Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O dia em que a mídia seqüestrou a ética

Por lgarcia em 16/01/2002 na edição 155

IMPRENSA GAÚCHA

James Görgen (*)

Porto Alegre é uma cidade com complexo de província e vocação eterna para metrópole. Visto por seus habitantes, um fato ocorrido aqui é sempre único e, portanto, tratado como tal. Inebriados por este espírito misto de desbravador e resistente ao desconhecido, característica dos povos que habitam regiões limítrofes, seus jornalistas e os veículos de comunicação acabam perpetuando esse olhar sobre o mundo. Não raramente, a fronteira que separa a liberdade de expressão da intervenção pura e simples é ultrapassada sem o menor constrangimento.

Observe o que aconteceu na capital quando um auxiliar de cozinha decidiu invadir um táxi-lotação tomando nove pessoas como refém. Foi na sexta-feira, 4 de janeiro do ano que se inicia, no centro de Porto Alegre. O dia de cão gaúcho terminou sem mortos ou feridos, 27 horas depois do início da ação. Mas podia não ter sido assim. Na ânsia pelo furo de reportagem, a imprensa local seqüestrou a ética, transformando um ato criminoso num drama em tempo real. Neste caso, a insensibilidade de uma mídia acostumada a não identificar seus limites ganhou ares de atentado à segurança pública.

Pelo rádio do táxi-lotação 350 que seqüestrou, João Sérgio dos Santos Pereira pôde ouvir teses, conselhos, julgamentos, especulações, críticas e apologias dos mais variados matizes. Se tivesse uma televisão, poderia ter sabido também que sua voz parecia com a de um homossexual, e poderia ficar desesperado e cometer uma loucura caso descobrisse que sua pena seria maior que 12 anos. Um comentarista de um canal local, que derrubou a programação para transmitir ao vivo um monótono desenrolar de acontecimentos, chegou a cogitar que os reféns estariam agindo como seus cúmplices por estarem sob os efeitos da Síndrome de Estocolmo.

Até este ponto, a notícia andava atrás do fato. Além de elucubrações paramilitares e psicologia de mesa de bar, os jornalistas não conseguiam, e nem podiam, se antecipar ao que estava para acontecer. A intervenção em tom de espetáculo se efetivou quando um repórter experiente conseguiu o número do celular de uma passageira e resolveu fazer uma entrevista com o criminoso durante o cerco ao lotação. Foi o furo do dia, reproduzido por todos os veículos da mesma rede de comunicação, em rede nacional de TV, mas primeiro na rádio que Pereira supostamente estaria ouvindo no lotação. O mesmo expediente foi repetido pelo grupo de mídia concorrente. Não demorou muito para que reféns libertados estivessem nos microfones apelando para que o auxiliar de cozinha se entregasse.

Sensatez, só na Brigada

Os negociadores do caso reclamaram da interferência dos jornalistas, mas em nenhum momento condenaram com rigor a atitude. A reprodução da voz do seqüestrador ajudou a identificá-lo, o que não necessariamente colaborou para acelerar o final do episódio, mais de 20 horas depois. Entre os colegas, o repórter foi enaltecido pelo feito. Publicamente, ninguém se perguntou o que teria acontecido se a história fosse outra. E se a entrevista tivesse perturbado ainda mais o seqüestrador, tornando-o agressivo contra os reféns? E se o destaque dado pela mídia, captado no veículo, aumentasse ainda mais seu ímpeto, fazendo com que ele desistisse de se entregar?

O seqüestrador inexperiente foi acusado de planejar o crime influenciado pela exacerbação das cenas de violência veiculadas na mídia. Cabe perguntar: até que ponto o espetáculo que pode ter ensinado o auxiliar de cozinha a planejar um desajeitado seqüestro não influencia também nossos homens de comunicação, que partem para a cobertura de uma possível tragédia com postura de super-herói? Tentar acelerar o ritmo de um fato ou dar-lhe embalagem alegórica para que seja apresentado de forma mais sedutora aos olhos da platéia é um desvio de conduta profissional tão condenável quanto o excesso de violência empregado pela polícia em casos que não exigem o uso da força.

Este artigo não pretende fazer apologia ao cerceamento do exercício do jornalismo em casos de ação policial com risco de vida. Mais do que legítimo, o acompanhamento da ocorrência policial pelos profissionais de comunicação, com presença física no local, é uma forma de a sociedade enxergar a dimensão dos fatos e refletir sobre as ameaças que pairam sobre o convívio social nos grandes centros urbanos.

O conflito, portanto, não se dá por causa do olho da imprensa, mas na maneira como ela usa a sua boca. Por falta de habilidade com o tema, e por julgá-lo inédito de um ponto de vista tacanho, a sociedade gaúcha não soube impor limites à atuação de seus veículos de comunicação, cujos repórteres e comentaristas acabaram co-protagonizando o drama que deveriam noticiar.

Durante toda a cobertura do seqüestro do táxi-lotação 350, a imprensa creditou à atuação da Brigada Militar o mérito pela tranqüilidade da negociação com o criminoso. Talvez porque os agentes de segurança demonstraram a sensatez que os jornalistas não tiveram na hora de cumprir o que deveria ser sua única tarefa no episódio: fazer o registro do ocorrido pela relevância dos fatos, e não na medida do interesse de incrementar os números da audiência ou da venda de jornais. Mais uma vez, a reportagem valeu-se da condição de vestir o "manto ilibado" de porta-voz do interesse público para adotar postura invasiva, tentando orientar a atuação de autoridades, reféns e até do seqüestrador. Se o crime do lotação acabou sem vítimas, a imprensa gaúcha ainda precisa pagar o preço do resgate da ética, maculada neste episódio.

(*) Jornalista e editor-adjunto do serviço de jornalismo especializado em comunicação AcessoCom

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