Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > MONITOR

O encanto radical da mídia

Por lgarcia em 05/06/1998 na edição 46

TT Catalão, Correio Braziliense

 

M

aris, maio, hoje entre Cannes, Roland Garros, a retrospectiva do fotógrafo Man Ray, a expo da Magnum, o port-folio de Marc Roboud para Repórteres sem Fronteiras , a pintura de Delacroix e até a pré-Copa, conseguiu achar espaço existencial para um maio muito especial de 1968 , o tal que “mudou tudo mas não revolucionou nada”, para seguir a ironia respeitosa do Le Nouvel Observateur em sua bela edição. Com direito até a fac-símile da edição 68 da revista.

Tais primores e rigores de informação foram seguidos pelo Le Monde, Libération e L’Express (que ficou com o saque de pauta na pesquisa aos arquivos da polícia francesa), número especial do antológico Cahiers du Cinema, reprodução de cartazes do Special Réalité. O Le Parisien foi averiguar o que faziam na época as atuais estrelas no poder. O primeiro-ministro Jospin alegou ares diplomáticos (era funcionário público) mas o historiador da new-left britânica Tom Nairn (autor de O Começo do Fim – Maio 68, lançado aqui pela Record) contestou dando a Jospin uma influente liderança no OIC – Organização Internacional Comunista, grupo trotskista contrário às barricadas do Quartier Latin.

Mas naquela zorra de anarcos, poetas libertários, comunistas clássicos, ultra-esquerdistas e até desavisados que passavam na hora pelo local, após trinta anos, ainda é muito recente para se chegar ao fundo do que foi a fértil época para a França e o mundo.

Até os antológicos cartazes receberam a unção capitalista de um leilão nostálgico onde a celébre logomarca da polícia CRS comparada às tropas SS nazista saiu pela mixaria de US$ 1.100 sob o martelo de Jean-Pierre Lelièvre.

A reprodução em poster dos cartazes não soou como profanação pela “vingança” estética do movimento, que foi extremamente crítico com a cobertura da imprensa. A ORTF – Organização de Rádio e Televisão de França – também foi “imortalizada” em outro cartaz símbolo. E os ativistas simplesmente classificavam a mídia como tóxica. Hoje, trinta anos depois, alguns como Angelo Quattrocchi reconhecem o papel importante das rádios que transmitiam direto, ao vivo, do campo de batalha.

A foto do deboche

O Paris Match marcou o gol iconográfico mais espetacular por ter a foto emblemática da pólvora que inflamou Paris: o deboche de Daniel Cohn-Bendit ante o policial. A própria essência do Movimento 22 de março da universidade de Nanterre. A raiz do rolo. Fotos-signos como a de Marc Riboud (da menina entregando a flor às baionetas norte-americanas na passeata de Washington em 67) ou a que mostrou a menina correndo chamuscada de napalm no Vietnã. Aliás o Vietnã era o único ponto aglutinador dos anarquistas do Movimento 22 de março da universidade de Nanterre. Periferia de Paris onde fermentava a emergência de uma outra França sedenta de século XX e mexer, se não na estrutura profunda (revolução), no comportamento geral da cultura, política e comportamento.

O fermento explodiu quando em uma inauguração burocrática de piscina, Dany interrompe o ministro da Juventude, Missofe, e desaforado pergunta sobre o “fato de não haver nenhuma linha sobre sexo” nos documentos do Ministério. Missoffe, descontrolado, manda o Dany tomar banho na piscina pois “com aquela cara de espinhas ele devia ter muitos problemas no gênero”. Dany devolve que “pregação obsessiva de prática esportiva é coisa de nazista”…

Aí se instala o rebu que acende o pavio. A galera ocupa alojamentos femininos e sente o sabor do desafio. A universidade é fechada. A cena dos garotos sendo revistados embaixo de cascudos funciona como uma espécie de senha nacional: chega, tá na hora de virar isso. Daí até a Sorbonne conquistada e o rastilho chegando aos operários e quase aos militares (o que levou De Gaulle a uma ida até a Alemanha, pois passou a considerar um levante interno e precisava das forças francesas no exterior). Ele, herói nacional, cai na esculhambação (a cachorrada é ele) geral. Mesmo com a resposta nacional em gigantesca passeata de 30 de maio aos anarcos, o general sente o toque dos novos tempos e realiza uma saída honrosa da transição que se fecharia em 1969.

Nada seria mais como antes

Se a perplexidade tomava conta dos próprios atores dos acontecimentos de Maio imaginem a mídia francesa. O rádio era o grande veículo e hoje se podem ouvir pela Internet gravações das reportagens da época (ver remissão abaixo).

