Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO & LITERATURA

O duplo equívoco de García Márquez

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

JORNALISMO & LITERATURA

Elias Machado (*)

No primeiro tomo de suas memórias ? Vivir para contarlo,
Editorial Norma, 2002 ? o jornalista e escritor colombiano Gabriel
García Márquez, além de oferecer aos leitores
mais uma obra digna de um verdadeiro maestro da literatura universal,
ensaia, ao longo das quase 600 páginas do livro, várias
tentativas de definições para os gêneros jornalísticos.
Mesmo sem qualquer titulação formal no campo, uma
vez que sequer concluiu o curso de Direito ? abandonado no segundo
ano ?, o arroubo conceitual de García Márquez soa
muito natural, considerando que antes do tardio reconhecimento como
escritor, exerceu o jornalismo por mais de 20 anos, tendo passado
por quase todas as funções, de crítico a correspondente.
Depois de consagrado com o Prêmio Nobel, García Márquez
seguiu com a colaboração regular na imprensa ? reunida
em cinco volumes até agora ? e, no final dos anos 90, voltou
à reportagem, quando comprou a revista semanal colombiana
Cambio.

Entre os vários comentários de García Márquez sobre a natureza do jornalismo, suas relações com a literatura e as especificidades de alguns dos gêneros jornalísticos, dois aspectos chamam a atenção: a definição do jornalismo como um ramo da literatura e o conceito de reportagem. A primeira incursão de García Márquez no campo conceitual aparece na página 315, quando recorda uma entrevista da jornalista Elvira Mendoza com a declamadora Argentina Berta Singerman: "Com el reportaje de Elvira tomé conciencia del periodista que llevaba dormido em el corazón, y me hice al ánimo de despertarlo". García Márquez confessa que, com a leitura do trabalho da amiga, percebeu as possibilidades da reportagem como gênero literário em vez de um simples meio para o exercício do jornalismo, concluindo em seguida que, como comprovaria na própria carne poucos anos mais tarde, quando estava redigindo o livro Relato de un náufrago, a novela e a reportagem são filhos de uma mesma mãe.

No comentário às opiniões de García Márquez prefiro começar pela parte menos polêmica, que trata do jornalismo como literatura. Menos rica para uma discussão sobre a teoria dos gêneros, justo porque desconhece toda a contribuição conceitual dos pesquisadores do jornalismo no século passado, permanece na superfície do objeto, no nível do juízo do senso comum, condenada a entrar para a história como uma simples opinião de um Nobel de literatura, em nada modificando tudo o que se sabe sobre as diferenças das modalidades jornalísticas consagradas ao largo de quatro séculos de prática profissional. A variada bibliografia sobre o tema [muitas das melhores obras são de escritores de língua castelhana, a exemplo do excelente Literatura y periodismo ? relaciones promiscuas, do catalão Albert Chillón, lançado em 1999, em Barcelona, e que deve ser publicado em breve no Brasil pela Editora da UnB], como os conhecidos ensaios Jornalismo como um gênero literário, de Alceu Amoroso Lima, e Jornalismo e literatura, de Antônio Olinto, vão muito além do lugar comum da definição de García Márquez.

Visão romântica do jornalismo

Quando considera que novela e reportagem são filhas de uma mesma mãe, a literatura, mais que desprezar todos as particularidades de cada gênero, elencadas com o duro trabalho de pesquisa para elaborar classificações a partir da identificação de singularidades da prática profissional, García Márquez, com a autoridade de um prêmio Nobel, reforça a defesa de uma visão romântica do jornalismo, concebido como um espaço para escritores em formação, que dificultou tanto no passado quanto no presente o ensino e a prática da profissão.

