Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > RETRATOS DE SÃO PAULO

O Estado de S. Paulo

Por lgarcia em 13/01/2004 na edição 259

RAI

“TV italiana completa 50 anos no ar”, copyright o Estado de S. Paulo, 10/1/04

“A rede estatal italiana RAI, maior rede de TV da Itália, está completando 50 anos em um clima de incerteza sobre seu futuro e sua tradicional hegemonia.

Em janeiro de 1954, às 11 horas, um noticiário se tornava a primeira transmissão oficial da RAI. A TV, em preto e branco, refletia perfeitamente com essa tonalidade uma Itália ainda convalescente por causa de uma guerra encerrada menos de uma década antes, em um período em que o país começava a dar os passos para um desenvolvimento econômico.

De uns tempos para cá, o canal perdeu sua tradicional hegemonia, chegando ao ponto de várias faixas de horário serem patrimônio da rival, que ameaça inclusive o território, até agora imbatível, dos noticiários.

A chegada ao governo da centro-direita liderada por Silvio Berlusconi tornou mais complicado o clima, pois o primeiro-ministro também é o proprietário da Mediaset, com outros três canais que competem com os três da rede pública.

No total, os seis somam mais de 90 por cento da audiência e das arrecadações por publicidade, um bolo cada vez mais disputado.

Por enquanto a RAI se mantém com um triplo sistema: contribuições do Estado, arrecadação por publicidade e um valor anual de cerca de cem euros por cada aparelho de televisão, polêmico porque os cidadãos acreditam que já pagam sua parte com os impostos.

O duplo papel de líder político e de magnata empresarial de Berlusconi está na origem do que se conhece como ?conflito de interesses?, a difícil compatibilidade entre quem rege os destinos do país e mantém seus lucrativos negócios.

Agora os funcionários da RAI estão preocupados com os efeitos da chamada ?lei Gasparri?, que reorganiza o sistema televisivo. Aprovada duas semanas antes após mais de um ano de duros debates, ela estabelece as bases para a futura privatização da RAI, acelera a introdução da tecnologia digital e torna compatível a propriedade de redes televisivas e de jornais, ao contrário do disposto atualmente.

O outro elemento polêmico relacionado à rede estatal é se ela realmente cumpre seu papel de serviço público, enquanto sua programação inclui, como as particulares, programas de gosto duvidoso e vários intervalos comerciais.”

 

RETRATOS DE SÃO PAULO

“A primeira reportagem fotográfica de São Paulo”, copyright Jornal do Brasil, 10/1/04

“O que teria levado um jovem ator carioca de 25 anos a empreender em poucos meses de 1862 e 1863 uma ambiciosa reportagem fotográfica de mais de 100 imagens de São Paulo ? logo de uma cidade com menos de 50 ruas e 30 mil habitantes, que nada deixava prever que se tornaria no século seguinte a maior da América do Sul?

Graças à descoberta em 1998 de um álbum desconhecido com 66 vistas de São Paulo ? muitas inéditas ? tiradas por Militão tornou-se possível um estudo para reconstituir a totalidade da primeira reportagem fotográfica da cidade, das quais apenas cerca de 30 eram já bastante conhecidas e constantemente repetidas nos livros sobre São Paulo. O livro Militão Augusto de Azevedo ? São Paulo nos anos 1860 ? que publica este estudo ? resgata o feito extraordinário que representou este retrato completo de São Paulo, realizado por um recém-iniciado na arte da fotografia, que resolveu tirar em alguns meses dezenas de fotos de uma cidade prestes a ingressar no surto de crescimento mais espetacular do continente no século 20.

Os motivos são vários para que, no limiar do século 21, deva-se considerar o conjunto de imagens dos anos 1860 deixado por Militão como quase milagroso: a extensão e o escopo do trabalho do fotógrafo, que quis cobrir palmo a palmo as principais ruas da cidade; a grande qualidade das vistas apesar de sua relativa inexperiência; e seu domínio da complicada técnica da revelação. A sorte também desempenhou papel importante ao permitir que 80% do melhor de sua produção chegassem até nós em excelente estado de conservação, o que raramente acontece com tiragens dos primórdios da fotografia brasileira, devido ao clima e às vicissitudes por que passaram os originais em papel ao longo de quase 140 anos.

Mas, ainda que Militão tenha sido o maior fotógrafo de São Paulo no século 19, sua obra ficou esquecida durante boa parte do século 20, quando as vistas eram reproduzidas como anônimas em inúmeros livros a respeito da história paulistana. Afonso Taunay, o primeiro grande especialista em iconografia de São Paulo, identificou corretamente Militão como o autor daquelas vistas em estudos publicados a partir dos anos 1930, mas depois das comemorações do IV Centenário de São Paulo, em 1954, a identidade do artista voltou inexplicavelmente ao esquecimento. A partir dos anos 1970, uma vez claramente identificado Militão como o autor das vistas tantas vezes reproduzidas da velha cidade de São Paulo, os estudos sobre sua obra se concentraram em torno do chamado Álbum comparativo 1862-1887, que se tornou mais conhecido quando a prefeitura de São Paulo publicou duas edições fac-similares nos anos 1980.

