Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

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O Estado de S. Paulo

Por lgarcia em 22/07/2003 na edição 234

CASO DAVID KELLY

“BBC confirma que cientista suicida era sua fonte”, copyright O Estado de S. Paulo, 21/07/03

“O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, reiterou que não renunciará por causa do suicídio do cientista do Ministério da Defesa, David Kelly – que a BBC identificou ontem como a principal fonte da acusação de que o governo exagerou as informações para justificar a guerra contra o Iraque.

?Você tem de ter costas largas para este trabalho e eu tenho?, disse o primeiro-ministro ontem em Seul, durante um giro pela Ásia, ofuscado pelo suicídio do cientista e ex-inspetor de armas da ONU. Membros da esquerda de seu Partido Trabalhista vêm pedindo sua renúncia nos últimos dias.

Blair disse que assumirá ?toda a responsabilidade? se uma investigação chegar à conclusão de que o governo contribuiu de algum modo para o suicídio de Kelly – encontrado morto na sexta-feira, um dia após sair para passear, com o pulso esquerdo cortado, ao lado de uma caixa vazia de analgésicos e uma faca.

Esta é a pior crise política nos seis anos do governo Blair. No sábado, o primeiro-ministro ficou totalmente sem ação quando um jornalista perguntou-lhe, no Japão, se ele tinha as mãos manchadas de sangue e pretendia renunciar.

Em uma entrevista coletiva ontem com o presidente sul-coreano, Roh Moo-hyun em Seul (ler mais na página 12), Blair disse que está disposto a depor em uma investigação judicial sobre a morte de Kelly, mas descartou a possibilidade de convocar uma sessão extraordinária do Parlamento, que está em recesso por causa das férias. O pedido de convocação foi feito pelo chefe da oposição conservadora, Iain Duncan Smith. Blair disse que uma convocação poderia ?provocar mais fogo do que luz? e a família de Kelly deveria ter um tempo para se recuperar da dor.

Em Londres, uma ex-ministra do governo Blair, a deputada e conhecida atriz Glenda Jackson, disse que o primeiro-ministro deveria renunciar e levar com ele Alastair Campbell (secretário de comunicação) e Geoff Hoon (secretário de Defesa), após descrever o episódio como ?absolutamente vergonhoso?.

?A posição de Alastair Campbell é tão frágil quanto a do primeiro-ministro e a do secretário de Defesa. Acho que eles deveriam renunciar imediatamente. Não posso ver que benefícios estão trazendo para este país e para meu partido após este episódio absolutamente vergonhoso. Deve haver renúncias e elas devem ocorrer o quanto antes.?

Dois dias antes de ser encontrado morto, Kelly havia sido submetido a dura sabatina no Parlamento sobre seu papel como um informante da BBC dentro do Ministério da Defesa. A família do cientista disse que ele ficou muito abalado com a situação.

Em um comunicado lido na TV, a rede BBC informou que esperou até ontem para fazer o anúncio de que o cientista era mesmo a principal fonte do jornalista Andrew Gilligan, a pedido da família de Kelly. ?A BBC sente profundamente que o envolvimento de David Kelly como nossa fonte tenha terminado de forma tão trágica?, disse o diretor de notícias da BBC, Richard Sambrook.

Em sua reportagem de 29 de maio, Gilligan disse, citando uma fonte anônima, que o governo ?esquentou? as afirmações sobre os armamentos de Iraque para fazer acreditar que Saddam Hussein poderia mobilizar armas de destruição em massa em 45 minutos. A acusação tornou-se o centro das críticas de que Blair enganou a opinião pública e o Parlamento sobre as razões para ir à guerra. Gilligan disse que foi Campbell quem insistiu para que a história sobre os 45 minutos fosse inclu&iacutiacute;da em um informe do governo sobre o armamento iraquiano.

Após Kelly comunicar a seus chefes no Ministério da Defesa que havia falado com Gilligan, o que era proibido pelo seu contrato, o governo o identificou como a possível fonte da reportagem. Durante depoimento ao Parlamento, Kelly disse não acreditar que ele era a principal fonte. (Reuters, Associated Press e France Presse)”

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“Rede britânica enfrenta crise após anúncio”, copyright O Estado de S. Paulo, 21/07/03

“A BBC enfrentava ontem uma profunda crise após admitir que David Kelly, o cientista do governo britânico que cometeu suicídio, era a principal fonte de sua acusação de que o governo ?esquentou? seu dossiê sobre armas iraquianas.

