Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > 5.

O escândalo que a imprensa censurou

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

ESPIONAGEM NA ONU

Argemiro Ferreira (*), de Nova York

Fatos ocorridos paralelamente às reuniões do Conselho de Segurança da ONU para discutir a guerra do presidente Bush no Iraque comprovam de novo que a mídia dos EUA vive momento melancólico de sua história ? por incompetência, intimidação, temor à histeria pós-11 de setembro ou apenas excesso de zelo patriótico, mas sempre em detrimento do jornalismo. Seguem-se os fatos, que acompanhei como correspondente na ONU:

1. A 17 de fevereiro o correspondente Mohammad Hassan Allawi, da agência INA, do Iraque, recebeu ultimato da missão americana junto à ONU: tinha poucos dias para fazer as malas e sair do país, pois sua presença era "prejudicial aos interesses dos EUA". Falei com ele no mesmo dia e ouvi a explicação de que nada fizera para ser expulso, mas cumpriria a ordem sem discussão.

2. Dia 18, o presidente de nossa associação (UNCA, Associação dos Correspondentes da ONU), Tony Jenkins, pediu explicações em carta ao secretário de Estado Colin Powell. Lembrou ser a primeira vez, em mais de 50 anos de existência da organização, que um jornalista era expulso, "embora na fase aguda da Guerra Fria os serviços de espionagem de várias nações, entre elas os EUA, recrutassem jornalistas ou usassem a credencial de correspondente na ONU como disfarce para seus agentes".

3. Dia 26 de fevereiro, o porta-voz da missão dos EUA, Richard Grenell, respondeu à carta da UNCA. Acusou Allawi de "engajar-se em atividades fora do escopo de sua missão de correspondente". E acrescentou que "os detalhes em tais casos não podem ser tornados públicos".

4. Quatro dias depois, em sua edição de 2 de março, domingo, o jornal britânico Observer publicou memorando interno da secretíssima Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA. Era ordem ao seu escalão superior para intensificar a espionagem (escuta eletrônica, grampeamento de telefones, interceptação de e-mails etc) contra diplomatas de países do Conselho de Segurança contrários à guerra do Iraque ou ainda indefinidos.

5. A 9 de março, a ONU informou ao correspondente do Observer que estava realizando uma "investigação de alto nível" sobre a denúncia.

O novo jornalismo dos patriotas

Como se conduziu a mídia dos EUA diante desses fatos? O jornalista Allawi, figura discreta nos corredores da ONU, chegou a ser ouvido pela rede Fox News. Declarou o que me dissera ? que não sabia o motivo real, pois só o que faz é redigir notícias, mas iria embora no prazo dado. O locutor da Fox, como fizera o jornal Washington Post e outros, informou ao público que a acusação era espionagem.

Quanto à espionagem revelada pelo Observer (mais um entre os muitos "furos" da imprensa britânica em questões internas do governo Bush, omitidas na mídia dos EUA), poderia ter sido noticiada no mesmo domingo, 2 (citando a fonte, claro), pelos jornais de Nova York (cinco horas atrás de Londres) a Los Angeles (oito horas atrás). Todos optaram por ignorá-la: nada saiu no domingo ou na segunda-feira, sequer um registro.

Nos programas políticos de entrevistas de domingo nas redes de TV (onde sempre são feitas perguntas sobre fatos do dia, às vezes até sobre o que uma autoridade do governo está dizendo naquele momento no canal concorrente), o assunto foi ignorado. Na segunda-feira (3/3) a questão só não foi censurada na sessão de perguntas e respostas (transmitida ao vivo) com o porta-voz Ari Fleisher, na Casa Branca. Ali, um jornalista da ABC afinal ousou romper o muro de silêncio e perguntar sobre o documento do Observer. Recebeu a resposta-padrão para o tema espionagem: "O governo não comenta ? nem confirma, nem desmente ? operações de inteligência".

Isso pode ter funcionado como senha, ao menos para o Washington Post e o Los Angeles Times. Os dois publicaram textos, escondidos nas páginas internas (o do Post, curto, na página 17) de terça-feira. Fleisher era citado e o Post sugeria que o documento do Observer era uma fraude, pois certas palavras na transcrição tinham a grafia britânica, diferente da americana. A versão parecia vazada pelo governo, pois saíra ainda na coluna online de Matt Drudge [Drudge Report, <http://www.drudgereport.com/>], dedicado adepto de Bush. Mas Drudge e os jornais omitiram a explicação posterior do Observer, de que as palavras estavam com aquela grafia porque seus leitores são britânicos, mas no fac-símile, também publicado, apareciam com a grafia original, americana.

Protegendo os segredos de Estado

Entre as coincidências dos textos do L.A.Times e do Post estava a alegação, atribuída a outros, de que a espionagem americana na ONU era irrelevante, porque sempre existiu. Os textos tinham frases como: "é rotina", "vem com o território", "seria ingenuidade alguém achar isso uma novidade". Ou, então, o que disse o embaixador búlgaro, entusiasta da guerra de Bush: "Eu me sentiria ofendido se não me grampeassem".

Os dois jornais ao menos falaram do assunto ? o de Los Angeles, mais ousado, considerou o fato embaraçoso para o governo e prejudicial ao esforço pela guerra. Mas o destemido New York Times, de batalhas históricas em defesa da Primeira Emenda (documentos do Pentágono etc), padrão da imprensa mundial e "newspaper of record", contrariou o slogan célebre ("all the news that?s fit to print") e fez autocensura. Em suas páginas não saiu sequer uma linha sobre o assunto.

Terá sido de fato irrelevante a espionagem, ostensivamente dedicada (como dizia o documento) a ganhar a votação no Conselho de Segurança? A organização FAIR (Fairness & Accuracy in Reporting), que monitora, pela esquerda, a mídia nos EUA, lembrou que a notícia saíra em outros países (no Brasil, apesar do carnaval, os jornais fizeram o registro, conforme observei em coluna enviada dia 4 à Tribuna da Imprensa, do Rio).

Além de ter sido iniciada uma investigação na ONU, o presidente chileno Ricardo Lagos, segundo a FAIR, exigiu explicações ao primeiro ministro britânico Tony Blair. Isso porque o memorando interno da NSA também se referia a uma agência de espionagem "amiga" ? obviamente, da Grã Bretanha ? que participava da operação dos EUA. (O embaixador chileno Cristian Maquieira, ouvido pelo L.A.Times na ONU, já tinha considerado o caso "muito grave"). Além do Chile, eram Angola, Camarões, Guiné e Paquistão os principais espionados. Em Londres, Blair mandou investigar se o vazamento do documento americano se dera em seu país, para punir a violação da lei que protege segredos de Estado.

Irrelevante, rotina, "not fit to print"? Dificilmente. Afinal, os jornais noticiaram a suposta espionagem do correspondente da agência INA e, pouco depois, o pedido da Casa Branca a mais de 60 países para expulsar centenas de diplomatas do Iraque considerados pela CIA (Agência Central de Inteligência) suspeitos do mesmo crime ? espionagem. Essas duas notícias saíram no New York Times, que até hoje, temeroso, incompetente ou patriota, esconde a outra de seus leitores.

(*) Jornalista

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