É fácil compreender por que o Álbum comparativo suscitou tanto interesse: descobriu-se que o que tornou possível sua realização foi o fato de que Militão conservara uma parte dos negativos em vidro da série de vistas da cidade que executara em 1862 e, ao constatar o notável crescimento da cidade, que havia dobrado de tamanho em 1887, decidira tirar novas vistas de ângulos semelhantes para comparar a evolução urbana naqueles 25 anos. Publicou então, artesanalmente, colando as fotos uma a uma, o Álbum comparativo, composto de 60 imagens, que, conforme esperava, faria grande sucesso pela curiosidade dos habitantes em comprovar o notável crescimento de sua cidade. O empreendimento, no entanto, foi um fracasso comercial. Hoje são conhecidos cerca de 12 exemplares, conservados em instituições públicas e coleções privadas, e nenhum deles em bom estado.

A ênfase no Álbum, no entanto, ofuscou a compreensão daquilo que é sem dúvida um corpo de imagens incomparavelmente mais significativo: a primeira reportagem de cerca de 100 fotos realizada por Militão da cidade de São Paulo em 1862/63, completada com algumas vistas adicionais em 1868.

Essa é a verdadeira grande realização de Militão, que permitiu a São Paulo dispor de um número maior de vistas realizadas no início da década de 1860 do que qualquer outra cidade brasileira ? à exceção do Rio de Janeiro, cidade incomparavelmente mais importante na época e também capital do Império.

O que teria levado o jovem Militão a decidir fotografar com tanto detalhe uma cidade que nem sequer era a maior da Província, e que pouquíssimos artistas se preocuparam em retratar antes dele? Já se chegou a dizer que sua motivação era apenas a curiosidade ? o que não faz nenhum sentido. A verdadeira resposta certamente está num anúncio recém-descoberto redigido de forma tosca e publicado no Correio Paulistano em 22 de outubro de 1863: ?AOS SENHORES ESTUDANTES DO 5? ANNO: Album com 30 vistas dos principaes edificios e ruas desta cidade vende-se por comodo preço na rua Direita, n? 36, loja. Estas vistas são tiradas a photographia: os srs. quinto-annistas que teem de retirar-se desta cidade para o seio de suas familias e que quiserem levar consigo este album terão assim uma recordação agradável da cidade onde passaram talvez a melhor epoca da vida (…). J. C. Muller.?

Müller era outro retratista estabelecido em São Paulo, que emprestou seu estabelecimento para que Militão, que não tinha endereço comercial, vendesse seus álbuns aos estudantes. Dada a clientela-alvo, não é por acaso que a Faculdade de Direito e suas imediações sejam um dos focos principais das fotos de Militão. No entanto, talvez pelo leque demasiado amplo de opções ou, mais provavelmente, devido ao preço relativamente elevado dos álbuns e às mesadas apertadas dos estudantes da Faculdade de Direito, aparentemente a iniciativa de Militão teve pouco sucesso, tanto que logo depois optou pela atividade, muito mais lucrativa, de retratista, na qual, como sabemos, finalmente encontrou certa prosperidade. Durante os anos em que exerceu o retrato, de 1863 a 1886, e sobretudo a partir de 1869, não consta que Militão tenha realizado mais vistas da cidade, a não ser ocasionalmente, concentrando-se nos mais de 12 mil retratos (quase a metade da então população de São Paulo) que teve a oportunidade de fazer naqueles 24 anos. A quase totalidade de sua produção como retratista foi cuidadosamente preservada pela família por 90 anos e é hoje conservada no Museu Paulista.

A cidade que Militão encontrou ao preparar-se para a estréia da peça Luxo e vaidade, de Joaquim Manuel de Macedo, em novembro de 1862, contava com mais ou menos 25 mil habitantes. De toda essa população bastante conservadora, constituída em sua maioria por mulheres que quase nunca saíam às ruas, somente pequena parcela se misturaria a um jovem ator recém-chegado do Rio de Janeiro: os intelectuais, boêmios e os estudantes (e talvez as prostitutas). Calcula-se que em 1862 vivessem em São Paulo 500 ou 600 estudantes, vindos de todas as regiões do país, muitas vezes de famílias tradicionais, grupo suficientemente amplo e aberto para que Militão pudesse logo encontrar almas gêmeas e fazer amigos. Algum deles pode ter sugerido a idéia da primeira reportagem fotográfica da cidade, ao comentar que teria de voltar à sua cidade natal sem nenhuma recordação de São Paulo, que só poderia descrever de memória. Durante o período, o jovem fotógrafo deve ter conhecido luminares como Castro Alves, o futuro barão do Rio Branco, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, além de Ângelo Agostini, o brilhante caricaturista, que foi amigo do fotógrafo Gaspar, empregador de Militão na época.

Até a recente descoberta do anúncio de 1863 no Correio Paulistano muitos estudiosos quiseram ver em Militão um esquadrinhador sistemático da cidade movido por uma noção de importância de seu trabalho de documentação, e consciente de que estava tornando perene uma fase da evolução da cidade. Certamente não foi o caso. Esta é a perspectiva influenciada pelo estudo do Álbum comparativo, realizado em 1887, único momento em que Militão tomou realmente consciência de algum papel de historiador visual da cidade, 25 anos depois de suas primeiras vistas.

Militão era um homem de entusiasmos, que escolheu cedo uma profissão errante e conduziu sua vida ao sabor dos projetos imediatos. É irônico concluir que o essencial do legado de Militão se deva em última análise a dois fracassos comerciais. As apostas perdidas valeram a São Paulo as duas séries de imagens mais importantes de sua história.”

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