Apesar de a BBC manter sua reportagem, a admissão levanta dúvidas sobre a precisão de suas acusações e alivia um pouco a pressão sobre Tony Blair.

Os ministros, que já acreditavam que Kelly era a principal fonte da BBC, agora cantam a vitória em sua disputa de força com a rede. Eles estão confiantes de que uma investigação judicial irá descobrir que a acusação da BBC, estava errada.

Os membros do Parlamento já pediram a Gavyen Davies, presidente da BBC, que renuncie. Os ministros acreditam que ele rejeitou os conselhos de colegas que queriam fazer um recuo parcial no começo, pois ele estava determinado a mostrar que não cederia à pressão do governo apesar de suas ligações com o Partido Trabalhista. (Reuters)”

 

“Família atribui morte a ?estresse?”, copyright Folha de S. Paulo, 20/07/03

“Para a família de David Kelly, foi o estresse de estar envolvido em uma polêmica política de grandes proporções que causou a sua morte.

?Os acontecimentos nas últimas semanas tornaram a vida de David insuportável, e todos os envolvidos devem refletir longamente sobre esse fato?, declarou a família em um comunicado lido ontem pela polícia após a confirmação de que um corpo achado na véspera em Southmoor, na região central da Inglaterra, pertencia ao cientista.

Kelly, um microbiólogo que estudou na Universidade de Oxford, era o conselheiro sênior da Secretaria de Controle e Proliferação de Armas no Ministério da Defesa havia mais de três anos.

Antes, ele chefiara uma equipe de inspetores de armas biológicas da ONU que esteve em Bagdá após a Guerra do Golfo, em 1991.

Voltou ao Iraque em junho deste ano por alguns dias e se encontrou com a equipe responsável pela busca das supostas armas de destruição em massa iraquianas. O suposto arsenal foi usado pelos EUA e pelo Reino Unido como principal justificativa para a guerra, mas ainda não foi encontrado.

Entre 1994 e 1999, Kelly trabalhou como conselheiro de armas biológicas da ONU. Scott Ritter, seu colega na época, descreveu-o à BBC como um homem de ?caráter íntegro, alguém que se preocupava profundamente com seu país?. ?Embora ele fosse um homem gentil, ele tinha nervos feitos de aço.?

?Eu nunca vou esquecer do modo como ele sempre insistia que, não importa qual seja a pressão política envolvendo o assunto, nós sempre teríamos que dizer a verdade absoluta. Talvez seja, em parte por isso, que esses fatos terríveis ocorreram?, disse Richard Butler, ex-chefe de inspeção de armas da ONU que também trabalhou com Kelly.”

 

“David Kelly era a fonte”, copyright Correio Brasiliense, 21/07/03

“Rede estatal BBC afirma que especialista em armas foi quem revelou as informações sobre as supostas armas de destruição em massa de Saddam Hussein. Na Ásia, Tony Blair diz que não vai renunciar

A BBC informou ontem que o ex-inspetor de armas das Nações Unidas David Kelly, encontrado morto na sexta-feira, foi a fonte da denúncia da rede estatal de rádio e TV britânica divulgada em maio. Na reportagem, a BBC afirma que o governo do primeiro-ministro Tony Blair havia exagerado as informações contidas em um relatório dos serviços de inteligência. O objetivo seria convencer a opinião pública de que o regime de Saddam Hussein poderia mobilizar armas de destruição em massa em apenas 45 minutos.

?Depois de termos informado a família do doutor Kelly, podemos confirmar que ele foi nossa principal fonte. A BBC acredita que interpretamos da forma exata e reproduzimos a informação dos fatos obtidos durante as entrevistas com o cientista?, afirmou em um comunicado o diretor de notícias da BBC, Richard Sambrook.

A rede apóia a veracidade da denúncia do jornalista Andrew Gilligan sobre sua conversa com Kelly, apesar de o próprio consultor do Ministério da Defesa britânico ter dito, em depoimento ao Parlamento semana passada, que não foi a fonte do repórter. ?Nós continuamos achando que agimos certo ao difundir os pontos de vista do doutor Kelly ao domínio público?, disse Sambrook. ?No entanto, a BBC sente profundamente que seu envolvimento como nossa fonte tenha terminado de forma trágica?, acrescentou.

A denúncia da BBC se tornou o centro de uma investigação do Parlamento, que busca determinar se Blair enganou a opinião pública e os legisladores sobre os motivos para declarar guerra ao Iraque.