No strictu sensu, o jornalismo, mesmo sendo um fenômeno recente que data do século 16, como demonstrara Alceu Amoroso Lima, pode ser visto como um ramo da literatura. Mas, como uma decorrência do exercício da profissão, a prática do jornalismo exigiu a criação de convenções formais, estilísticas, narrativas e éticas para diferenciar o jornalismo da literatura como atividade artística. Até para, no pior dos casos, evitar o duro juízo que García Márquez, como fonte, externa quando critica a entrevista como gênero:


"La inmensa mayoría de las que no he podido evitar sobre cualquier tema deberán considerarse como parte importante de mis obras de ficción, porque sólo son eso: fantasías sobre mi vida" (pág. 532).


Para atingir o elevado padrão que pode garantir o respeito dos cidadãos, o considerado por García Márquez como a melhor profissão do mundo [veja remissão abaixo] precisa, antes de mais nada, conquistar, no plano conceitual, o que ao menos desde a metade do século passado,obteve no mercado das sociedades complexas: uma identidade própria. Nada pior para quem deve conhecer a realidade como uma necessidade de sobrevivência do que encontrar pela frente pseudoliteratos em vez de jornalistas bem preparados para sua função.

Como prática profissional, o jornalismo nada tem a ver com a literatura por duas razões bem simples. Em primeiro lugar, o jornalismo trata do presente, condicionado pelos fatos da realidade diária, enquanto a literatura opera no plano atemporal, livre para criar suas próprias regras. Em segundo lugar, tanto em nível do registro quanto da exposição dos fatos, as duas modalidades discursivas são orientadas por técnicas de apuração, redação, de estilo e éticas diferenciadas.

Na literatura, julgar uma obra como ficcional pode representar um primeiro passo para reconhecer valor ao trabalho; enquanto que no jornalismo, como evidenciou o próprio García Márquez quando interessado em desqualificar o tratamento dado às entrevistas que concedera, consideradas por ele como obras de ficção, a ficção revela total descompromisso com a veracidade dos fatos. Como qualquer profissão, óbvio que o aprendizado do jornalismo passa pela escola. Muito menos consenso existe no campo da literatura, bastando dizer que as escolas de Letras estão mais preocupadas em formar críticos que escritores.

A leitura das memórias de Gabriel García Márquez serve como alerta para os candidatos a jornalistas: com o grau de competição entre os interessados em ingressar na profissão, um estudante que caia na tentação de aprender jornalismo de improviso, como fez o mestre colombiano, a não ser que seja salvo pela fortuna de um talento descomunal tem pouco ou nenhum futuro pela frente em um mercado que oferece uma escola de jornalismo em cada esquina.

Conceito muito pessoal

Muito mais original e nem por isso menos polêmico, quando contrastado com a tradição prática da profissão e dos estudiosos, o conceito de reportagem de García Márquez, se aceito sem ressalvas, destruiria muitos dos fundamentos teóricos do campo, sem deixar pedra sob pedra. Um dos momentos em que melhor aflora a definição é quando García Márquez rememora a discussão mantida com o diretor de El Espectador, Guillermo Cano [assassinado a mando do narcotraficante Pablo Escobar em 1986], antes de realizar, a contragosto, a entrevista com o náufrago Luiz Alejandro Velazco, um dos oito marinheiros que caíram no mar em 28 de fevereiro de 1955 e o único que escapara com vida:


"Le adverti deprimido pero com el mejor estilo posible que sólo haría el reportaje por obediência laboral pero no le pondría mi firma. Sin haberlo pensado, aquélla fue una determinación casual pero certera para el reportaje, pues me obligaba a contarlo en la primeira persona del protagonista, com su modo propio y sus ideas personales, y firmado con su nombre. Es decir, sería el monólogo interior de una aventura solitaria, al pie de la letra, como la había hecho la vida" (pág. 564).


O fato curioso neste, como em outros trechos das memórias, consiste em que García Márquez trabalha com a entrevista como sinônimo de reportagem. É sabido por todo profissional que reportagem significa tanto gênero jornalístico quanto etapa do processo de apuração no jornalismo. Mas conceituar um relato em primeira pessoa, assinado pela fonte, como reportagem, eis aí uma definição muito pessoal, que entra em contradição com as próprias noções do ofício manejadas pelo escritor ? como fica claro neste trecho:


"La entrevista fue larga, minuciosa, em três semanas completas y agotadoras, y la hice a sabiendas de que no era para publicar em bruto sino para ser cocinada em outra olla: un reportaje…" (pág. 565).


