Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA vs. ACM

O dia da caça

Por Chico Bruno em 09/05/2001 na edição 120

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MÍDIA vs. ACM
O dia da caça

Chico Bruno (*)

O antônimo de parcial é imparcial. Esses dois adjetivos sempre estiveram presentes na mídia brasileira. Principalmente na mídia regional. Uns preferem se referir à parcialidade da imprensa, chamando-a de "chapa branca", outros de "diário oficial". Hoje, com a violação do segredo do voto da sessão de cassação do senador Luiz Estêvão, essa questão volta a aparecer com clareza na Bahia.

O senador baiano envolvido no episódio reclama com veemência e acusa a grande imprensa nacional de parcialidade, por fazer um linchamento de seu mandato. Infelizmente, o senador não usou essa veemência para impedir que, entre 1987 e 1990, o jornal e a rede de televisão de propriedade de sua família, com parcialidade, linchassem publicamente o governo do estado da Bahia, sem espaço para o contraditório, sem o mínimo direito de defesa que, aliás, a mídia do Rio, de São Paulo e de Brasília tem proporcionado ao senador, provando que estão agindo com a imparcialidade que o episódio do Senado requer.

Voltando ao principal, os baianos, hoje, assistem ao parcial e ao imparcial ao mesmo tempo, com diferença de minutos, nos mesmos canais de TV. Nos canais que transmitem a TV Bahia e a Globo, a Itapoã e a Record e a Band Bahia e a Band nacional, isso fica patente pela diferença entre o conteúdo dos noticiários locais e nacionais. Os locais são parciais e os nacionais, imparciais.

É a primeira vez que o senador está por baixo em sua trajetória de deputado federal, prefeito, governador duas vezes nomeado e uma vez eleito, presidente de estatal, ministro de Estado e senador. Em seus 50 anos de vida pública amargou apenas duas derrotas, uma durante o regime militar, quando a nomeação para sucedê-lo recaiu sobre Roberto Santos, e outra com a eleição de Waldir Pires, em 1986, ocasião em que o poder da mídia familiar foi usado para dar a volta por cima na eleição seguinte. Portanto, o senador está muito mais afeito à parcialidade da imprensa do que à imparcialidade. E por isso chia.

Verdades esquecidas

Resta o consolo da parcialidade da maioria da imprensa baiana, que o apoia incontinenti, municiada pelas manifestações de solidariedade das elites cultural e empresarial da Bahia nesta cruzada, para que não tenha seu mandato cassado pelos pares do Senado. Sua fortaleza pessoal já foi testada em três tragédias familiares e um transplante de coração, e ele se saiu muito bem. Vamos ver agora como se comporta a fortaleza política, que está sendo testada pela primeira vez. Até agora, convenhamos, ele tem se saído muito bem, apesar de sua afirmação de que a grande imprensa está se comportando com imparcialidade, que ele convenientemente classifica de linchamento.

Talvez o senador tenha desdenhado os ditados "um dia é da caça, outro é do caçador" e "quem com ferro ferre com ferro será ferido", ou quem sabe esquecido da frase de sua autoria, pela qual classifica os jornalistas em três categorias: "o que quer dinheiro, o que quer notícia e o que quer emprego. O correto é não dar dinheiro a quem quer notícia, notícia a quem quer emprego e emprego a quem quer dinheiro".

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