O primeiro-ministro britânico disse ontem que está disposto a depor na investigação judicial que será aberta sobre a morte de Kelly. ?Certamente há coisas das quais falarei, assim como outras pessoas também o farão durante a investigação?, disse Blair em uma entrevista conjunta à imprensa em Seul com o presidente sul-coreano, Roh Moo Hyun. O encontro com Hyun se concentrou principalmente na crise nuclear norte-coreana.

Ele aproveitou para afirmar que tem a firme intenção de permanecer em seu cargo. ?Você tem de ter as costas largas para este trabalho… e eu as tenho?, declarou. Blair, entrevistado pela rede de televisão Sky News durante sua viagem à Ásia, havia descartado convocar o Parlamento, como pediu o chefe da oposição do Partido Conservador, Iain Duncan Smith. Ele chegou ontem à noite a Pequim para uma visita de dois dias e definiu a morte do cientista como uma ?tragédia terrível?.

A morte do ex-inspetor levou Blair a enfrentar a mais grave crise política em seis anos de mandato e transformou sua viagem ao exterior em um pesadelo. Depois dos aplausos do Congresso norte-americano, em Washington, ele soube da morte na viagem ao Japão.

Estresse

Segundo o jornal Sunday Times, Kelly teria enviado um e-mail, pouco antes de morrer, dizendo estar sob forte pressão e chocado com o fato de sua identidade ter sido revelada como fonte da reportagem da BBC.

O destinatário da mensagem teria sido um jornalista norte-americano e Kelly teria feito alusão a ?manobras de muitos atores nas sombras? e ao sentimento de ter sido traído e abandonado pelo Ministério da Defesa. Em outro e-mail enviado a outro especialista em armamentos, Kelly dizia que aguardaria até o fim da semana para avaliar o impacto de suas declarações ao Parlamento britânico.

?Espero que tudo isso termine logo para poder retomar meu trabalho em Bagdá?, disse Kelly, que, segundo a polícia britânica, teria cortado o pulso esquerdo em um bosque perto de sua casa em Oxfordshire, a 70 quilômetros de Londres.

Na última terça-feira, Kelly foi interrogado pelo Parlamento britânico sobre as acusações de que o governo manipulou dados para justificar a guerra ao Iraque. Por sua vez, o repórter Gilligan, que nunca revelou a fonte da denúncia, estava sendo questionado numa sessão a portas fechadas pelo Comitê legislativo, mais ou menos na mesma hora em que Kelly sumiu, na quinta-feira.”

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“Crime abala governo Blair”, copyright Correio Brasiliense, 19/07/03

“David Kelly sabia demais sobre o arsenal de Saddam Hussein. O consultor do governo estava por trás das denúncias da rede BBC acusando a administração trabalhista de mentir para conseguir apoio à guerra

Quem matou David Kello O corpo do renomado cientista e consultor do governo britânico para assuntos de armas de destruição em massa foi encontrado ontem num bosque perto de sua casa, na pequena cidade de Oxfordshire, 70 km ao oeste de Londres. Ele saiu de casa na quarta-feira para caminhar, sem casaco apesar da forte chuva, e não voltou mais.

A polícia diz que só confirmará a causa da morte e a identidade da vítima depois da necropsia – provavelmente hoje -, aumentando as suspeitas de ?queima de arquivo?. Em meio a tantos mistérios envolvendo a descoberta do cadáver de Kelly, só existe uma certeza: ele sabia demais sobre o suposto arsenal iraquiano e incomodava muita gente no alto escalão do governo britânico.

Assessores do primeiro-ministro Tony Blair vinham apontando Kelly como responsável pelas denúncias jornalísticas de que o governo mentiu sobre a ameaça representada pelo antigo regime iraquiano. A morte do cientista coloca Blair em uma situação complicada, mas pode representar um alívio para o premiê. Kelly, 59 anos, era um dos homens que mais conhecia os dossiês de inteligência sobre os supostos arsenais iraquianos proibidos. Nesse contexto, ganha força a possibilidade de ?queima de arquivo?.

A polícia trata o caso ?como uma morte inexplicada?. Se o corpo encontrado for mesmo de David Kelly, isso representará uma ?crise governamental de grande dimensão?, afirmou Adam Boulton, especialista em política da rede Sky News. O premiê foi informado da descoberta quando voava dos Estados Unidos para o Japão e prometeu mobilizar o Ministério da Defesa para investigar o caso.

