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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > ELEIÇÕES 2002

O Estado de S. Paulo

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

ELEIÇÕES 2002

“Os presidenciáveis no ?Estado?”, Editorial, copyright O Estado de S. Paulo, 28/09/02

“A série de sabatinas com os principais candidatos ao Planalto, promovida por este jornal, deixou claro que dois deles – Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra – são os que efetivamente oferecem ao eleitorado alternativas de governo, fundamentadas, cada qual, em diagnósticos articulados dos problemas nacionais, concepções coerentes sobre a atuação do poder público e sustentável visão política. Nenhum deles, mais uma vez se comprovou, se compara a Anthony Garotinho e a Ciro Gomes em matéria de agilidade, desenvoltura e contundência verbal. O conhecido talento de ambos para esgrimir palavras e números dá aos seus argumentos uma densidade aparente, que encobre, muitas vezes, a ligeireza de suas análises e as fragilidades de seus projetos. Quem tiver ouvido ou lido na íntegra, sem parti pris, as declarações dos quatro sabatinados, dificilmente poderá discordar dessa avaliação.

Eis por que, menos pelo seu lugar nas pesquisas do que pelo seu destaque entre os candidatos, a análise das entrevistas deve concentrar-se forçosamente nas respostas dadas por Lula e Serra que transcendem o momento eleitoral, com a retórica de combate que lhe é inerente, e permitem entrever o que poderá ser o governo de um ou de outro. Para tanto, se presume que também o petista ?tem uma cara só?, como diz de si mesmo o tucano, embora essa autenticidade seja contestada, dentro e fora do País, por todos quantos consideram que ?sua guinada para o centro é muito súbita e muito perto das eleições para ser crível?, segundo a economista Eliana Cardoso. Ou, como pergunta o professor Rogério Werneck, em artigo no Estado de ontem, se o PT for ao poder, ?não ficará o partido tentado a voltar atrás para recolher pedaços de suas velhas convicções??

De todo modo, Lula e Serra mostraram à plenitude que encarnam formas antagônicas de exercício do governo. O primeiro se atribui o papel essencial de promover o que os cientistas políticos denominam ?concertação?, para criar, na expressão do candidato, ?um novo contrato social?, similar, quem sabe, ao da Alemanha. Lula quer levar para o Planalto e aplicar a uma infinidade de questões controvertidas o modelo, caro aos petistas, das câmaras setoriais em que patrões e empregados, com a mediação do Estado, acertam as suas diferenças. A busca desse consenso entre forças sociais diversas teria precedência sobre a negociação no Congresso Nacional. Serra, de seu lado, é adepto do formato decisório clássico, em que o presidente, tendo constituído maioria parlamentar, exerce a sua liderança para chegar a um acordo com os políticos que assegure a aprovação dos projetos de interesse do Executivo.

Para fazer a reforma tributária, por exemplo, a fórmula de Lula consiste em ?pegar todos os segmentos da sociedade e cada um vai ter que abrir mão de uma parcela do seu corporativismo; depois, um colegiado da sociedade, junto com o presidente da República, chamará os dirigentes dos partidos políticos e apresentará a proposta para o Congresso?. Lula crê que ?vai ser muito mais fácil a gente votar as coisas no Congresso Nacional se fizermos assim?.

Serra, de seu lado, defende a estratégia de ?apresentar uma proposta e dar a batalha por ela?. Nas suas palavras: ?Já chega de ouvir. Porque os interesses são contraditórios, muitas vezes quando você vai consultando, empresário da indústria não quer imposto cumulativo. Agricultura prefere imposto cumulativo. O setor de comércio não quer saber de imposto de vendas a varejo. A indústria gosta de imposto de vendas a varejo. Então, se você junta todo mundo e põe numa mesa, a resultante é negativa. O governo tem que definir o foco da reforma.?