A homenagem do Cahiers du Cinema fica por conta de artigos da época e a reprodução de um dos happenings da agitatriz Yoko Ono em um festival de libélulas ao vento, ao lado de Jean-Jacques Lebel, um dos líderes da ocupação do Odeon em Paris e poster involuntário ao ter oferecido seus ombros às belas coxas da aristocrata inglesinha Caroline de Bendern, que virou símbolo dos agitos de maio. O Le Nouvel localizou e foi perguntar onde andava a bela vermelhinha e comparou depoimentos de um policial e de um espancado, Thierry Verret ( hoje influente jornalista do L’Evenément du jeudi).

A revista Telerama, competentíssimo guia parisiense para cinema, expo, TV, rádio, de circulação semanal, dedicou um número especial ao Maio de 68 com direito a poster central (“A Beleza está nas ruas”) em tamanho natural e a melhor diagramação do evento. E em seu site (ver remissão abaixo) tem o cotidiano de maio com boa cronologia com fotos marcantes

O charme do site do Paris Match (abaixo) fica por conta deste soldado atrás do estudante. A revista possui a melhor documentação fotográfica dos eventos e esbanjou categoria ao dividir em três números sua homenagem. Retratos competentes das barricadas que usavam as ruas estreitas do Quartier Latin como tática e foram adquirindo técnicas de luta e estratégias no meio da batalha. Embora Paris e barricadas de rua tenham tradição desde 1789 e sua vocação libertária até com o momento romântico da tentativa utópica da Comuna de Paris de pôr o povo no poder.

As apropriações de maio foram muitas mas o exemplo brasileiro da revista Claudia, da Editora Abril (anúncio publicado em agosto de 68) merece destaque. Primeiro por remeter à luta na França e aos EUA. Segundo, pelo charme alienado ao confundir os franceses pavês (pequenas pedras que cobriam a rua) com os pesados paralelepípedos brasileiros que só estudantes halterofilistas ousariam lançar. Aqui se lançava molotov e bolinhas de gude para despencar a cavalaria. Combates na avenida Rio Branco, Rio, muito larga, eram muito favoráveis à polícia montada.

Ainda, o slogan usado no anúncio, optou pelo “Faça amor não faça guerra”, na busca do hippismo pelo lado pacífico passivo, esquecendo que o movimento hippie vinha dos sit-ins dos direitos civis (incluindo a luta contra o racismo) e era desobediência manifesta contra a insanidade Vietnã e a injustiça. No Brasil a pauleira corria em outro patamar de luta pois se tratava contra uma ditadura mesmo. Jogar pedra na polícia não tinha conseqüências apenas em hematomas e suturas na cabeça. As conseqüências eram brutais pois provocavam violência institucional sem direitos civis própria dos estados de exceção. Vinha choques elétrico, tortura, desaparecimento pelo terror de direita instalado. Tanto que enquanto De Gaulle retirava-se para seu honroso e merecido pijama, aqui, em dezembro de 68, fechava o tempo com o AI-5 na jugular. Idem para todos os latinos espancados e mortos.

O Le Monde fez a sua edição especial com fac-símile e o Libé, mais critico, procurou testemunhos de época e o tanto de verniz mítico que poderia ter se acumulado com o tempo como a poeira. O Le Monde ainda fez relação com o nascimento da nova moeda européia, o euro, o que pelo impacto cultural não deixa de ser uma utopia para a fraternidade européia tão dividida.

Não é à toa que Cohn-Bendit deposita no futebol, no meio ambiente e no euro suas bandeiras maio 98. Ele, o arroz-de-festa desse maio que sacou bem o momento e ficou no olho do furacão de uma convulsão sem líderes e sem maiores direções mas que mexeu na carcaça do francês rigidamente sepultado no passado. “Perdemos politicamente mas vencemos na sociedade’, avalia.

A mídia francesa não seria mais a mesma.

Nem a França!

 

LEIA TAMBEM

No hyperlink http://www.club-internet.fr dá para ouvir as reportagens da Europa 1 e a fidelidade ao calor das batalhas.

Telerama: http://www.telerama.fr

Paris Match: http://www.parismatch.com

Entre os nobres da mídia francesa, Le Monde (http://www.lemonde.fr) e Libération (http://www.liberation.com), vale uma passagem nos respectivos sites pois o material é farto e de grande valor histórico. Apuração e busca de reflexão com alto apuro. No melhor estilo francês de análise e senso filosófico. Cobertura dia-a-dia do maio e seus autores.

Vale um passeio, ainda, nos sites do L’Express (http://www.lexpress.fr ), _ http://www.media68.com , http://www.abcnews.com/section/us/1968, http://www.hachette.net, http://www.de.utad.pt/~fgouveia/mai68, www.burn.ucsd.ede/portab.html, http://homer.span.ch/~spaw2154/ e http//altern.org/batard/affiches2.html

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