Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > 2.

O esgotamento de um modelo

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

GAZETA MERCANTIL

Adalberto W. Marcondes (*)

Toda minha solidariedade aos colegas que foram recentemente demitidos pela direção da Gazeta Mercantil. No entanto, creio que o momento é para uma reflexão sobre os rumos da mídia brasileira no médio e longo prazos. Sempre tivemos exemplos de grandes veículos que quebram e deixam a terra arrasada como herança. Os maiores exemplos são:

** TV Tupi, com centenas de profissionais demitidos e até hoje sem receber suas indenizações;

** Diários Associados, conglomerado no qual muitos veículos quebraram (embora outros tenham sobrevivido com alguma saúde financeira, como o Estado de Minas e o Correio Braziliense, malgrado, no geral, não haver restado sequer uma pálida sombra do que foi o império de Assis Chateaubriand);

** Grupo Visão. As revistas Visão e as revistas da série "Dirigentes" ? Dirigente Industrial, Dirigente Construtor, Dirigente Rural e Dirigente Municipal ? tinham quase 40 anos de circulação quando sucumbiram após terem sido vendidas pela Hidroservice para o empresário Hamilton Lucas de Oliveira, que se encarregou também de implodir títulos consolidados como os jornais paulistanos Shopping News e o DCI, onde pontificou o jornalismo lúcido de Aloisio Biondi.

Essas quebradeiras não foram consideradas sistêmicas, mas "casos isolados".

O cenário mudou. As empresas jornalísticas estão com suas feridas expostas. Não somente a Gazeta Mercantil, mas todo o sistema de mídia mantido por empresas familiares. Existe um esgotamento do modelo de gestão das empresas jornalísticas. Não há hoje jornal brasileiro, de que porte for, que possa gabar-se por estar em situação econômica confortável.

Olhando além das grandes marcas, o cenário é ainda pior. No interior deste Brasil continental os pequenos diários vivem de gerenciar a crise, pagando pouco e atrasado para profissionais que são verdadeiros abnegados. Muitos sem diploma, mas esta é uma outra discussão.

Está na fila para ser votada, em Brasília, uma emenda constitucional que permite o investimento internacional nas empresas jornalísticas [nova redação do Artigo 222], em 30% do capital. Abre-se a porta para os grandes grupos internacionais de mídia: com a atual cotação do dólar, investir no Brasil está "barato".

Não tenho uma posição contrária ao dinheiro internacional na mídia, mas creio que o que deve ser discutido agora é o modelo de gestão que as empresas jornalísticas devem ter. Isto porque, além de serem empresas, são responsáveis pelo cumprimento de uma outra norma constitucional que garante à sociedade o direito de informação.

Dois tipos

O debate sobre o modelo de gestão das empresas brasileiras de mídia teve uma contribuição importante quando o jornalista Nivaldo Manzano distribuiu um texto questionando o excessivo poder das chefias nas redações [publicado no OI em fevereiro de 1998, veja remissão abaixo]. Manzano o distribuiu quando desligou-se da mesma Gazeta Mercantil, que hoje é o topo do iceberg dos problemas vividos pelas empresas jornalísticas.

Discutir o emprego neste momento deve passar por uma profunda reflexão sobre o modelo das empresas jornalísticas. Devemos agrupar os exemplos históricos e as experiências recentes, como as centenas de empresas ponto.com que tiveram uma meteórica carreira até tornarem-se empresas ponto morto e donas de passivos trabalhistas.

É preciso olhar de perto a questão do financiamento ao direito da sociedade à informação. Ou seja, os critérios utilizados pelas agências de publicidade para irrigar o mercado editorial com recursos, contratos, grana. As empresas que gastam milhões em publicidade deveriam ter também a preocupação de verificar que tipo de jornalismo suas agências de publicidade financiam.

Existem dois tipos de informações:

1. a que o público quer saber

2. a que o público precisa saber

Sempre foi muito difícil financiar o segundo tipo. No entanto, é este que tem a capacidade de alavancar transformações sociais.

Os jornalistas ambientais sabem disto na pele. Precisamos ampliar o debate. Não é apenas uma questão de emprego. É uma questão de modelo empresarial e tipo de jornalismo que queremos e precisamos.

(*) Jornalista, diretor da agência Envolverde <www.envolverde.com.br>, editor do projeto de comunicação ambiental da ONU Terramérica e coordenador da Ecomídias ? Associação Brasileira de Mídias Ambientais


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? Nivaldo Manzano

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