Castilho São Paulo, SP

Nota da Redação – A Folha considera incontestável o direito de defesa."

***

"Senado", in Painel do Leitor, copyright Folha de S. Paulo, 1/05/01

"A forma sensacionalista como a mídia trata o ?escândalo? da quebra do sigilo do painel do Senado faz parecer que há interesses escusos em chamar a atenção pública para assuntos que não são de real interesse da população. Em um país com tanta desigualdade social, o que interessa ao povo brasileiro é que seja devolvido o dinheiro que foi apropriado de forma indébita pelos projetos faraônicos ou inexistentes. É lamentável pensar que todo esse dinheiro que se encontra nos bolsos de poucos serviria para gerar empregos em projetos sérios. A única coisa certa sobre as votações no Congresso é que deveriam ser abertas. (Solange Mota Belém, PA)

De passagem por Salvador, fiquei feliz, pois o meu Bahia foi campeão da Copa do Nordeste. Mas, passada a alegria inocente que o futebol nos proporciona, resta a tristeza e o constrangimento ao constatar que a bela Bahia continua subserviente aos seus coronéis de sempre. É lamentável ver ACM passear impoluto pelo circo da mídia local. ?Malvadeza? passeia com seu séquito e, enxovalhado pela opinião pública nacional, o velho coronel demonstra arrogância em seu quintal. Continua ostentando numa mão o velho alforje repleto do vil metal e, na outra, o já surrado chicote. Alguns ?artistas?, ?jornalistas? e ?intelectuais? locais parecem ter perdido de vez o pudor e articulam um manifesto pró-cacique. Uns seguem de olho na tentadora burra, outros ainda temem o surrado chicote. Ainda bem que o Brasil não é o quintal da Bahia. (Luiz Augusto M. de Oliveira, diretor de formação do Sindicato dos Trabalhadores em Editoras de Livros de São Paulo, São Paulo, SP)"

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