Além disso, em contraste com o rigor conceitual de Serra, o que não contribui exatamente para torná-lo simpático, Lula novamente se deixou levar pelo coloquialismo e fez afirmações desastradas, como ?O Brasil não é uma republiqueta qualquer, não é a Argentina? e ?um presidente (Bush) que, de cada dez palavras que ele fala, nove tratam de fazer uma guerra?. Perdeu ainda uma ocasião de provar que mudou – e de contribuir para acalmar o mercado financeiro – ao colocar um ?ponto final? na possibilidade, defendida por vários líderes petistas, de manter Armínio Fraga no Banco Central, por um período de transição. Em suma, ao descortinar os conflitos entre os candidatos mais estruturados e as amplas divergências entre eles sobre como exercer a Presidência da República do Brasil, as entrevistas contribuíram para fazer da presente campanha a mais esquadrinhada pela imprensa da história republicana. Graças a isso, só o eleitor que não quis se informar continua desinformado.”

 

 

“Rio-Brasília”, copyright Folha de S. Paulo, 2/10/02

“Ninguém sabe, e talvez jamais se saiba, a origem verdadeira da onda de medo que na manhã de ontem espalhou-se por vários bairros do Rio e daí se projetou para os vizinhos Niterói e São Gonçalo. Há, porém, três certezas à mão.

Em uma cidade tensa como o Rio, não é necessária mais do que a patifaria de uma pessoa para dar alguns telefonemas em nome de bandidos, ordenando o fechamento de lojas e escolas, ou fazendo ameaças, e criar o pânico. Daí por diante, tudo dependerá do aproveitamento que marginais ou simples desordeiros façam das circunstâncias, e, sobretudo, dependerá do acaso.

Não houve fato algum que provocasse a costumeira reação da bandidagem, exigindo o fechamento do comércio, como luto forçado por um bandido ou em protesto por invasão policial. Não houve indício algum de que bandidos fossem os autores das ordens iniciais contra o comércio, nem de que tais ordens fossem procedentes de Beira-Mar e comparsas presos em isolamento na PM. A candidata Denise Frossard teria feito prisões em flagrante, mas isso já é outra história.

Outra certeza imediata é a semelhança entre o acontecimento de ontem e o arrastão que precedeu a disputa em 92, pela prefeitura carioca, entre Cesar Maia e Benedita da Silva. A repercussão negativa recaiu toda sobre Benedita e assim influiu em sua derrota. (Cesar Maia é prefeito pela segunda vez e patrono da candidata Solange Amaral, última colocada na disputa pelo governo fluminense, com ela fazendo uma campanha de violência incomum, explorando justamente o tema da violência nos governos de Benedita, também candidata no Rio, e de Garotinho.)

A terceira certeza fácil é a exploração eleitoral dos esquisitos fatos no Rio, prontamente iniciada e com desdobramentos imprevisíveis, mas com interessados bem definidos, seja na disputa pelo governo fluminense, ou na disputa pela Presidência. A Polícia Federal, que não demonstrou ter informação do que haveria ontem na cidade, ontem mesmo já se dizia sabedora de uma rebelião a ocorrer no dia das eleições. A PF continua ativa na campanha, e fiel à linha inicial.

Caso único

Brasília é o oposto do Rio. Não quanto a atividades do crime organizado. Mas quanto à identificação das origens do seu atual escândalo.

As revelações de quase 50 gravações telefônicas, feitas sob autorização judicial, justificam plenamente o pedido de impeachment, pretendido por deputados distritais, de Joaquim Roriz, governador do Distrito Federal. A já sabida grilagem de áreas em Brasília, com posteriores loteamentos fraudulentamente regularizados, está agora conhecida nos seus mecanismos íntimos, acionados por uma rede de corrupção que envolve parlamentares, o governo brasiliense e alcança o Judiciário de Brasília.

As devastadoras revelações do ?Correio Braziliense? foram objeto, porém, de uma decisão judicial liminar que, até as primeiras horas da noite, ainda sustava sua continuidade na edição de hoje do jornal e, em princípio, nas subsequentes. Há, no entanto, um aspecto ainda mais exótico na liminar: só o ?Correio Braziliense? foi atingido pela proibição. TVs, rádios e os outros jornais continuam livres para as revelações -caso, afinal, decidam-se a fazê-las também.

Mesmo considerando que o pedido de liminar feito por Joaquim Roriz menciona apenas o ?Correio?, e o juiz restringe-se ao pedido, a decisão resulta em uma espécie de censura dirigida. Ainda mais grave por incidir sobre o jornal que informa, às vésperas das eleições, sobre fatos criminais que envolvem candidatos e o fortalecimento do esquema de corrupção.”

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