O modelo de relato empregado por García Márquez apresenta muito do estilo da compatriota Elvira Mendoza, que desprezara o formato pergunta-resposta para narrar as circunstâncias do encontro com a declamadora Argentina Berta Singerman e que conseguira vencer sua antipatia pelo jornalismo. Como um relato em primeira pessoa [o próprio García Márquez reconhece que "sin exagerar demasiado yo no era más que el transcriptor del cuento contado por el próprio protagonista…" (pág. 569)], apresenta todas as características de um testemunho pessoal ? neste caso, posto na fôrma por um talentoso profissional.

Reportagem pouco convencional

O que mais surpreende na definição de García Márquez de o Relato de un náufrago é que, mesmo havendo se negado a assinar o trabalho e tendo repassado os direitos autorais do livro para o marinheiro Velazco (a quem considera o verdadeiro autor), defenda, ainda hoje, que se trata de uma reportagem. Essa pouco convencional noção de reportagem, que reaparece agora nas suas memórias, estava implícita desde a apresentação escrita para o livro publicado pela Editorial Tusquets, de Barcelona:


"Hay libros que no son de quien los escribe sino de quien los sufre, y éste es uno de ellos. Los derechos de autor, en consecuencia, serán para quien los merece: el compatriota anônimo que debió padecer diez dias sin comer ni beber em uma balsa para que este livro fuera posible…"(pág. 572).


Em 1970, pela primeira vez, Relato de um náufrago vem com o selo de uma obra de García Márquez, depois de que ganhara na Justiça os direitos sobre o livro em uma ação impetrada por Velazco. Coerente com o que defendera antes, desde então os direitos de autor são depositados para uma fundação docente colombiana.

A atitude dúbia de García Márquez, quando define de forma impressionista o jornalismo ou a reportagem como gênero, revela um desconhecimento cabal dos avanços obtidos pelos estudiosos do campo, como Luiz Beltrão e Marques de Melo, no Brasil, Martinez Albertos e Lorenzo Gomis, na Espanha, e Juan Gargurevich, no Peru, para citar alguns dos mais conhecidos.

Como método para definir as características do jornalismo como prática profissional, nada tem de recomendável. Por vezes acerta como quando sustenta que as entrevistas são muito mais interessantes como instrumento de coleta de dados para as reportagens do que como gênero. Mas, em geral, fica dando voltas ao redor de um conjunto de lugares-comuns. De um escritor consagrado, ainda mais quando ostenta a aura de um Nobel, espera-se um tratamento rigoroso com os conceitos. García Márquez poderia ter seguido o exemplo de Alceu Amoroso Lima ou Antonio Olinto, e mesmo de Vargas Llosa, que escreveu, entre outros, um ensaio essencial sobre Madame Bovary.

A própria obra do escritor serve de parâmetro para desvelar as diferenças entre ficção e jornalismo. Noutro livro em que volta a travar luta desigual com os conceitos, Noticia de um secuestro ? que apesar das evidências contrárias trata-se de um magistral livro-reportagem ?, García Márquez confessa os limites que a realidade coloca para o jornalismo.


"…Tenía el primer borrador ya avanzado cuando caímos em la cuenta de que era imposible desvincular aquel secuestro de los otros nueve que ocurrieron al mismo tiempo em el país… Esta comprobación tardia nos obligó a empezar outra vez com uma estructura y um aliento diferentes para todos los protagonistas tuvieran su identidad bien definida… (pág. 7).


O duplo equívoco de Márquez em Vivir para contarlo residiu em, primeiro, confundir suas memórias com um trabalho ensaístico; e, em segundo, ao atrever-se a redefinir conceitos; pensar que poderia, como fizera na época de jovem estudante de direito, desprezar o jornalismo como ciência (ver página 314).

(*) Jornalista e pesquisador do CNPq na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia

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