Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > RBS NA BERLINDA

O Eldorado mais distante

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

RBS NA BERLINDA

Márcio Fernandes (*)

Sou de um tempo em que a RBS reinava no Rio Grande do Sul, em que o Paulo Sant?Ana só falava de futebol na TV (e era o melhor nisso) e o Celestino Valenzuela era o narrador preferido do estado. Minha geração cresceu sabendo que a Rede Brasil Sul de Televisão (RBS TV) era modelo até para a Globo. Não bastasse isso, há poucos anos lembro de ter ouvido uma conferência do diretor-presidente, Nelson Sirotsky (filho do fundador, Maurício, que começou o império com um pequeno caminhão de som em Passo Fundo, interior gaúcho), na qual ele demonstrava os tentáculos do grupo e como, no começo do século 21, o faturamento anual do conglomerado estaria em R$ 1 bilhão. A RBS era a vanguarda do Sul do país, sócia da CRT (companhia gaúcha de telefonia), acionista do provedor Terra, participante ativa da Net Cabo e inovadora ao lançar novos produtos, como a TV Com.

A geração logo a seguir à minha saberá desses fatos apenas como lembranças de um período áureo. Acossada pela concorrência em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, e sem conseguir pisar com força no Paraná, em São Paulo e Brasília, o Eldorado para a RBS está mais longe. A exemplo do grupo Diários Associados, a RBS parece não saber lidar com o simples fato de a concorrência (incompetente, aliás, na maioria dos casos) existir. Há meses que a opinião pública recebe apenas más notícias quanto ao desempenho do grupo. A culpa, claro, é do mercado, segundo dirigentes da empresa. Brasil em crise, dólar alto, instabilidade devido às recentes eleições e todas aquelas justificativas de sempre.

Pedro Parente vem aí

Como de hábito, é no andar de baixo, o das redações, que as conseqüências são mais nítidas. A TV Com Joinville (SC) deixou de existir há algumas semanas. As edições locais do Bom Dia, Rio Grande também ficarão na memória logo, logo, já que extintas também. E mais alguns jornalistas em SC foram dispensados no fim de outubro, com um custo altíssimo de indenizações. Curioso é notar que o grosso dos gerentes e seus superiores permanecem em seus postos, esses também com salários altíssimos. Para não ser incoerente, vale ressaltar que o presidente do jornal Diário Catarinense, Derly da Anunciação, também acaba de perder seu posto. E a direção promete mais tesouradas na esfera dos executivos do grupo.

É interessante analisar esse cenário, mesmo que rapidamente. De um modo geral, demissões sem justa causa nas redações custam muito, em termos financeiros, e aliviam as despesas do caixa da empresa somente a médio prazo. O caso é que, no médio prazo, o dito "mercado" pode se recuperar. Talvez fosse mais prudente dispensar, justa e principalmente, gerentes e afins, já que incapazes foram de abrir novos nichos para manter o faturamento, já que incapazes de cortar despesas de outros modos, já que incapazes de elevar a audiência mesmo com os inimigos mostrando pouco serviço. O que estará fazendo a direção da empresa que não percebe essas premissas óbvias, deixando que funcionários do segundo escalão ditem os rumos da companhia?

Bom, alguém há de dizer: Pedro Parente vem aí. Será o vice-presidente executivo do conglomerado, talvez iniciando a tão propalada profissionalização do grupo ? condição essa que há muito deveria ter sido implantada naquela que já foi orgulho do Sul em termos de administração de telecomunicações. Aqui mesmo, no Observatório, Alberto Dines especulou recentemente sobre as origens dos problemas da RBS. Em determinado instante, ele questionou se parte do vendaval não teria sido causado pela má qualidade da programação da RBS TV, por exemplo. Pouco provável. O telejornalismo da companhia não é o melhor do país mas, em muito, muito mesmo, supera a concorrência sulina. Desta vez, o buraco é mais em cima. E mais para dentro.

(* ) Jornalista

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