Crise de credibilidade

A morte de Kelly em circunstâncias misteriosas acirra a crise de credibilidade que assola o governo britânico. Nas últimas semanas, o nome do cientista apareceu em todos os jornais, TVs e rádios. Segundo o Ministério da Defesa, ele era a fonte da rede BBC, cujo noticiário afirmava que o governo ?maquiou? um dossiê de inteligência para justificar a guerra contra o Iraque.

A matéria do repórter Andrew Gilligan dizia, citando uma ?fonte oficial?, que o documento usado por Tony Blair para convencer o mundo de que o regime iraquiano poderia usar armas de destruição em massa contra alvos ocidentais em 45 minutos era exagerado. Segundo a mesma fonte, a probabilidade de o Iraque possuir arsenais proibidos pelas Nações Unidas não chegava a 30%.

Para o Ministério de Defesa, essas afirmações só poderiam ter saído da boca de Kelly. Uma porta-voz militar disse que ele havia infringido regras mas que não seria punido por isso. Mas segundo alguns parlamentares, o cientista foi usado como ?bode expiatório? para desviar a investigação sobre a invasão do Iraque. O jornal britânico The Independent, citando fontes do governo, disse que o cientista se sentia ?traído? e que ele considerava que o Ministério da Defesa tinha quebrado o acordo de que seu nome não seria revelado.

Depondo na CPI

Diante da crescente polêmica, Kelly depôs nesta semana diante da comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Comuns, que investiga os argumentos que a Grã-Bretanha usou para entrar na guerra contra o Iraque. Kelly admitiu que tinha conversado com Andrew Gilligan, mas negou ser a principal fonte da reportagem.

Durante todo o depoimento, mostrou estar claramente incomodado com sua fama repentina. Apesar de vários pedidos para falar mais alto, murmurou cada uma de suas frases. Amigos relatam que ele se sentia mal com a polêmica provocada pelas denúncias da BBC. Um deles diz que Kelly estava morando em um local protegido, mas voltou para casa porque estava infeliz.

A BBC continua se recusando a revelar a identidade do ?alto funcionário? que avaliou o documento usado para justificar a guerra ao Iraque. Mas a rede financiada por recursos públicos já enfrenta acusações de que, se tivesse negado ser Kelly sua fonte, ele ainda estaria vivo.

PERSONAGENS DO MISTÉRIO

Andrew Gilligan: jornalista da BBC. Mantinha contato direto com David Kelly. Até hoje se recusa a dizer se o cientista era mesmo sua principal fonte

Alastair Campbell: assessor de imprensa do premiê. Foi apontado pela BBC como o homem que incitou o governo a exagerar a ameaça representada pelo Iraque

Geoff Hoon: Ministro britânico da Defesa. Escreveu para a direção da BBC acusando Kelly de ser o autor das denúncias contra o governo.”

 

“De sangue, Blair e BBC”, copyright Folha de S. Paulo, 22/07/03

“Do jeito que vai indo o noticiário sobre a crise no Reino Unido, o diretor da BBC acabará demitindo-se antes de Tony Blair, se é que não vão privatizar a melhor rede pública de televisão do planeta.

Recapitulemos sumariamente o caso: o governo britânico produziu dossiê acusando o Iraque de poder detonar armas de destruição em massa em questão de minutos.

Um cientista, David Kelly, disse à BBC, com o compromisso de seu nome não ser revelado, que o governo ?turbinara? o relatório para vender com mais facilidade a idéia do ataque ao Iraque.

(?Turbinar? é o neologismo que a rapaziada anda usando, no jornalismo brasileiro, para designar o comportamento destinado a tornar, digamos, mais emocionantes certos fatos; agora, usa-se também ?tornar mais sexy? o noticiário. Em ambos os casos, é deplorável).

No fim de semana passado, Kelly suicidou-se (ou foi morto) e tanto a BBC como o governo Tony Blair estão sendo acusados de ter ?sangue nas mãos?.

Contra a BBC, no entanto, pesa apenas a suspeita (não comprovada, é bom redundar) de que ?turbinou? o depoimento de Kelly. Só. Permanece o fato de que o essencial no noticiário da rede pública é verdadeiro: não surgiu, até agora, evidência de que o Iraque de Saddam dispunha de armas de destruição em massa.

Mais: quem envolveu Kelly na história foi o governo britânico ao apontá-lo como a fonte que a BBC não revelara. Se o cientista se matou pela depressão provocada pelo episódio, o sangue está nas mãos do governo, não da BBC, que o preservou enquanto pôde.

O modelo britânico de um imposto que sustenta uma rede pública de informação, com o objetivo de torná-la de fato independente do governo, é precioso e deveria ser exportado, por mais que se tente colocar governo e a BBC no mesmo saco (ou com as mãos no mesmo sangue).”

