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Terça-feira, 14 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº999
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PRIMEIRAS EDIçõES > HORROR A MUDANÇAS

O discurso do establishment

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

HORROR A MUDANÇAS

Afonso Caramano (*)

Difícil aceitar mudanças, principalmente se mexem com estruturas arraigadas do poder constituído, o que o leva a desesperadamente incitar o medo à população menos politizada e à sociedade em geral, prefigurando o caos econômico, financeiro e social como pena ao eleitorado pela infortunada decisão das urnas, ou seja, pela escolha do candidato não-governista, conseqüentemente do menos preparado para enfrentar os desafios do mundo globalizado ? como se algum governante pudesse declinar dessa responsabilidade real.

É de se esperar que, faltando poucos dias para o jogo final, para a grande decisão, os ânimos se acirrem e os discursos se tornem mais contundentes na tentativa de manutenção do poder, apelando-se a todos os recursos ? como já vem acontecendo com o uso da batida tática da possibilidade da argentinização do Brasil ou do impasse venezuelano que enfrenta Chávez, opções de mudança que não deram certo, segundo Serra (Jornal Nacional de 17/10), argumentos repetidos à exaustão. E, claro, o medo, sempre o medo acenando no horizonte.

Para quem se propõe a debater políticas e soluções para o Brasil esse recurso não parece muito confiável, uma vez que, pretendendo construir-se sobre argumentos sólidos, racionais, expõe fragilidade, como alguém que vestisse calças curtas demais para seu tamanho. Aponta para o futuro com o dedo da racionalidade em riste, revelando-se um embuste como “qualquer apelo feito à razão ou em nome dela, unicamente, é um embuste;” e “visa tão somente camuflar o desejo patológico de mandar nos outros, submetendo-os a seus desígnios, jamais legítimos”. (Manzano, Nivaldo Tetilla ? Elogio da Incerteza, Ou como evitar as linhas retas para andar direito”). [ver remissão abaixo]

Talvez necessitemos de um pouco de utopia a sinalizar no horizonte com novas possibilidades contra discursos esvaziados de sentido (extremamente racionalistas e cirurgicamente econômicos) ou discursos piegas que tentam ridicularizar as ações motivadas por atitudes utopistas. Entenda-se por utopia neste contexto a adoção de uma nova política que considere o homem em toda a sua dimensão ? de cidadão e agente transformador de seu meio, de ser racional e movido por paixões etc. (Daí o sucesso das propagandas que apelam à emoção).

Constante reconstrução

Ironicamente, sem simplificações ou ingenuidade, começa a despontar um caminho alternativo para a implementação de uma globalização mais humanizada e contra a reificação do homem, justamente aqui ? no novo mundo, abaixo da linha do Equador, com esse povo miscigenado e moreno…

Alguns críticos e pensadores estrangeiros já começam a apontar para essa possibilidade, para a importância deste país continental, rico em recursos naturais (minérios, bacias hidrográficas, biodiversidade etc.) e povo extremamente criativo, além de uma economia potencialmente robusta ? dependendo apenas de seus méritos administrativos (de sua política), ainda que não agrade a setores conservadores de nossa elite ou freie os objetivos e interesses estrangeiros na região.

O destino dos homens depende das suas próprias atitudes ? e o caminho não é fácil ?; não existem salvadores da pátria, ungidos, ou um Dom Sebastião qualquer que possa nos redimir, resgatar. Podemos apenas esperar (e optar com o voto) pela consciência e pela vontade política a nortear rumos mais éticos, responsáveis e dignos, a fim de vencer o abismo social e as desigualdades seculares.

Toda mudança gera expectativas ? e independentemente da disseminação do medo, do terror econômico e das falácias verbais ; o que torna a existência aprazível e interessante é a constante reelaboração e reconstrução do presente como processo de edificação do futuro do homem, no caso, de um país.

(*) Funcionário público municipal, Jaú, SP

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