Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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“O erro começa na pauta”

Por lgarcia em 05/07/1997 na edição 25

Durante um ano, quatro estudantes de jornalismo pesquisaram atentamente o noticiário de saúde e educação nos jornais diários do Espírito Santo. A pesquisa, apoiada pelo Facitec – Fundo de Apoio à Ciência e Tecnologia da Prefeitura Municipal de Vitória, buscou avaliar o noticiário sob uma série de parâmetros. Uma das novidades da pesquisa em relação às pesquisas de jornalismo de um modo geral foram as entrevistas com as fontes de informação.

O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA publica neste Dossiê Saúde V os principais pontos de entrevista com Sandra Martins, médica pediatra, hoje presidente do CRM-ES (Conselho Regional de Medicina) e professora de pediatria do curso de Medicina da Universidade Federal do Espírito Santo. Os jornalistas capixabas, grosso modo, não gostam de entrevistar Sandra. Alegam que ela pede para ler a matéria antes, que não confia nos profissionais de imprensa. Na entrevista, realizada em fevereiro de 1997, ela fala ainda como “especialista” no assunto, não como presidente do CRM, pois ainda não tinha tomado posse no cargo.

Victor Gentilli

“Acho que o erro começa pela definição da pauta”, entrevista de Sandra Martins

Pesquisador – Os jornalistas vêm bem preparados para as entrevistas?

Sandra Martins – O que acontece é que o jornalista quer fazer consulta de tudo, sobre o assunto que foi pautado, com o médico. Tenho, muitas vezes, a impressão de que ele não leu nada sobre o que está perguntando. Outra situação que ocorre é ele abandonar a entrevista e começar a fazer perguntas de seu interesse, parecendo que ele está se consultando. -Olha, eu conheço uma pessoa que têm esse problema, a senhora sabe o que ela poderia fazer…

Percebo também falta de embasamento do jornalista para fazer a entrevista e interpretar as declarações. Isso acaba se refletindo nas matérias. Por exemplo, o médico pode citar uma descoberta científica para ilustrar uma explicação, ou falar de um caso raro, mas é algo que todos os médicos já estão fazendo, em qualquer sala de atendimento. Já vi casos que os jornalistas colocam isso na matéria como sendo uma grande descoberta, atribuindo, inclusive, ao médico entrevistado. Isso é muito complicado, pois parece que o médico está usando a imprensa para dizer uma coisa que todo mundo já sabe, já disse, como se fosse uma coisa sua, uma descoberta, uma coisa única.

Pesquisador – Isso é muito comum na cobertura de Saúde pelos jornais capixabas?

Sandra Martins – Muito. Acho que o erro começa pela pauta, na definição dela. Parece que o jornalista nos procura mas não sabe muito o que quer descobrir. Ele sai com uma pauta tão abrangente que é difícil apurar alguma coisa. Aí fica aquela situação, ele não sabe o que perguntar e o entrevistado não sabe o que responder, fica aquele diálogo perdido.

Pesquisador – Então, falta uma pauta mais direcionada?

Sandra Martins – Sim, mas acho que isso também é um problema, pois para direcionar uma coisa você tem que conhecer o geral, porque senão você perde a crítica de novo. Mas, enfim, não vou ensinar jornalismo.

Pesquisador – O ensino de jornalismo teria alguma relação com essa situação?

Sandra Martins – O ensino superior de modo geral tem problemas. Falta uma maior bagagem cultural. Cultura geral, mesmo, para as pessoas que estão na Universidade, tanto alunos como professores. E isso se reflete no que vai ser ensinado e aprendido.

Pesquisador – Mas o que se deveria ter num curso de Jornalismo?

Sandra Martins – Muita leitura geral, desde filosofia até leitura sobre as várias Ciências. Se nas outras formações é importante ter essa bagagem de cultura geral, para o jornalista é fundamental.

Pesquisador – Como seria uma matéria de Saúde que a senhora gostaria de ler nos jornais?

Sandra Martins – Elas deveriam ser precisas e privilegiar o conteúdo. Assim, o próprio médico poderia aprender com a cobertura de Saúde.

Pesquisador – Como é caracterizada essa precisão nas matérias?

Sandra Martins – Elas deveriam ser informativas, ilustrativas. Isso acontece na Times. Inclusive, nos EUA parece que quem escreve sobre Saúde são pessoas que têm formação na área, pois lá não precisa ser graduado em jornalismo para trabalhar nos jornais, basta ter feito uma especialização, um curso de pós-graduação.

Pesquisador – Há algum jornais que apresente notícias próximas desse modelo?

Sandra Martins – Não sei. Vejo algumas coisas interessantes e outras desprezíveis. Mas o caráter do jornal também é diferente. Ele é mais noticioso, cobre mais o fato, a revista parece que aprofunda mais a discussão e fornece mais conhecimento. Só que o jornal também deveria fazer isso.

Pesquisador – E como é sua avaliação dos jornais capixabas, A Gazeta e A Tribuna?

Sandra Martins – Quando a notícia é sobre o que está acontecendo vai tudo bem. Mas, quando se apresenta uma questão que necessita ser comentada, discutida, fica complicado. Por uma questão simples: falta de conhecimento.

Pesquisador – Como poderia ser melhorada a cobertura de saúde pelos jornais?

Sandra Martins – O jornalista deveria se instruir mais, consultar os arquivos, tentar entender o básico do assunto que ele pretende escrever. Feito isso, seu trabalho será facilitado, pois ele gastará menos tempo para elaborar a notícia, já que ele teria uma melhor definição do que pretende escrever.

Pesquisador – Como é sua avaliação sobre o espaço que o tema saúde ocupa nos jornais?

Sandra Martins – Podia ser melhor, mas o grande problema do jornalismo praticado na área não é quantidade, também é quantidade, só que o pior é a qualidade.

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