 

“Inquérito deve examinar também razões para a guerra”, copyright Folha de S. Paulo / Independent, 22/07/03

“Lorde Hutton foi intimado a fazer o impossível. Recebeu a incumbência de dirigir o inquérito sobre os acontecimentos que conduziram à trágica morte do doutor David Kelly e, ao mesmo tempo, foi alertado para que não estudasse os acontecimentos que conduziram à guerra no Iraque.

Nenhum juiz, por mais eminente, poderia conduzir um estudo completo e equilibrado das pressões que resultaram na morte de Kelly e manter, ao mesmo tempo, uma posição agnóstica entre as reservas científicas expressadas por Kelly e as alegações mais estridentes dos políticos.

O governo reconheceu que um inquérito judicial deveria ser realizado, mas ainda se apega à esperança de que possa mantê-lo constrito a limites estreitos. É preciso que reconheça o inevitável e aceite os argumentos em favor de um inquérito mais amplo.

O lamentável é que não o tenha feito dois meses atrás, quando começou a se tornar evidente que armas de destruição em massa não estavam sendo localizadas.

Se o governo tivesse anunciado um inquérito judicial no final de maio, poderia merecidamente assumir o crédito por sua abertura e pela disposição de esquadrinhar até o fundo as razões que levaram o Reino Unido à guerra com base em uma avaliação de inteligência que se provou falsa. Isso teria igualmente evitado as acusações gratuitas contra Kelly e as pressões malfazejas sobre ele.

Os piores escândalos políticos derivam não do erro original, mas das tentativas de negar e ocultar que o erro tenha acontecido. No caso, o governo optou por lançar uma guerra candente contra a BBC, para desviar a atenção do verdadeiro problema: os motivos para que tenha lançado sua guerra contra o Iraque.

Em lugar de ordenar um inquérito completo e independente, o primeiro-ministro Tony Blair passou os dois últimos meses afirmando, com aparente sinceridade, que todo o conteúdo do dossiê de setembro era correto. A única esperança que o governo tem de restaurar sua credibilidade é emergir de seu atual estado de negação e aceitar que parte das alegações feitas antes da guerra se provou falsa.

Blair se aproximou de admitir um erro, ainda que só no ambiente seguro e adulatório do Congresso norte-americano, mas se limitou a usar o condicional: ?Se estivermos errados?. Ele se recusa a admitir ao público que pode ter havido um erro, por medo da reação histérica de seus oponentes políticos a uma admissão de erro humano como essa.

E é nesse ponto que chegamos a um problema fundamental de nossa cultura política, a qual gerou o ambiente maligno no qual a tragédia do doutor Kelly se desen-rolou. A política perdeu a capacidade de discutir questões de maneira racional e ponderada. Em seu lugar, temos uma preocupação destrutiva com as personalidades e uma retórica de debate que busca sensacionalizar e, portanto, exagera os conflitos em lugar de procurar o consenso.

Mas o verdadeiro problema é que as pessoas comuns não infectam conversas cotidianas com o tom agressivo e o ânimo desafiador que se tornou comum na política moderna. E isso se tornou uma barreira entre o público e o Parlamento porque as pessoas decentes simplesmente não se dirigem umas às outras da maneira que os parlamentares se tratam na Câmara dos Comuns.

E a mídia de massa é parte dessa cultura destrutiva e sensacionalizante. Se Andrew Gilligan tivesse escrito uma reportagem moderada informando que alguns especialistas tinham reservas sóbrias e científicas sobre o dossiê de setembro, a história dos dois últimos meses teria sido diferente.

Mas optou por produzir uma alegação de conspiração para iludir o público e temperar a história, que ele sabia atrairia os criadores de manchetes.

A BBC tampouco pode lavar as mãos de sua responsabilidade, porque recrutou e encorajou Gilligan a criar uma agenda noticiosa, em lugar de noticiar os fatos.

Um inquérito judicial é necessário tanto em relação à justificação da guerra no Iraque quanto à morte do doutor Kelly. Mas o Reino Unido também merece uma cultura política mais respeitosa e um padrão mais maduro de jornalismo político.

(Robin Cook, 57, é membro do Parlamento pelo Partido Trabalhista. Foi ministro das Relações Exteriores durante o primeiro mandato de Tony Blair (1997-2001) e líder do governo no Parlamento de 2001 a 2003. Renunciou ao cargo em março por discordar da participação do Reino Unido na Guerra do Iraque.)”

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